Diário da Região

07/10/2014 - 00h49min

Personagens do futebol

Jogadores Mirandinha e Baldini: um reencontro épico

Personagens do futebol

Guilherme Baffi Mirandinha, ex-atacante do São Paulo e Baldini,ex-zagueiro do América
Mirandinha, ex-atacante do São Paulo e Baldini,ex-zagueiro do América

Numa fase iluminada, quando Mirandinha dominava a bola diante do goleiro, o locutor já preparava o grito. Artilheiro do São Paulo na Libertadores e atacante de Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, o ex-jogador relembra que a fase era tão boa ao ponto de "fazer gols enquanto dormia". Rápido e certeiro nas finalizações, Mirandinha não fugia de divididas, numa época em que o pau comia em campos esburacados.


Além das conquistas na carreira, Mirandinha ficou marcado pela grave fratura na perna esquerda sofrida no jogo entre América e São Paulo, no estádio Mário Alves Mendonça, em Rio Preto, pelo Paulistão. Naquela tarde de domingo, dia 24 de novembro de 1974, o São Paulo já vencia o América por 1 a 0, gol do próprio Mirandinha, aos 8 minutos do segundo tempo. Aos 20, com fome de gol, ele invadiu a pequena área e, quando armou a finalização, foi travado pelo zagueiro Baldini, do América. Mirandinha chutou o joelho do adversário e sofreu fratura exposta de tíba e perônio.


O fotógrafo Domício Pinheiro, do Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde, registrou o lance. Uma foto épica, que ganhou o prêmio Esso - o mais importante do jornalismo. Mirandinha, na época com 22 anos, deixou o gramado carregado pela maca e passou aquela noite na Maternidade Nossa Senhora das Graças, na rua Cândido Carneiro, na Vila Santa Cruz. A delegação do São Paulo regressou à Capital de avião, e ele voltou de ambulância dois dias depois. Em fração de segundos, as vidas de Mirandinha, Baldini e do fotógrafo mudaram.


Domício Pinheiro Lance eternizado pelas lentes do fotógrafo Domício Pinheiro; imagem ganhou o Prêmio Esso

Atacante ficou 1.109 dias sem jogar

Depois da fratura na tíbia e na fíbula, em novembro de 1974, Mirandinha só voltou a jogar no dia 7 de dezembro de 1977. Nesse período, foi desenganado por médicos e conviveu com a incerteza se voltaria a jogar futebol. Pensou em voltar a morar em Rio Preto e abrir um comércio. O São Paulo não desistiu do atleta, bancou o tratamento e continuou pagando seus salários. "O São Paulo reuniu os melhores médicos do País. Teve um dia em que 17 doutores me analisaram.

Um deles me disse assim: 'vamos dar um jeito, mas você irá mancar pro resto da vida'. E eu, como queria voltar a jogar bola, perguntei a ele: 'se o campo tem sarjeta?'", disse Mirandinha. Foram sete cirurgias e dois enxertos ósseos. Mirandinha exibe cicatrizes da cintura até as nádegas. "Se fosse, hoje, eu poderia sofrer menos. Aconteceu igual com o lutador Anderson Silva, no final do ano passado, e ele já está treinando." Anderson Silva também fraturou a tíbia e a fíbula ao chutar o norte-americano Chris Weidman, na luta entre eles disputada no dia 28 de dezembro do ano passado, no Ultimate Fight Center (UFC).

Mirandinha voltou a jogar diante do Brasília, pela segunda fase do Campeonato Brasileiro de 1977. Era 7 de dezembro, no Pacaembu. Ele começou na reserva e substituiu Serginho Chulapa depois do intervalo. "O Rubens Minelli (técnico do São Paulo) me chamou e disse para eu ser feliz." Mirandinha não fez gol no seu retorno. Aliás, aquela fase em que a "bola entrava até dormindo" foi embora. Depois de participar de cinco jogos, começando na reserva, ele voltou a ser titular contra o Sport, em fevereiro de 1978, e fez o gol da vitória de virada por 2 a 1. Mirandinha deixou o campo aplaudido e presenteou a mãe com a camisa.

"Pelo amor de Deus, não tirem a camisa de mim. É da minha mãe que vem rezando por mim", disse ele na época. Naquele ano, o São Paulo foi campeão brasileiro e Mirandinha resolveu deixar o clube, após a conquista. Ele fala do São Paulo com carinho. "Eu jogava no Corinthians, meu pai faleceu e perdi o foco. Fui emprestado ao São Paulo por três meses, com o passe estipulado em 1,5 milhão na época, e arrebentei de fazer gols", recorda. Mirandinha começou a carreira no América antes de chegar ao Corinthians, em 1970.

Pierre Duarte/Arquivo Mahamad Kharfan revelou o filme de fotos produzido por Domício Pinheiro naquele jogo no estádio Mário Alves Mendonça

Foto revelada em estúdio de Rio Preto

O fotógrafo Domício Pinheiro só teve noção da imagem que havia obtido no momento de revelar o seu filme - ao contrário de hoje, com as máquinas digitais e até celulares, onde é possível visualizar o retrato antes de imprimi-lo. Foi o libanês Mohamad (Maomé) Kharfan, radicado em Rio Preto, quem revelou a famosa foto de Domício Pinheiro.

Kharfan, hoje com 79 anos, era dono de estúdio na rua Voluntários de São Paulo, no Centro de Rio Preto. "Nós (ele e Domício) tivemos conhecimento da foto somente na hora em que ela foi revelada. Essa foto foi um caso fantástico. O Domício fez a sequência, naquela época a câmera fazia três fotos por segundo, e ele até deixou cópias para o médico Vicente Ferreira Júlio, que atendeu Mirandinha", recordou Kharfan.

Segundo o libanês, Domício aliou sorte ao talento. "O Domício foi um dos primeiros fotógrafos a ficar atrás do gol. Ele teve sorte naquele dia, esperava captar o gol, mas era muito talentoso. Estava acompanhando e pegou a sequência do lance, até que houve o choque e o momento em que caiu. Depois, a perna quebrada e quis revelar imediatamente", recorda Kharfan.

Arquivo Domício Pinheiro morreu em 98

Domício atraía fatos e tragédias

Domício Pinheiro era uma lenda da foto. Diziam que os fatos o procuravam, como a bola procura o craque. Também corria nas redações que atraía tragédias, como o desmoronamento da arquibancada da Vila Belmiro em 1964, que apenas ele fotografou porque só ele estava de frente para o acidente. Enquanto registrava as imagens, os outros fotógrafos estavam preocupados em se salvar. Foi mais um prêmio para sua coleção.

Por causa dessa fama, seu nome não era pronunciado pelos outros jornalistas. Sempre que alguém tinha de se referir a ele batia na madeira. Ganhou o apelido de Toc-toc. Seu sucesso provocava ciúme e inveja em parte dos colegas. Na semana que antecedeu o jogo em Rio Preto, um de seus desafetos assumiu a chefia de pauta da reportagem do Estadão e não hesitou em tramar uma cilada. Na sexta-feira, quando Domício dirigiu-se ao chefe para pegar a escala de domingo, levou um susto.

Em vez de estar escalado para o clássico Santos x Palmeiras, que seria jogado no Morumbi, foi informado que cobriria América x São Paulo. O Palmeiras estava embalado na reta final do segundo turno, que acabaria vencendo, para enfrentar o Corinthians na célebre final do Paulistão de 1974. Além disso, Domício sempre ia para os clássicos.

Por isso, não entendeu o que estava acontecendo e protestou. Discutiu com o superior, reclamou da armação, tentou de todas as formas mudar a escalação. Não teve jeito. Acabou tendo que aceitar.
Na sexta-feira, por causa da armadilha, foi motivo de piada no bar em que os fotógrafos se encontravam todas as noites depois do trabalho. No domingo, voltou para São Paulo com o Prêmio Esso na bolsa. Domício morreu em 1998, aos 76 anos. Toc-toc.










>> Leia aqui o Diário da Região Digital

Mirandinha só voltaria a jogar futebol em 1977, depois de 1.109 dias, sete cirurgias e dois enxertos ósseos. Baldini, recém-promovido das categorias de base e em seu terceiro jogo como profissional, era rotulado de violento por torcidas adversárias. Já Domício Pinheiro faturou o prêmio Esso. Quase 40 anos depois, Baldini e Mirandinha, a convite do Diário, recordaram com todos os detalhes aquela tarde de domingo. "O Mirandinha caído, com a perna toda torta, e os jogadores do São Paulo já olharam para mim. O Piau (atacante) pôs a mão na cabeça e gritou comigo: "assassino", recordou Baldini.

Mirandinha logo isentou o zagueiro americano de qualquer culpa. "Como? Se eu que estava com a bola. Foi igual a do Anderson Silva", afirmou Mirandinha. Os dois ex-jogadores conversaram por horas na semana passada, no estádio Teixeirão, em Rio Preto. "Desde aquele lance nos tornamos amigos. Na quarta-feira seguinte ao jogo no Mário Alves Mendonça, o América foi jogar contra a Portuguesa, no Canindé, e eu fui visitá-lo. O Mirandinha deu entrevista dizendo que não houve nenhum culpado", recordou Baldini, que deixou Ariranha exclusivamente para visitar o amigo.

O encontro estava marcado para as 9 horas. Mirandinha chegou uma hora antes e aguardava ansiosamente. Quando Baldini desceu do carro, Mirandinha fez uma piadinha. "Pô, porque você não tinha essa cintura naquele dia do jogo. Com essa cinturinha de ovo, você não me pegava", brincou. Ambos apertaram as mãos e se abraçaram. Natural de Bebedouro, Mirandinha voltou a morar em Rio Preto e acompanha diariamente a preparação do time de juniores (sub-20) do América que irá participar da Copa São Paulo. "Ele é o meu superintendente, sabe tudo de futebol", disse o presidente do Rubro, José Carlos Pereira Neto, o Zé Branco.

Baldini mora em Ariranha e, ao contrário de Mirandinha, não quer saber muito de futebol. "Bola? Só se for de carne", brincou o ex-zagueiro, que encerrou a carreira cedo, aos 30 anos, com o falecimento da sogra. Depois daquele acidente, o futebol de Mirandinha e de Baldini não foi mais o mesmo. Mirandinha perdeu espaço no São Paulo, inclusive para Milton Cruz, hoje auxiliar técnico do Tricolor, e rodou por equipes menores.

Já Baldini, em começo de carreira, ganhou muitos inimigos e a fama de ter quebrado a perna de um companheiro de profissão. "Eu estava começando a carreira, aos 18 anos, e era intimidado pelos adversários. Eu tinha um estilo de jogo, com raça e não temia dividida, mas passei a puxar o freio de mão", contou Baldini.

Domício Pinheiro/Guilherme Baffi O ex-zagueiro Baldini (dir.), do América, e o ex-atacante Mirandinha, que na época jogava no São Paulo, simularam o choque que protagonizaram em novembro de 1974, no estádio Mário Alves Mendonça, e que provocou fratura exposta na perna esquerda de Mirandi

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Diário da Região

Esperamos que você tenha aproveitado as matérias gratuitas!
Você atingiu o limite de reportagens neste mês.

Continue muito bem informado, seja nosso assinante e tenha acesso ilimitado a todo conteúdo produzido pelo Diário da Região

Assinatura Digital por apenas R$ 1,00*

Nos três primeiros meses. Após o período R$ 16,90
Diário da Região
Continue lendo nosso conteúdo gratuitamente Preencha os campos abaixo para
ganhar + 3 matérias!
Tenha acesso ilimitado para todos os produtos do Diário da Região
Diário da Região Digital
por apenas R$ 1,00*
*Nos três primeiros meses. Após o período R$ 16,90

Já é Assinante?

LOGAR
Faça Seu Login
Informe o e-mail e senha para acessar o Diário da Região.
Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para acessar o Diário da Região.