Diário da Região

09/07/2017 - 00h00min

Macaubal

Kiko, de prefeito a servente de pedreiro

Macaubal

Guilherme Baffi Dorivaldo Botelho, o Kiko, 65 anos, ex-prefeito de Macaubal, diz que está decepcionado com a política: “Não quero mais saber. Até saí do meu partido”
Dorivaldo Botelho, o Kiko, 65 anos, ex-prefeito de Macaubal, diz que está decepcionado com a política: “Não quero mais saber. Até saí do meu partido”

Em vez da caneta de prefeito, a colher de pedreiro. No lugar da cadeira mais cobiçada da cidade, a betoneira barulhenta. Há seis meses Dorivaldo Botelho, o Kiko, 65 anos, trocou o comando da Prefeitura de Macaubal pela construção civil - é servente de pedreiro. E jura que não se arrepende. “Não quero mais saber de política. Até saí do meu partido. Tem muita ganância, viu”, afirma o senhor de pele vincada pelo sol e olhos claros que, com facilidade, se enchem de lágrimas. 

Kiko é exemplo raro de político que saiu do mandato mais pobre do que entrou. Em 2008, quando era vice-prefeito, declarou à Justiça Eleitoral uma casa no valor de R$ 70 mil. Hoje, vive na casa do irmão mais velho, mestre de obras e atual “patrão” dele, e vai ao trabalho de bicicleta enquanto tenta reformar o seu velho Fusca. “Hoje, sou um homem livre. Não dependo de ninguém. Isso não tem preço no mundo”, diz. Atualmente Kiko e o irmão constróem uma casa na periferia da cidade. 

O ex-prefeito demonstra intimidade com a pá e a massa, erguendo lentamente as paredes do imóvel. Bem diferente da burocracia na prefeitura. “Nunca gostei de papel”, resume. De família humilde, Kiko só estudou até a quarta série do ensino fundamental. Precisou abandonar os estudos para ajudar no sustento da família depois que o pai, caminhoneiro, foi assassinado. Kiko, que tinha 7 anos na época, se juntou aos cinco irmãos para sustentar a família.

Nos anos 1990, deixou o sítio de sete alqueires na zona rural de Macaubal e mudou-se para a cidade. Passou a carpir lotes e a fazer pequenos serviços para a prefeitura, como a pintura da sarjeta em frente à Igreja Matriz. Também tomou gosto por projetos sociais. Saía com carrinho de supermercado pela rua para pedir doação de alimentos para o Hospital do Câncer de Barretos e pegava retalho de madeira no lixão de Mirassol para fabricar brinquedos a crianças carentes.

Lidar com o povo tornou Kiko popular. Por isso, em 2000, foi convidado para disputar o cargo de vereador. Com 108 votos, não se elegeu, mas não desistiu. Em 2004, foi convidado por Sérgio Luiz de Mira, o Mamão, para ser vice-prefeito em sua chapa. Venceram o pleito. Mamão queria levar o vice para reuniões políticas em São Paulo. Kiko nunca ia. “Preferia pegar a enxada e capinar jardim. Até no lixão cheguei a trabalhar. Nunca fui de rejeitar serviço.” Em 2008, a mesma chapa foi reeleita. “Eu me dava muito bem com o Mamão. Nunca tinha discussão.”

Chegou 2012 e Mamão não poderia disputar novo mandato. Então, escolheu Kiko para sua sucessão. Deu certo novamente. Kiko, candidato pelo PRB, teve 2,9 mil votos. Mas aí veio o drama: lidar com papel o dia todo, participar de reuniões intermináveis, algumas com diálogos anti-republicanos. “Cansei de ver prefeito pedindo 10% de comissão em contrato, bem na minha frente. Nunca aceitei isso. Mas é a ganância do ser humano, né?”

O próprio Kiko não passou incólume nos tribunais. Em 2015, ele e o então tesoureiro da prefeitura foram denunciados pela Procuradoria Geral de Justiça pelo crime de apropriação indébita previdenciária. Segundo a denúncia, eles teriam deixado de repassar a contribuição dos servidores ao Fundo Municipal de Seguridade Social de Macaubal. O rombo, conforme a Procuradoria, soma R$ 4 milhões.

Kiko se defende. “Eram problemas que já vinham de outras gestões. A diferença foi que a bomba estourou no meu colo.” A ação penal ainda não foi julgada. Mas Kiko parece não se preocupar com isso. Seu foco, agora, são os tijolos que empilha, dia após dia, debaixo do sol forte.

Gestão é alvo de críticas na cidade

Os quatro anos de gestão Kiko provocam críticas por parte das entidades de Macaubal. Sérgio Moreira, presidente da Associação Comercial e Industrial de Macaubal (Acima), pondera que Kiko é “uma excelente pessoa”, mas como prefeito deixou a desejar. “Faltou experiência para correr atrás de benefícios para a cidade. Sei que ele não enriqueceu com a política, mas como prefeito perdeu um pouco o controle da situação. Colocou advogados para administrarem por ele e acabou isolado até mesmo pelo partido dele. Terminou (o mandato) sem força política”, analisa.

Ao dar nota ao prefeito, Moreira faz uma divisão. “Ao Kiko como pessoa, nota 10. Como prefeito, nota 6.” A análise de Ivan Alves da Silva, presidente do Sindicato Rural de Macaubal, vai na mesma direção. “Não foi um bom prefeito. Deixou terceiros tomarem conta. Mas é um sujeito simples e honesto”, afirma. Kiko elenca algumas conquistas de sua gestão: construiu uma UBS, uma cozinha piloto, o terminal rodoviário e o aterro sanitário. Mas admite que a crise econômica a partir da metade do mandato atrapalhou muito. “A verba ficou pequena demais.”

Dados oficiais apontam melhoras tímidas na qualidade de vida de Macaubal. De 2012 para 2013, último dado disponível, o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal de Macaubal passou de 0,67 para 0,76 - quanto mais próximo de 1, mais desenvolvido é o município. No entanto, em 2015 a taxa de mortalidade infantil local era de 21,28 por mil nascidos vivos, bem acima das médias regional (5,10) e estadual (10,66), bem como a taxa de analfabetismo (7,86, contra 6,96 na região e 4,33 no município).

Região tem 12 prefeitos sem ensino médio

Atualmente, a região conta com 12 prefeitos que estudaram só o ensino fundamental. Desses, quatro completaram esse ciclo e outros oito, nem isso. Mesmo assim, precisam ler e escrever, já que a Constituição Federal proíbe cidadãos analfabetos de postular cargos eletivos. Em 2010, o então candidato a deputado federal Tiririca (PR-SP) foi acusado de fraudar o documento de registro de candidatura ao declarar que sabia ler e escrever. Para o Ministério Público, Tiririca era analfabeto e não preenchia os requisitos previstos em lei para ser candidato.

Com 1,3 milhão de votos, ele foi o deputado federal mais votado naquele ano. Em 2013, por maioria de votos, o Supremo Tribunal Federal (STF) arquivou a ação penal contra Tiririca. O ministro Gilmar Mendes argumentou que Tiririca se submeteu a ditado simples e leitura, “demonstrando o mínimo de compreensão”. “Apesar das dificuldades apresentadas pelo candidato, comprovou mínimo exigido de alfabetização.”

Ao ser eleito prefeito de Ipiguá, em 2004, Getúlio José de Souza era pintor de paredes, embora tivesse estudado até o ensino médio. “Eu me intoxiquei 23 vezes com tinta”, lembra. Em 2008, não foi reeleito. Quatro anos mais tarde, também não conseguiu uma cadeira na Câmara de Vereadores. Souza fez faculdade de pedagogia e hoje é professor em uma creche do município. Diz que não pretende voltar à política, embora esteja filiado ao Solidariedade.

 

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