Diário da Região

29/03/2015 - 02h17min

“Senzalas do vício”

Cracolândias têm endereços novos em Rio Preto

“Senzalas do vício”

Sidnei Costa Usuários de crack consomem a droga à luz do dia em calçada da avenida Alberto Olivieri, no Solo Sagrado
Usuários de crack consomem a droga à luz do dia em calçada da avenida Alberto Olivieri, no Solo Sagrado

As cracolândias resistem em Rio Preto. Como a própria droga protagonista desse ambiente. Mudam os endereços, mudam os zumbis humanos. Mas as senzalas do crack estão lá, à luz dia, bem diante dos olhos anestesiados da sociedade. Bastou que o terreno onde ficava uma antiga cracolândia no Solo Sagrado, zona norte, fosse fechado com tela para os viciados migrarem para uma calçada a 50 metros dali. No início da tarde da segunda-feira, o Diário flagrou quatro deles sentados no local, maltrapilhos, consumindo as pedras com seus cachimbos. Nenhum quis falar com a reportagem.

"Desde que (a cracolândia) saiu do terreno eles ficam aqui. Eles pedem comida, eu dou. Tenho dó. Rezo para que saiam dessa vida", afirma a aposentada Darci Pirola, 70 anos, vizinha da nova cracolândia. Há hoje pelo menos seis "senzalas do crack" na cidade. Entre eles, pontos conhecidos, como um antigo posto de combustível abandonado na avenida Mirassolândia, também no Solo. Há dois meses moram no local duas viciadas: Márcia Mendes e Vânia Pereira, ambas com 32 anos. As duas são de Rio Preto e têm filhos que há tempos não veem.

"Faz dez anos que sou usuária. Saí da casa da minha mãe e desde então estou na rua, sem ver meus quatro filhos", diz Vânia, a mais lúcida delas. O corpo esquálido e os dentes que faltam da boca revelam o uso intenso de crack. São pelo menos cinco pedras por dia, de R$ 5, R$ 10 ou R$ 20, conforme o tamanho. O dinheiro é obtido na recolha de recicláveis ou pedindo esmola. Entre uma e outra tragada no cachimbo, goles de cachaça barata. Márcia havia acabado de fumar uma pedra das grandes. Mal conseguia concatenar as palavras. "A gente passa por muita humilhação. Somos o lixo humano", afirma - ironicamente, pilhas de roupas e resíduos de todo tipo tomam conta do ambiente, com um cheiro forte de urina e restos de comida.

Ao lado de Márcia, Vânia senta-se em um dos dois velhos sofás do imóvel, escorados na parede, resquícios de um lar que o prédio em ruínas nunca foi. Em silêncio, parece pensar em planos para conseguir mais uns trocados. Mais uma pedra.

Soluções

A simples repressão policial nunca vai acabar com as cracolândias, na opinião de Solange Nappo, pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid), da Unifesp. "É eficaz contra o tráfico, mas inútil contra o dependente, porque ele não está lá por vontade própria." Solange considera o programa Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo, a melhor alternativa contra o problema. "Não que ele seja perfeito, mas é a melhor alternativa até agora." O programa paga até R$ 15 por dia de trabalho na varrição de rua e oferece quartos de hotel aos dependentes interessados em se tratar.

Outra alternativa "humana", segundo a pesquisadora, é o programa Atitude, em Recife, em que os viciados passam um tempo de desintoxicação em uma casa e depois obtêm empregos. "O primeiro passo para o tratamento é fazer com o usuário seja aceito novamente pela sociedade, quebrando o paradigma do preconceito", afirma Solange. Diferentemente da Capital, Rio Preto não tem uma política específica para o problema - apenas ações de conscientização e oferta de tratamento, sem a possibilidade de uma nova moradia ou emprego. "É preciso uma política mais específica", afirma a especialista.

 

home acende cachimbo de crack Homem acende cachimbo com “pedra” da droga: dependentes preferem morar na rua para ter mais liberdade

Ônibus de apoio está parado

A Polícia Militar de Rio Preto informou, por meio de nota, que "as chamadas cracolândias são o resultado de anos de fracasso na prevenção e na conscientização da população". Diz anda que, no ano passado, a corporação prendeu 2.680 por tráfico na cidade, com a apreensão de quase duas toneladas de droga.

A PM também critica a lei antidrogas, de 2006, que tem sido "atenuada progressivamente em relação à ponta final desta linha - o usuário". E, por último, defende "investir intensamente na investigação policial e na área da inteligência".
Já a gerente de Saúde Mental de Rio Preto, Daniela Terada, disse por meio de nota que "as políticas de saúde voltadas aos dependentes de drogas têm como base as estratégias de redução de danos, o atendimento humanizado e diversificado, o enfrentamento do estigma do usuário e a ampliação do acesso desta população aos diversos serviços de saúde". 

Entre essas políticas está o Consultório de Rua, que aborda os viciados nos mocós e encaminha aqueles interessados em tratamento para um Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) ou, nos casos mais graves, para o hospital Bezerra de Menezes. Um ônibus cedido pelo governo federal à Prefeitura de Rio Preto para combater o tráfico de drogas, especialmente o crack, está parado na sede da Guarda Civil Municipal. 

Segundo a coordenadora operacional do órgão, Cinira Martins, falta a instalação de 20 câmeras de vídeo em pontos estratégicos da cidade. O serviço ainda será licitado pelo Ministério da Justiça, o que não tem data para ocorrer. Procurada, a Secretaria de Assistência Social do município não se manifestou até o fechamento desta edição.

 

pontos de uso de drogas em rio preto

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