Diário da Região

28/02/2015 - 22h50min

Ajuda sem fronteiras

Missionários da região distribuem solidariedade pelo mundo

Ajuda sem fronteiras

Facebook/Reprodução Crianças carentes de Moçambique participam de uma grande refeição coletiva promovida pelos missionários de Catanduva
Crianças carentes de Moçambique participam de uma grande refeição coletiva promovida pelos missionários de Catanduva

Na pacata Catanduva do começo deste século, a rotina de Wilsimar e Regiane Cezário era comum: desfrutavam as novidades do recente casamento, ele trabalhando como segurança, ela vendedora e carregavam no coração a religiosidade. No secreto lugar em que residem os sonhos, porém, existia inabalável vontade de transformar as próprias vidas em uma extraordinária missão em prol de quem precisa de ajuda.


Desde o início, o desejo de ambos era trabalhar na África. O motivo é simples. O continente abriga países dos mais pobres. Até alcançar o objetivo, foi percorrido um longo caminho de estudo, preparação, desapego, dúvida e espera. A fé não arrefeceu, mesmo com as dificuldades. Há cinco anos, o casal mora e desenvolve ações sociais, educativas e religiosas em Moçambique, uma das nações menos desenvolvidas.


Wilsimar e Regiane não estão sozinhos. Pelo menos, cinco moradores da região, todos ligados às igrejas católica e evangélica, participam de missões humanitárias em países como Moçambique, Senegal e Haiti. Detalhe: todos deixaram o conforto do lar, a proximidade da família e o afago dos amigos para mergulhar no desconhecido e colaborar com pessoas totalmente estranhas. O trabalho é possível porque existe na região de Rio Preto uma rede de amparo, formada por bem-intencionados que contribuem financeiramente para custear os projetos sociais e as despesas dos missionários.


"Recebemos convite da Assembleia de Deus, aceitamos e largamos os empregos para seguir o nosso sonho", conta Regiane, por telefone. O casal não foi embarcado, de pronto, para o outro lado do oceano. O 'sim' foi apenas o começo. Passaram um ano estudando e trabalhando como voluntários em Monte Verde (MG). Ficaram por igual período na Bolívia. Depois, voltaram para Catanduva e cursaram teologia.

Fotos: Facebook/Reprodução Momentos comuns de Wilsimar e Regiane, de Catanduva, em Moçambique; abaixo à esq., o casal está com a filha, Heloísa

Após quatro anos de estudo, tornaram-se pastores e, enfim, seguiram para a missão. Levaram a filha, Heloísa. Mesmo com todo preparo, encontraram um mundo, até então, desconhecido e repleto de pobreza extrema, necessidade alimentar, doenças como malária, cólera e Aids e necessidades de toda sorte em campos da saúde, saneamento, educação e transporte. Mas não desistiram. Nem poderiam. "Encontramos muitas crianças órfãs. Isso mexeu com a gente. Existem muitos problemas. Moçambique é o Brasil de 100 anos atrás", relata Wilsimar. Diante de um quadro tão desolador, nada mais urgente do que trabalhar. E muito. Criaram duas escolas - uma dedicada ao ensino religioso e outra para alfabetizar 120 crianças. Também distribuem roupas, alimentos e o que for possível. Como agradecimento, recebem abraço carinhoso, sorriso sincero e aperto de mão. Os gestos são o capital de um povo sofrido. "Isso é o que importa. Estamos realizados. Somos mais úteis aqui do que no Brasil", afirma Regiane. Ela tem 35 anos e está grávida do segundo filho, que vai nascer em agosto, em Moçambique. A família mora em Chimoio, cidade com 240 mil habitantes a 1,1 mil km de Maputo, a capital. Quase todos os dias, os pastores se deslocam para vilarejos distantes até 50 km para trabalhar. Já foi muito mais difícil. Durante um ano, o casal residiu em uma aldeia que não tinha luz nem água e ficou três meses no Zimbábue. "Ajudar o próximo sempre foi a nossa meta. Queremos trabalhar também com as mulheres e idosos e incentivar a agricultura para que possam produzir comida e suprir as necessidades básicas", conta Wilsimar, 46 anos. Apesar da saudade do Brasil e dos parentes, a família já traçou meta para a vida: ficar para sempre na África.

   

Facebook/Reprodução Criança haitiana, que sofria de úlcera de pressão, é atendida em hospital do Haiti
Frei luta para não aceitar cenas de barbárieDurante suas orações, frei Gabriel Martins Alves, 37 anos, faz um pedido frequente para Deus: força para jamais aceitar, considerar normal ou deixar de se indignar com situações comuns no dia a dia do Haiti, como criança morrer de fome, homicídio motivado por um prato de comida e água contaminada como única opção para saciar a sede. "São coisas assustadoras, que são motivadas por uma dura luta por sobrevivência. É muito triste. Tento, com todas as minhas forças, não aceitar esse tipo de situação. Se isso acontecer, vou fazer tudo de forma mecânica, o que não pode acontecer", afirma frei Gabriel, que nasceu em Zacarias, na região de Rio Preto.O religioso trabalhava na Santa Casa de Aparecida quando recebeu convite do Lar de Jaci (Associação São Francisco de Assis na Providência de Deus) para comandar projetos sociais no Haiti. Há quatro anos está em Porto Príncipe, capital, à frente de inúmeros serviços oferecidos sociais gratuitamente para a população. Na saúde, são feitos 650 atendimentos ambulatoriais por dia e é mantido um programa para combater a temida desnutrição. Na educação, são atendidas 170 crianças. Elas recebem material escolar, uniforme e duas refeições diárias. Por semana, 700 crianças participam de aulas de violão, dança, teatro e futebol e atividades recreativas.

Facebook/Reprodução Freis Afonso (marrom) e Gabriel atendem haitiano em posto

Também são doadas 200 cestas básicas mensais, além de 2,5 mil pães por dia. A iguaria evita que muitos haitianos sejam obrigados a comer um biscoito feito com barro. "As dificuldades que a gente enfrenta só oferecem mais força para continuar e lutar por um mundo um pouco melhor. É gratificante quando a gente percebe que a mãe recebeu orientação e salvou o filho da desnutrição. Hoje eu não gostaria de voltar ao Brasil. Preciso de mais tempo para ajudar."Há seis meses, frei Afonso Lamberti Obici, 40 anos, participa da mesma missão. "É uma forma de trazer alento e alegria a um lugar que tem muita pobreza. É uma realidade difícil." Antes de aceitar o convite, dirigia o Hospital João Paulo 2º., de Rio Preto. Ele afirma que é difícil entender como um país se encontra mergulhado em tantas dificuldades. "Mais da metade da população come abaixo das necessidades diárias", afirma frei Afonso. É a primeira vez que el participa de missão no exterior. Apesar de ser um país miserável, até os serviços públicos são cobrados. Mesmo assim, estão longe de atingir níveis de excelência. Praticamente não há estrutura. Somente as ruas principais são asfaltadas, não há energia elétrica à noite e falta saneamento básico. Para Frei Afonso, é gratificante estar no Haiti.

Facebook/Reprodução Bebê com desnutrição é atendido pela enfermeira rio-pretense Kelly Sadio, em aldeia no Senegal

'Acredito em um mundo melhor'Ao saber que o Senegal necessitava de voluntários para atuar na área de saúde, a rio-pretense Kelly Cristina Sadio, 43 anos, não teve dúvida: largou tudo e seguiu para a África, onde mora há oito anos. Ela não imaginava que a mudança para um lugar distante 5 mil km seria necessária para trazer realização pessoal e profissional e revelar a sua missão no mundo. "Conheci a vida missionária e decidi colocar a minha profissão para ajudar o próximo. Acredito em um mundo melhor. Vale a pena sonhar." Kelly é enfermeira formada pela Famerp e aceitou convite da Missão Atos para fazer o trabalho social. A realidade do Senegal é muito distante da que estava acostumada em Rio Preto. A rotina profissional em solo africano não é das mais fáceis - tanto física quanto psicologicamente. O país tem saúde precária, a infraestrutura não é das melhores e há problema no abastecimento de água. Sem falar na fome, que grita ao abrir a janela, é presente e incomoda. Além das privações, a população sofre de forma frequente com malária, doenças respiratórias e desnutrição. Nas aldeias, a enfermeira recebe as pessoas onde for possível, até embaixo de árvore. Por esse motivo, busca doações para construir um centro de saúde e assim abrigar os pacientes de forma adequada. Não está só. É apoiada pelo marido, o senegalês Aimé, com quem é casada há 2 anos e compartilha as mesmas aspirações. O casal quer construir um alojamento para abrigar 25 meninos. A proposta é oferecer a moradia e preparar os garotos para o futuro. Serão oferecidas aulas de alfabetização, música, esporte e religião. O projeto é necessário, pois vai tirar das ruas meninos de 5 anos. Eles são escravizados e acabam transformados em pedintes. "Acreditamos que escola, educação e religião podem ajudar os garotos a ter esperança em uma vida melhor. Queremos colocar esses sonhos em prática. Eu me sinto realizada em ajudar de alguma forma", conta a rio-pretense. A família mora em Ziguinchor, cidade com menos de 200 mil habitantes a 450 km da Capital, Dakar.Durante a estada de Kelly, o Senegal já passou por inúmeras dificuldades, que resultaram no fechamento de suas fronteiras e também ameaças de conflito, em razão de seus problemas internos ou com países vizinhos. No ano passado, o governo fechou a fronteira com a Guiné onde mais de mil pessoas morreram de ebola, para evitar que o surto da doença chegasse a seu território. No Senegal, houve um caso. A pessoa se recuperou. Nada, porém, que atrapalhe a rotina do casal. "Não tem preço ajudar a salvar a vida de uma criança. Depois, a família agradece e oferece a amizade." Kelly sente saudade dos parentes, amigos e do feijão brasileiro. Nem pensa em desistir. A cada dois anos, tira férias e vem passear em Rio Preto. Mas volta para a África porque sabe que seu trabalho é fundamental na vida de muitas pessoas carentes.

   

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