Diário da Região

22/03/2015 - 00h02min

Religião

A casa de Deus também é casa de gays

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Hamilton Pavam David e Etho: buscar Deus de todas as formas é o desejo da maioria homossexual
David e Etho: buscar Deus de todas as formas é o desejo da maioria homossexual

Domingo, sete horas da noite no salão de festas de um hotel no bairro Redentora, em Rio Preto. Há três meses, o local é ponto de encontro de homens e mulheres, muitos deles jovens. Nada diferente se não fossem dois detalhes: a maioria é gay e se encontram para rezar. É a Cidade do Refúgio. Muitos falam que foram "expulsos" de outras igrejas e que encontraram aí um espaço para orar sem ser visto como um ser diferente. 

Eles defendem um conceito mais amplo da família, que inclui a tradicional, formada por homem e mulher, e as homossexuais. A igreja, que tem sede em São Paulo, foi fundada em 2011 pela pastora Lanna Holder, casada com a também pastora Rosania Rocha. Lá são cerca de 2 mil frequentadores. A célula da igreja em Rio Preto ainda é provisóriao e atualmente reúne 30 pessoas por domingo. 

"No primeiro culto, em janeiro, éramos cinco pessoas, eu, meu marido e mais três amigos. Hoje somos 30 e o número de fiéis não para de crescer", afirma Etho Romão, pastor da igreja em Rio Preto. De acordo com ele, que é casado com o cabeleireiro David Evandro, 24 anos, a Cidade de Refúgio é a melhor alternativa para todos aqueles que de alguma forma foram rejeitados pela sociedade e pelas religiões tradicionais.

 

igreja Cidade do Refugio O culto dominical na Cidade do Refúgio

Etho nasceu em um lar evangélico e era membro da Assembleia de Deus; por muitos anos foi pastor dessa igreja. "Sempre soube que eu era diferente dos outros irmãos, mas acreditava que isso iria passar e que eu poderia ser como eles. Mas o tempo passou e depois de tanto ouvir que os homossexuais vão para o inferno, decidi assumir a minha posição e contei o que realmente sentia. Foi quando eu perdi o meu cargo na igreja e fui rejeitado pelos outros irmãos."

Depois de pesquisar sobre igrejas inclusivas, o pastor encontrou em São Paulo um templo da igreja Cidade de Refúgio. "Eu estava morando lá a trabalho, quando conheci a teoria inclusiva e fiquei maravilhado. Comecei a frequentar o templo e hoje sou um pastor gay assumido e casado. Meu marido também está se preparando para iniciar o ministério comigo e isso é maravilhoso, pois em nenhum momento da minha vida eu deixei de amar Deus, mesmo sendo homossexual", diz o pastor.

Etho trata o assunto com naturalidade, e afirma que a doutrina é inteira baseada na mesma Bíblia que os pastores de igrejas tradicionais utilizam. "A gente não tem uma bíblia especial, até porque, o livro sagrado é um só. O que acontece é que as pessoas interpretam esse livro de forma errada", explica. Para exemplificar, ele cita a seguinte passagem: "Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. 

Quem pode receber isto, receba-o", Mateus, capítulo 19, versículo 12. De acordo com o pastor, na época em que a Bíblia foi escrita não havia o conceito de homossexualidade. Os eunucos citados em Mateus, segundo Etho, são aqueles que, por algum motivo, não têm vontade do casamento tradicional entre homem e mulher.

 

Hamilson Nascimento Hamilson Nascimento em oração na igreja

'Não há preconceito, somos quem somos'

Apesar de ser aberta a homossexuais, Etho conta que casais heterossexuais e crianças também podem participar dos cultos. "Frequentamos a igreja desde que inaugurou em Rio Preto e estamos gostando muito. Aqui não há preconceito, somos quem somos e como Deus nos fez. O meu Deus nunca irá discriminar outra pessoa porque ela ama outra. 

O meu Deus é puro amor e cabe apenas a Ele julgar o que é certo e errado, o que é pecado ou não", conta Elis Pereira, 21 anos ao lado da companheira, Deise de Oliveira, 30 anos. As duas moram juntas há três anos e contam que se conheceram em um dia e no outro já estavam morando juntas. "Minha mãe nunca aceitou e até hoje temos problemas. Ela não me insulta, mas finge que minha esposa é apenas uma amiga. 

Isso dói, mas estou me acostumando", conta Elis. Já na família de Deise a situação é diferente. Elis é tratada como nora e é bem recebida por todos. "Graças a Deus meus pais não têm qualquer problema. A Elis faz parte da minha família, a gente se ama muito e é esse amor que transborda e que eu quero que todos vejam", disse Deise.

 

Rosania e Lanna Rosania e sua mulher, Lanna, fundadora da Cidade de Refúgio, com sede na capital e filial em Rio Preto

'Deus condena a promiscuidade, não o gay'

As fundadoras da igreja Cidade de Refúgio são casadas há quatro anos e têm histórias de vida bastante parecidas. Ambas faziam parte da igreja Assembleia de Deus. Lanna Holder, tem 41 anos, e durante 20 anos se dedicou à sua antiga igreja. Checou a ser missionária e pregava a doutrina cristã em várias partes do mundo, não só na Assembleia, mas em outras denominações evangélicas.

Sua mulher, Rosania Holder, era pastora na mesma igreja, mas pregava em Boston, nos Estados Unidos, onde morou por 10 anos e ficou conhecida por sua música gospel. Durante 17 anos, Lanna tinha convicção da cura gay. Pregava que Deus havia tirado a homossexualidade da sua vida e que a tinha curado. Atualmente, o discurso dela é diferente.

"Em minha sexualidade Deus não mexeu, porque isso não é errado. Deus não condena o homossexualismo. O que ele condena é a promiscuidade, o adultério, a mentira, o ódio. Isso, sim, é errado", afirma a fundadora Lanna. Quando ela assumiu ser homossexual, foi expulsa da igreja e teve todos os seus livros queimados. "Esse ódio fundamentalista é muito ruim. A Bíblia é um livro e precisa ser interpretado de forma coerente. 

Não se pode pegar uma palavra fora de contexto e repetir para que os outros entendam. É preciso explicar, ser honesto com as pessoas e interpretar de forma correta", diz. Um dos textos mais usados para abominar a prática homossexual é o que está escrito em Romanos, no capítulo 1, versículos do 24 ao 32. "Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundície, para desonrarem seus corpos entre si; (...) 

Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro."

De acordo com Lanna, os religiosos tradicionais pregam que Deus, neste capítulo, está condenando a prática de sexo entre homossexuais, mas segundo ela, na verdade Deus está condenando os "prostitutos sexuais." "Nessa época, a igreja romana era formada na sua maioria por deuses pagãos, e uma das formas de 'agradar' esses deuses era praticar sexo diante do altar. As oferendas a esses deuses também continham sexo entre homens e entre mulheres. É disso que fala o texto e não da homossexualidade. Você não pode usar o seu corpo, a sua sexualidade, para se prostituir religiosamente. Deus não quer isso," explica.

 

Mario Gois_Primeira Igreja Presbiteriana Ensinamos que ‘ser tentado’ não é a mesma coisa que praticar o pecado - Mário Góis, pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Rio Preto

Despreparo

Lanna afirma que recebe diversas críticas de pastores de outras igrejas, mas também pedidos de ajuda. "Alguns muito ignorantes criticam, outros, que são mais humildes até me pedem ajuda. Na verdade, as igrejas não estão preparadas para receber esse público excluído. Eles não sabem como receber os homossexuais", afirma.

A pastora também explica que a igreja não é exclusiva para gays, mas para todos. "Essa igreja é de Deus e todos devem receber a palavra, queremos o hétero, o gay, o viciado, o doente, o humilde, o pobre, o rico, todos são bem-vindos e todos nós seremos salvos em Deus."

Líderes religiosos e as opiniões sobre gays

As opiniões são divergentes quando o assunto é homossexualidade e religião. Muitos líderes preferem não comentar, alguns são claramente contra a homossexualidade e outros saem pela tangente. O pastor titular da primeira igreja Presbiteriana Independente de Rio Preto, Mário Góis, está entre os que se posicionam abertamente contra as práticas homossexuais.

 

 

Padre Jose Aparecido Gonzaga A tradição sempre declarou que 'os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados' - Padre José Aparecido Gonzaga

"Em uma leitura bíblico-teológica pode-se afirmar que a prática do relacionamento homossexual entre homem-homem e mulher-mulher é considerado pecado. Alguns textos condenam o relacionamento homossexual feminino e masculino, como as cartas aos Romanos, capítulo 1, versículos de 24 a 27 e Coríntios capítulo 6 versículos de 9 a 20, no Novo Testamento. Os textos de Levítico capítulo 18, versículo 22 e capítulo 20, versículo 13 por sua vez, no Antigo Testamento, são claros em condenar a homossexualidade masculina", explica o pastor.

Góis também não considera como família um casal formado por homossexuais. De acordo com ele, a Bíblia é clara ao afirmar o conceito de família. Ele ainda afirma que é possível deixar de ser homossexual. "Se pensarmos 'deixar a homossexualidade' como sendo o mesmo que deixar as práticas homossexuais, então sim, é possível. 

Mas, não se pode confundir isso como deixar de se interessar por pessoas do mesmo sexo. Do mesmo modo um homem heterossexual, casado com uma mulher, pode sentir atração por outra mulher, mas não viver na prática do adultério. Normalmente ensinamos que 'ser tentado' não é a mesma coisa que praticar o pecado a que se está sendo tentado", explica.

Católicos

Na Igreja Católica, apesar de não ser possível um casal de homossexuais casar, por exemplo, a homossexualidade é vista de forma menos contundente. De acordo com o padre da Pastoral Familiar, José Aparecido Gonzaga, que atua na Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus, em Rio Preto, a Igreja não encara as pessoas como hétero ou homo, mas sim como filhos de Deus, chamados à comunhão com Ele e com o próximo.

Apesar disso, o padre é claro e afirma que: "Apoiando-se na Sagrada Escritura, as práticas homossexuais se apresentam como depravações graves. A tradição sempre declarou que 'os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados'. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados", diz.[...]

 

 

Joao Lucio Cruz_espirita esde que o amor e a união de ideais sejam a tônica - João Lúcio Cruz, da União das Sociedades Espíritas de Rio Preto, sobre a aceitação de famílias gays dentro da doutrina espírita

Espíritas

Já para presidente da União das Sociedades Espíritas de Rio Preto, João Lúcio Cruz, o espiritismo vê a homossexualidade como uma orientação sexual que deve ser encarada com o devido respeito e sem preconceito. João também diz que no espiritismo a concepção do que é pecado ou não é diferente do conceito das demais religiões. 

Ele explica a relação da homossexualidade com a doutrina espírita citando uma passagem de um livro psicografado por Chico Xavier através de seu mentor espiritual Emmanuel: "...a aplicação do sexo, ante a luz do amor e da vida, é assunto pertinente à consciência de cada um". João também afirma que dentro da doutrina espírita casais homossexuais são consideradas famílias como qualquer outra. "Desde que o amor e a união de ideais sejam a tônica."

 

 

 

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