Diário da Região

O lobista Milton Pascowitch, novo delator da Operação Lava Jato, tinha crachá da Petrobras de livre acesso ao Estaleiro Rio Grande (RS), onde participava de reuniões e acompanhava as construções dos cascos das primeiras plataformas brasileiras para uso nos campos do pré-sal, na Bacia de Santos. Os contratos do estaleiro comprado, em 2010, pela Engevix Engenharia são alvos da nova etapa das investigações, que mira a reprodução do esquema de cartel e corrupção descoberto nas obras de refinarias em outros setores como a área naval e de plataformas. O crachá foi apreendido pela Polícia Federal em buscas realizadas em maio nos endereços de empresas de Pascowitch, em São Paulo. O documento foi apresentado a um dos sócios da Engevix - empresa para quem o lobista é acusado de operar propina - Gerson de Mello Almada. "No tocante ao crachá (?), onde Milton Pascowitch consta como 'Diretor Executivo' da Engevix afirma que o mesmo foi confeccionado pela Petrobras e visava permitir o ingresso de Milton nas dependências do Estaleiro Rio Grande", contou o empresário, em depoimento prestado no dia 10 de abril. Preso em maio pela Lava Jato e acusado de ser um dos operadores de propina via contatos na Diretoria de Serviços da Petrobras, Pascowitcht foi liberado na segunda-feira, 29, para cumprir preventiva em regime domiciliar, monitorado por tornozeleiras eletrônicas. A medida faz parte de acordo de delação premiada fechado com o Ministério Público Federal. A colaboração de Pascowitch, proposta pela defesa do investigado, era considerada importante para descobrir se falsas consultorias serviram para ocultar propina para o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. A Jamp Engenheiros Associados, que pertence ao lobista, pagou R$ 1,4 milhão entre 2011 e 2012 para a empresa do ex-ministro JD Assessoria e Consultoria. Pré-sal A descoberta de documentos e a colaboração de outros alvos da Lava Jato, levaram investigadores a acreditar que, além de detalhar se houve irregularidades nos pagamentos ao ex-ministro, Pascowitch será peça-chave para aprofundar as investigações de corrupção e fraudes em contratos de estaleiros, navios, plataformas e sondas. Um desses negócios a ser detalhado pelo lobista será a compra do Estaleiro Rio Grande, em 2010, pela Engevix e o fechamento de dois contratos bilionários para a construção de 8 cascos de plataformas (FPSOs), com a Petrobras, e três navios-sondas com a empresa Sete Brasil - criada pela estatal com investidores privados e fundos de investimento. "(Pascowitch) acompanhava a construção dos cascos, das obras do ERG (Estaleiro Rio Grande) 2 e participava de algumas reuniões", afirmou Almada. Preso em 14 de novembro de 2014 e desde abril em prisão domiciliar, o dono da Engevix detalhou o papel de destaque de Pascowitch no negócio do Estaleiro Rio Grande. Almada não virou delator, como Pascowitch, mas colaborou com a Justiça ao confirmar pagamentos de "lobby" como forma de garantir contratos na estatal. O dono da Engevix afirmou que o lobista abria portas na Petrobras, mantendo contatos com o PT e o ex-diretor de Serviços Renato Duque - cota do partido no esquema de loteamento político de cargos na petrolífera. Elos Investigadores da Lava Jato suspeitam que o esquema sistematizado de corrupção em obras de refinarias foi espelhado nos contratos do pré-sal. Nele, empresas do cartel pagavam propinas que iam de 1% a 3% do valor dos contratos a agentes públicos, partidos e políticos - sob o comando de PT, PMDB e PP. A construção dos cascos de plataformas, que era acompanhada por Pascowitch, segundo Almada, foi um dos contratos em que o lobista acertou o recebimento de US$ 120 milhões com a Engevix. "A fim de viabilizar o negócio foram firmados contratos com a Jamp de Milton Pascowitch, no valor de aproximado de US$ 120 milhões", contou Almada. "Parte desse valor, US$ 10 milhões foi pago mediante outro contrato com uma empresa internacional vinculada a Milton, de nome MJ2 Internacional." Na transcrição do depoimento de Almada, a Polícia Federal registrou a cifra em reais (R$ 120 milhões). Mas, por extenso, anotou o valor em dólares (120 milhões de dólares). O primeiro casco das plataformas tipo FPSOs (sigla em inglês para unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência de óleo) Replicantes foi entregue em dezembro do ano passado para montagem da P-66 - que está no Estaleiro BrasFels, em Angra dos Reis, e entrará em operação em 2016, no Campo de Lula (BM-S-11), Bacia de Santos. As outras plataformas cujos cascos serão entregues pelo Estaleiro Rio Grande são: P-67, P-68, P-69, P-70 e P-71. Defesa O criminalista Theo Dias, que defende Pascowitch, disse que 'não pretende se manifestar'. Nesta segunda-feira, 29, Theo Dias entregou petição ao Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF4) em que desiste de habeas corpus que havia impetrado pedindo liberdade para seu cliente. A desistência do habeas é uma das condições impostas aos que se propõem a colaborar. A Engevix diz que está prestando os esclarecimentos necessários à Justiça (quanto aos pagamentos para Milton Pascowitch). O ex-ministro José Dirceu afirmou que não teve qualquer envolvimento em contratos para construção de plataformas nem com o estaleiro em questão. Os contratos da JD com a Engevix e com a JAMP tiveram o objetivo de prospectar negócios para a construtora no Peru, o que é confirmado pelos executivos da Engevix. O ex-ministro, espontaneamente, já apresentou ampla documentação sobre seus contratos de consultoria e, por duas vezes, já se colocou à inteira disposição da Justiça do Paraná para prestar depoimento.

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