Diário da Região

02/07/2017 - 00h00min

Harry Potter

Era uma vez um bruxinho...

Harry Potter

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Há 20 anos, um menino de rosto magro, joelhos ossudos, cabelos negros e olhos muito verdes, de óculos redondos remendados com fita adesiva e uma fina cicatriz em forma de raio na testa se tornou o herói que definiu toda uma geração e uma das marcas mais famosas em todo o mundo. Só que ninguém imaginava que seria assim quando Harry Potter e a Pedra Filosofal, primeiro livro da série lançada pela escritora J.K. Rowling, chegou às livrarias em 26 de junho de 1997.

Harry nasceu em um trem atrasado de Manchester para Londres em 1990. Rowling escreveu suas primeiras ideias em guardanapos de papel. Cinco anos depois, o manuscrito estava finalizado, sendo que boa parte dele foi datilografado em cafés de Edimburgo, capital da Escócia. Mas o trabalho estava só começando. O texto original foi rejeitado por 12 editoras antes de ganhar uma chance dentro da pequena Bloomsbury. E os fãs devem muito disso a uma garotinha de oito anos.

O presidente da editora, Nigel Newton, revelou em uma entrevista anos atrás que ele decidiu publicar A Pedra Filosofal porque sua filha Alice, com oito anos na época, leu um capítulo do livro enviado pela autora e exigiu mais. A primeira impressão tinha apenas 500 cópias, o que só prova que as expectativas não eram altas - Rowling recebeu em torno de 2 mil libras. Apesar do começo lento, não demorou até que as pessoas começassem a descobrir a saga do menino que sobreviveu ao atentado que matou seus pais e cresceu para cumprir seu destino de se tornar um dos maiores bruxos do mundo e derrotar o lorde das trevas Voldemort.

 

Harry Potter e a Pedra Filosofal - 01072017 De Harry Potter e a Pedra Filosofal (foto), de 2001, até o último filme da saga, As Relíquias da Morte - Parte 2, se passaram dez anos.

Lançamento nacional

No Brasil, Harry Potter e a Pedra Filosofal chegou aproximadamente três anos depois, em 2000, quando a editora Rocco adquiriu os direitos da obra e de suas duas continuações, já lançadas no mercado internacional. E mesmo com o sucesso já existente eles nunca imaginaram o fenômeno que a série se tornaria, como conta ao Diário a editora da Rocco, Mônica Figueiredo, que trabalhou de perto na edição de todos os livros da saga.

“Desde o início, acreditamos no potencial de sucesso dos livros por se tratar de uma narrativa de fantasia original e bem construída. Mas realmente não imaginávamos que a série fosse se tornar o fenômeno que virou. Acredito que isso se deve, entre outros fatores, ao fato de que Harry Potter recuperou e renovou valores importantes para os jovens - uma das características da literatura voltada a esse público -, adaptando-se aos novos tempos e estimulando a imaginação”, diz.

Entre os elementos da trama e da narrativa que contribuíram para o sucesso da série, Mônica destaca alguns: “Um cenário deliciosamente peculiar, que acompanha o cotidiano fantástico de um colégio interno que forma bruxos e ensina magia; a fusão do universo mágico com a tecnologia (vassouras e quadribol, varinhas e livros); o intercâmbio de estilos num único livro, pois há na trama aventura, suspense e romance, associado à discussão de questões universais e atemporais como bullying, orfandade, política, importância da mídia, e a enorme empatia e identificação gerada por personagens tão carismáticos e bem construídos.”

A professora de história Shellida Duarte, hoje com 34 anos, foi uma dessas pessoas que descobriram Harry Potter logo no início. Ela leu o primeiro livro quando ele foi lançado por aqui, antes de se tornar esse fenômeno, influenciada pela irmã, aos 17. “Achei bonitinho, gostoso de ler, então continuei lendo os seguintes sempre quando eram lançados”, recorda.

Mas tudo mudou quando Shellida estava no terceiro ano de faculdade, época em que o sexto livro, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, ia ser lançado. “Eu ainda não tinha lido o quarto e o quinto, então resolvi fazer uma maratona literária. Comecei lá no primeiro e algo se transformou. Não conseguia parar de ler, passei sete dias que mal dormia ou comia. Ter lido na sequência, ver essa história como um todo, me tornou fã.”

 

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 - 01072017 Neste período, a imagem do bruxinho se consolidou junto a novos e antigos fãs

Desde então, Shellida já leu todos os livros várias vezes - “O Prisioneiro de Azkaban (terceiro livro), meu favorito, já li muito mais de dez vezes. Tento ler todos pelo menos uma vez por ano” - e transformou a paixão em coleção. Além de comprar e ganhar muita coisa envolvendo os personagens, ela tem a meta de ter todas as traduções dos livros. “Tenho o original em inglês, uma das primeiras tiragens, tenho em japonês, chinês, francês, português de Portugal.”

A psicóloga Daniele Muelas Tagliette, de 24 anos, teve seu primeiro contato com a saga também na época do lançamento no Brasil, quando ela tinha apenas 7 anos, mas, pela idade, não conseguiu ler o livro inteiro . Dois anos depois, e já tendo visto o primeiro filme, voltou ao mundo da magia criado por Rowling para nunca mais se distanciar. “Fui assistir ao filme e me apaixonei enlouquecidamente. Sempre gostei muito desse universo de magia, que envolve criaturas místicas. Então, voltei aos livros para poder acompanhar e a leitura só confirmou o quanto aquilo era incrível”, conta.

E muito dessa paixão dos fãs vem de uma questão fundamental quando falamos de qualquer tipo de entretenimento: a identificação. O público infantojuvenil que lia Harry Potter na época do lançamento compartilhava com os protagonistas da série a idade, suas dificuldades, são personagens totalmente construídos, que amam, se magoam e lutam pelo que querem assim como os leitores. “Eu tinha até a expectativa de receber a carta de Hogwarts”, afirma Daniele, referindo-se ao processo de seleção da Escola de Magia e Bruxaria. “Além disso, os personagens são inspiradores. Se eles não eram uma representação do que você era, eles eram alguém que você queria ser.”

Sucesso entre adultos

O sucesso de Harry Potter também quebrou barreiras de idade. Lançado como uma obra infantojuvenil, a saga logo foi conquistando adultos por todo o mundo, o que foi uma surpresa, afirma a editora da Rocco Mônica Figueiredo. “A série, pensada inicialmente para os mais novos, acabou conquistando fãs de todas as idades ao acompanhar o amadurecimento dos personagens e tratar de temas atemporais ao longo da história, com uma narrativa original e que respeita a inteligência do leitor. O fato de ter ultrapassado fronteiras - de línguas, culturas e, principalmente, de idade, conquistando igualmente crianças, jovens e adultos - foi sem dúvida um fator determinante para o sucesso extraordinário da obra”, avalia.

Jovem clássico

As primeiras críticas de Harry Potter e a Pedra Filosofal já demonstravam que a obra tinha tudo para se tornar um clássico da literatura, destacando como o trabalho de Rowling combinava de maneira rica elementos do gênero fantasia com a inspiração de uma infinidade de fontes, que iam da teologia cristã ao folclore, e da cultura grega à tragédia shakespeariana, passando pela saga do herói. Já no primeiro ano da publicação veio o reconhecimento. 

Harry Potter e a Pedra Filosofal venceu a categoria de livro infantil do ano no British Book Awards, alguns meses após o lançamento. O primeiro de muitos prêmios que acumularia. A dominação mundial começou logo em seguida, com a obra sendo traduzida para 79 línguas em 200 países. A saga é apontada, inclusive, como fundamental para influenciar a leitura entre crianças e adolescentes da época.

Só que junto com o sucesso vieram as polêmicas. Alguns países baniram o livro e organizações religiosas acusaram o texto de Rowling de conter subtexto satânico. Mas nada disso atrapalhou o caminho que levou A Pedra Filosofal a dar início a uma série de sete livros que vendeu mais de 450 milhões de cópias ao redor do mundo, se transformando na série mais vendida da história. No Brasil, a saga já vendeu mais de 4 milhões de exemplares.

Em números

7 livros
79 línguas
700 países
450 milhões de exemplares vendidos
4 milhões só no Brasil
8 filmes
7,7 bilhões de dólares nas bilheterias de todo o mundo
650 milhões de libras é a fortuna estimada da autora J.K. Rowling

Fonte - Reportagem

 

Daniele Tagliette - 01072017 “É uma paixão que não acaba nunca. A cada novidade a autora desperta um novo ‘boom’ em torno de Harry Potter”, diz a fã Daniele Tagliette

Transição bem-sucedida para o cinema

Já fazendo muito sucesso em sua terra natal, o Reino Unido, e começando a dominar o restante do mundo, Harry Potter e a Pedra Filosofal fez a transição para o cinema em 2001. A adaptação cinematográfica do livro, que foi dirigida por Chris Columbus, de Esqueceram de Mim, tinha a confiança do estúdio, tanto que a continuação, Harry Potter e a Câmara Secreta, começou a ser produzida antes do primeiro filme estrear.

A aposta foi mais que certeira. O filme, que custou US$ 125 milhões para ser feito, arrecadou mais de US$ 974,7 milhões em todo o mundo e se tornou a maior bilheteria do ano. Além disso, desencadeou uma das franquias mais rentáveis da história do cinema. Ao todo, os oito filmes lançados - o sétimo livro foi dividido em dois longas - renderam quase US$ 8 bilhões mundialmente. As adaptações também tiveram um efeito positivo sobre os livros.

Graças aos filmes, uma parcela da população que ainda não conhecia o material fonte fez o caminho inverso, gerando mais uma infinidade de fãs, afirma Mônica Figueiredo, editora da Rocco, que publicou os livros no Brasil. “O sucesso global que a série alcançou foi impulsionado também pelo cinema, com oito filmes que agradaram tanto aos fãs dos livros quanto ao público que fez o caminho inverso e chegou aos livros após ver os filmes. Foi um caso muito bem-sucedido de adaptação cinematográfica, o que colaborou para ampliar seu público.”

Matheus Galzeta, hoje com 22 anos, é um dos fãs de Harry Potter que fizeram esse caminho inverso. Ele descobriu a saga com seis anos por um amigo de escola que vivia lendo os livros, mas foi ter contato de verdade quando ganhou o VHS do filme Harry Potter e a Pedra Filosofal de presente de Natal de uma tia. “Isso me transformou, fiquei encantado com toda a magia que o filme passava. Assistia quase todos os dias. E, assim que os outros filmes foram lançados, fui acompanhando todas as estreias no cinema, crescendo junto com os protagonistas. E quando eu cheguei à pré-adolescência comecei a ler loucamente os livros, porque não aguentava esperar os filmes.”

Mas a história de Matheus com Harry Potter vai muito além. Manter a ligação com o universo criado pela escritora J.K. Rowling foi fundamental para que ele conseguisse se recuperar de um início de depressão, quando ele tinha 18 anos. “Quando o último filme foi lançado, parecia que tudo tinha acabado, mas eu e alguns amigos nos reunimos e decidimos não deixar a magia morrer. Então, criamos o fã clube de Harry Potter aqui em Rio Preto para revivermos as experiências, fazer jogos, assistir aos filmes juntos, falar sobre os livros, conversar. Isso me ajudou na recuperação”, conta.

 

Shellida Duarte - 01072017 A professora de história Shellida Duarte, de 34 anos, é uma colecionadora de livros de Harry Potter. Sua meta é ter edições em todas as línguas

Qualidade

Adaptações de livros - ou de qualquer fonte que seja - sempre recebem uma atenção extra por parte dos fãs do material de base. E quase sempre o resultado fica muito aquém do esperado. Mas isso não aconteceu com Harry Potter. Mesmo com ressalvas e aqueles comentários de sempre de que “faltou algo”, a série cinematográfica se tornou uma parte do todo, amada com a mesma força por aqueles que conhecem bem a obra de Rowling. “Eles foram feitos com muito cuidado e não podemos esquecer nunca que se tratam de uma adaptação. Mudanças são parte disso”, pondera a professora de história Shellida Duarte

Universo em expansão

Não que fazer sucesso seja tarefa fácil, mas mantê-lo após tantos anos também é um grande desafio. Para Harry Potter, no entanto, isso não tem sido um problema. O muito se deve ao fato de a saga contar com fãs tão apaixonados. “Por ter marcado profundamente a vida de milhões de leitores em todo o mundo, a série também se beneficia de uma legião de fãs que acabam se tornando embaixadores da obra, compartilhando sua paixão entre eles e com as novas gerações, mantendo viva a magia da saga”, afirma Mônica Figueiredo, editora da Rocco.

Mas essa força toda também é resultado do trabalho incessante da própria autora, J.K. Rowling, que alimenta regularmente o universo Harry Potter. Além dos sete livros iniciais, a saga já rendeu uma infinidade de outros produtos. Entre eles, está uma oitava obra, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, que é, na verdade, o roteiro da peça de mesmo nome escrita por Rowling com Jack Thorne e John Tiffany.

A montagem, que estreou em 2016 nos palcos de Londres, se passa 19 anos depois do último livro, Harry Potter e as Relíquias da Morte, e mostra Harry como um funcionário do Ministério da Magia, marido e pai de três crianças em idade escolar. “Enquanto Harry lida com um passado que se recusa a ficar para trás, seu filho mais novo, Alvo, deve lutar com o peso de um legado de família que ele nunca quis”, diz a sinopse oficial.

Há, ainda, uma série de contos que a própria autora divulga no site oficial dedicado aos fãs e a todo esse universo, Pottermore, parques temáticos como o da Universal, em Orlando, e o spin-off Animais Fantásticos e Onde Habitam, um livro dentro do livro que foi lançado oficialmente e segue o mesmo caminho de sucesso da série original nos cinemas. O primeiro longa - de uma franquia de cinco - foi lançado no ano passado e arrecadou mais de US$ 814 milhões em todo o mundo. “Esse retorno, para quem é fã, é incrível. A paixão não acaba nunca, foi algo muito marcante, e a cada novidade a autora desperta um novo ‘boom’ em torno de Harry Potter”, afirma a fã Daniele Muelas Tagliette.

Concorrência

Com o sucesso, o que mais se questionava durante os anos 2000 era “qual seria o próximo Harry Potter?”. Que saga literária conseguiria repetir o sucesso do bruxinho na literatura e no cinema? Não faltaram tentativas. Algumas se deram bem, como Crepúsculo, mas nenhuma conseguiu permanecer tão relevante quanto a obra de J.K Rowling. Para Shellida Duarte, fã da saga, isso acontece principalmente pelo pioneirismo de Harry Potter. “Ele é como o Star Wars dos livros e filmes infantojuvenis envolvendo um universo fantástico, é a primeira referência que se tem desse formato.”

 

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