Diário da Região

23/01/2017 - 11h58min

CRÍTICA

Minissérie 'Dois Irmãos' reverbera fim da utopia brasileira

CRÍTICA

Reprodução Interpretando dois personagens na minissérie da Globo que termina nesta sexta, 20
Interpretando dois personagens na minissérie da Globo que termina nesta sexta, 20

Terminada a minissérie Dois Irmãos, acho que já pode ser considerada um marco de qualidade na TV aberta brasileira. Já conhecíamos há muito a excelência do texto do escritor Milton Hatoum. O romance agora é recriado no roteiro de Maria Camargo e na direção de Luiz Fernando Carvalho. Com as devidas adaptações, Maria optou por uma transcrição fiel.

Já Luiz Fernando acentuou o tom paroxístico de algumas partes do relato e o espraiou para a história toda. Foi barroco como costuma ser, pois é seu estilo. Desse modo criou quase uma ópera familiar de proporções bíblicas, em que o ódio entre os gêmeos acende o fogo que a tudo e todos consome. Não se pode dizer que a logística de tal produção seja simples. Espichada no tempo, engloba três gerações. Desse modo, os personagens têm de ganhar vários intérpretes. Halim, o patriarca, é vivido por Bruno Anacleto, Antonio Calloni e Antonio Fagundes. A mãe, Zana, por Gabriella Mustafá, Juliana Paes e Eliane Giardini. Os gêmeos, por Lorenzo Rocha, Matheus Abreu e Cauã Reymond.

A narrativa em off, na voz de Irandhir Santos, vai costurando acontecimentos e empresta tom reflexivo a uma trama sempre pontuada pela paixão e pelo destempero. É como se visse tudo à distância, porém conservando o calor dos afetos em seu relato. Somente depois de passado o devido tempo encontram-se as palavras justas para expressar aquilo que, no momento em que se vive, é apenas paixão, confusão, dor, violência. É esse o ponto de vista do escritor.

Mais tarde, Irandhir entrará em cena como personagem, participando da ação sem perder a função de narrador. Seria preciso lembrar que o drama familiar de Dois Irmãos não se passa no vácuo. A família evolui junto com os acontecimentos do País e do mundo. O pequeno negócio de Halim torna-se uma venda bem-sucedida quando o ciclo da borracha enche a cidade de dinheiro. Ao mesmo tempo, e pelo mesmo processo, Manaus vai se degradando. As pessoas vão chegando e amontoando-se em palafitas pela periferia. Alguns capítulos sobressaíram-se, como o da eclosão do golpe de 1964.

É emocionante, mas não apenas. A partir dele, evidencia-se a tessitura histórica e nota-se que a trama não fala apenas de um núcleo familiar, embora possa ser lida nessa primeira camada, mas a tragédia do País pode, de certa forma, ser acompanhada pela rivalidade sem remissão entre Omar e Yaqub. A polarização suicida a que chegamos, o vislumbre de um futuro promissor que se revela apenas ilusório, a falta de projeto, a decadência sem apelação - tudo reverbera nessa história de amor e ódio. Pode-se então dizer que o romance de Hatoum, lançado em 2000, seria premonitório, enquanto a versão atualizada na minissérie bebe direto no desalento nacional contemporâneo. Numa linha do romance, o narrador escreve "E o futuro, ou a ideia de um futuro promissor, dissolvia-se no mormaço amazônico". É lindo, e é triste, porque o "mormaço" não é exclusividade de uma região do País. Pequenos problemas (de tom, de dicção, de ritmo) não comprometeram a grandeza da série e sua ambição de prestar-se a camadas de leitura que vão do imediato ao profundo. Uma história bem contada fala de si e também de outras coisas. Esta nos falou do Brasil, de sua utopia falhada de grande nação multiétnica, sensual e feliz. Um fino biscoito oferecido ao público, e que vai deixar saudades. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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