Diário da Região

22/01/2017 - 00h00min

RECONSTRUÇÃO DO GÊNERO

As novas identidades estão mudando a cara dos jovens do século 21

RECONSTRUÇÃO DO GÊNERO

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Cis, trans, não-binário, neutro, fluido. Essas e outras expressões estão cada vez mais em evidência nas redes sociais, nos programas de TV, nos filmes e nas rodas de conversa, colocando a identidade de gênero no topo das discussões sociais da atualidade. No entanto, ainda há muita gente que fica confusa diante de tantas representações e significados, principalmente por conta de um pensamento historicamente arraigado na sociedade que restringe o gênero ao sexo biológico.

O primeiro passo para compreender essa dinâmica cultural que prevalece no mundo de hoje é entender que a identidade gênero é, sobretudo, uma construção social. A construção do gênero e da sexualidade dá-se ao longo de toda a vida. É um processo contínuo e intimamente ligado às experiências e aos anseios de cada pessoa. “A identidade de gênero é a forma na qual a própria pessoa se identifica, independentemente do gênero que lhe é imposto antes mesmo de nascer”, comenta Tássio Acosta Rodrigues, pesquisador do Núcleo de Estudos de Gênero e Diversidade Sexual da UFSCar (câmpus de Sorocaba).

Outra questão que dificulta o entendimento sobre o assunto é a confusão que muitos fazem entre identidade de gênero e orientação sexual. “Orientação sexual é sobre qual sexo a pessoa tem atração afetiva ou sexual (heterossexual, gay, lésbica e bissexual). Já a identidade de gênero é o gênero com o qual a pessoa se identifica, até mesmo com nenhum dos gêneros socialmente construídos.” Segundo ele, quando criamos todo o discurso sobre qual será o comportamento do menino e da menina, passamos a entender que o próprio gênero é uma construção social.

“Há toda uma formação discursiva sobre a criança que ainda não nasceu. Se menino, já imaginam a cor da roupa, dos brinquedos e um comportamento mais competitivo. Se menina, o mesmo ocorrerá com a questão da roupa, os brinquedos mais voltados para as questões domésticas e um comportamento mais cooperativo. Tudo isso porque é aquilo que a sociedade cobra (e cria) do ‘ser menino’ e do ‘ser menina’, fazendo com que o próprio gênero seja uma construção social”, sinaliza.

Dominação patriarcal

Conforme Luzia Margareth Rago, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o conceito de identidade nasceu no século 19, a partir da necessidade da burguesia em formatar a vida em sociedade, criando noções para os papéis representados pelo homem e pela mulher. “Era o momento da Revolução Industrial e do surgimento das grandes cidades, que exigiam uma nova organização do espaço, marcada pela dominação patriarcal”, explica.

Hoje, segundo ela, a nova dinâmica cultural implodiu esse antigo conceito de identidade e a dominação patriarcal foi sacudida pela possibilidade de contestação das relações de poder nas mais múltiplas instâncias. “Houve uma ruptura nessa dominação patriarcal. Até o final dos anos 1970, não havia espaço para a luta das micropolíticas, como a das mulheres e das minorias sexuais. Naquela época, era a luta de classe que estava na boca do povo. Hoje, é a noção de gênero que ocupou esse lugar de evidência”, destaca Margareth.

Para o pesquisador da UFSCar, a internet ampliou a discussão que outrora era silenciada e controlada pelos meios de comunicação e livros oficiais, que suprimiam diversas temáticas, como os direitos da população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros). “As discussões estão a todo instante na internet, nos grupos de Facebook e nas manifestações sociais. A temática sobre os direitos das orientações sexuais e das identidades de gênero deve ser assegurada por estarmos em um país laico e as minorias sociais necessitam de políticas públicas específicas para assegurar seus direitos de viverem com dignidade, e não sob o constante risco de serem agredidas e até assassinadas”, destaca Rodrigues.

Facebook tem 56 tipos de identificação

O universo da identidade de gênero nunca foi tão povoado de termos como agora. Em Nova York, pesquisadores reconheceram 31 identidades de gênero. No Facebook, há 56 formas diferentes para o usuário classificar sua identidade de gênero. Diante de tantas representações, qual a melhor forma de lidar com o outro sem soar preconceituoso no que se refere à forma como ele se identifica socialmente?

“Mais do que pensarmos sobre as principais identidades e suas variações, a necessidade maior se dá em respeitarmos a identidade com a qual a pessoa se identifica. Afinal de contas, cabe única e exclusivamente à pessoa se compreender, enquanto a nós, respeitar”, destaca Tássio Acosta Rodrigues, pesquisador da UFSCar. “Se a pessoa se identifica como mulher, devemos tratá-la no feminino cotidianamente: na chamada escolar, respeitar o uso do banheiro público, etc. E o mesmo para quem tem uma identidade de gênero masculina. Devemos, acima de tudo, respeitar a identidade com a qual a pessoa se identifica.”

Segundo ele, não há uma regra sobre como ser um ou uma transexual, pois cada pessoa se identifica à sua forma e sua maneira. “Podemos ter uma pessoa que tem identidade de gênero feminina (uma mulher transexual ou uma travesti) que ainda assim mantenha sua barba, como no caso da cantora Conchita Wurst, ou que não queira fazer cirurgia para a retirada do pênis; como também há as que se harmonizam e querem a realização da neovaginoplastia. Ou uma pessoa com identidade de gênero masculina (um homem transexual) que mantenha seu seios ou não se harmonize; como também há os que queiram realizar a mastectomia”, explica.
Tássio Rodrigues diz que respeitar as diferenças é fundamental para uma sociedade que respeita os direitos humanos. 

 

Cairo Neres - 21012017 Cairo Neres é transexual e já sofreu uma série de agressões

Identidade vai além do masculino e feminino

O músico Cairo Neres, 23 anos, de Rio Preto, sabe o quanto o respeito é fundamental para as pessoas cuja identidade de gênero e a orientação sexual se diferem dos padrões historicamente impostos pela cultura e pela sociedade. Ele já sofreu uma série de preconceitos e agressões por conta da sua identidade de gênero. “Trabalhei durante três meses em um bar da cidade e não tinha um final de semana em que eu não era caçoado ou agredido por outros caras. Acabei saindo porque não gosto de arrumar briga”, conta. Outra agressão que carrega em sua memória foi sofrida em Votuporanga, enquanto ele ficava com uma menina em uma praça da cidade. 

“Tinha um cara dando em cima da minha paquera. Quando ela foi ao banheiro, ele tentou abordá-la e ela disse que estava ficando comigo. Quando olhou pra mim, ele disse: ‘Você está ficando com isso?’ E veio para cima de mim aos socos e pontapés. Sofri um desmaio e só fui acordar na UPA”, relembra Neres. O músico rio-pretense é um transexual (ou transgênero), pessoa que sente uma incongruência entre seu gênero biológico e sua identidade de gênero. “A minha transexualidade sempre existiu. Há cerca de um ano, minha avó veio me contar que, na minha infância, meus pais me levaram a uma psicóloga porque eu tinha um déficit de atenção fora do comum, e que eu contei a ela que tinha dificuldade em interagir com as minhas primas e brincar de boneca. 

A psicóloga disse aos meus pais que eu apresentava indícios de transexualidade. Não lembrava dessa história até minha avó contar. Eu era muito novo”, diz. Hoje, Neres faz acompanhamento no Ambulatório Municipal de Saúde Integral para Transexuais de Rio Preto, um dos primeiros do estado de São Paulo. Ele faz tratamento com testosterona (hormônio masculino) e quer passar pela cirurgia de retirada dos seios. Na rede pública, a fila de espera para a cirurgia chega a 18 anos, enquanto que na rede particular o procedimento custa, em média, R$ 15 mil.

 

Balzacian Bacchic - 21012017 Morando na Irlanda, Balzacian Bacchic pertence ao gênero fluido

Gênero fluido

Assim como Neres, o professor e ator Balzacian Bacchic, 33, rio-pretense que hoje reside na Irlanda, também gosta de se vestir como homem. No entanto, não considera a sua identidade como transgênero. Ele pertence ao grupo denominado como gênero fluido, termo que exprime a crença do gênero como um conceito flexível, com limites pouco definidos. “Tudo começou quando eu morava no Brasil. Era uma experimentação, um laboratório para a vida”, conta Baal, como ele mesmo se apelidou após se identificar como gênero fluido.

Quando veste roupas tidas como masculinas, Baal usa faixa para apertar os peitos (binder) e gosta de ser tratado como homem pelas outras pessoas. “Quando estava no Brasil, tinha gente que me chamava de dark, caminhoneira e ‘sapatona’. Mas não era o caso. O curioso é que, quando eu era mais feminina, não ficava tanto com homens, embora sentisse atração por eles. Quando aceitei a minha identidade, voltei a ficar com caras de uma forma mais tranquila.”

 

Michael Kennedy - 21012017 Michael Kennedy se define como homossexual cisgênero

Gênero artístico

O garçom e performer Michael Kennedy, 25, também de Rio Preto, é um homossexual cisgênero. Apesar de se relacionar com meninos, ele se sente confortável física e psicologicamente com o sexo que nasceu. Curiosamente, Kennedy faz shows como drag queen. “É o meu gênero artístico, em que eu reverencio a feminilidade. No entanto, no meu dia a dia, me visto o mais ‘masculinamente’ possível”, declara. Quando está ‘montado’, é comum ele pegar ônibus circular. “Acho algo tranquilo. Sempre tem gente querendo tirar foto ou gravar algo para zoar algum amigo. Até porque meu visual artístico não remete tanto a uma mulher ou a uma travesti. Não busco parecer uma mulher, apenas reverencio o universo delas”, pontua.

 

Entenda

Orientação Sexual

Expressão usada para determinar preferências sexuais da pessoa, o gênero pelo qual tem atração afetiva ou sexual 

  • Heterossexual - Pessoa que sente atração pelo gênero oposto
  • Homossexual - Pessoa que sente atração pelo mesmo gênero
  • Bissexual - Pessoa que tem atração sexual por mais de um gênero ou por dois gêneros
  • Assexual - Pessoa que não sente atração por nenhum gênero
  • Pansexual - Pessoa que tem atração por todos os gêneros

Identidade de Gênero

Expressão usada para determinar o gênero com o qual a pessoa se identifica, sem levar em conta o gênero que lhe foi imposto antes do nascimento

  • Cisgênero - Pessoa que se sente confortável física e psicologicamente com o sexo que nasceu (cis, mulher cis, homem cis, cis feminino, cis masculino, mulher cisgênero, homem cisgênero, etc)
  • Transgênero - Pessoa que sente uma incongruência entre seu gênero biológico e sua identidade de gênero, mas que se considera homem ou mulher (trans feminino, trans masculino, homem trans, mulher trans, pessoa trans, mulher transexual, homem transexual, pessoa transexual, etc)
  • Neutro ou nãobinário - Pessoa que se recusa a se denominar homem ou mulher, não se considerando pertencente a nenhum dos dois tipos de gênero impostos pela cultura e pela sociedade (agênero, inconformismo de gênero, variação de gênero, genderqueer, nãobinário e pangênero)
  • Questionamento de gênero - Alguém que ainda tem dúvidas sobre o próprio sexo
  • Bigênero - Pessoa que tem características tanto femininas como masculinas (intersexo e andrógino)
  • Gênero fluido - Termo que exprime a crença do gênero como um conceito flexível, com limites pouco definidos

 

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