Diário da Região

19/06/2015 - 00h00min

Sobreviventes da miséria

Rio Preto esconde um exército de carentes

Sobreviventes da miséria

GUILHERME BAFFI Migrante da Bahia, Cecília Augusta Santos de Souza (à esquerda) mora há quatro anos em um casebre inacabado com o filho, a nora e dois netos
Migrante da Bahia, Cecília Augusta Santos de Souza (à esquerda) mora há quatro anos em um casebre inacabado com o filho, a nora e dois netos

Em um casebre nos fundos do bairro João Paulo 2º, zona norte de Rio Preto, Cecília almoçou macarrão com molho de tomate. Sua vizinha Maria Helena, arroz, feijão e salada. Carne, só aos fins de semana. É assim há tempos. “O dinheiro é curto, mal dá para o mês todo”, lamenta Cecília. Ao lado, o neto João, 2 anos, procura o peito da mãe, faminto.

Cidade conhecida por sua qualidade de vida e altos índices sociais, Rio Preto esconde em suas franjas um exército de carentes estimado em 79,8 mil pessoas. É como se houvesse, dentro do município, uma Votuporanga de pobreza, contingente que sobrevive com menos de um quarto do salário mínimo, ou R$ 197 per capita, além de apresentar baixo nível de escolaridade e pouca longevidade.

O dado é de pesquisa feita pelo Observatório de Informações Municipais, que estabeleceu para Estados e municípios um Índice de Carência Humana (ICH), o oposto do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU. O índice foi criado a partir da projeção, para 2014, dos IDHs de 2000 e 2010. “É o outro lado do IDH”, resume o pesquisador François Bremaeker. O passo seguinte foi calcular, com base no ICH, a população carente de cada município.

Pelo estudo, Rio Preto tem ICH de 0,1822, o 17º entre as 27 cidades paulistas com mais de 50 mil carentes. Nesse ranking negativo, o município está à frente da Capital, Ribeirão Preto, Bauru, Sorocaba e Campinas.

“Por mais que o poder público, principalmente o governo federal, tenha se esforçado para reduzir a desigualdade socioeconômica, ela ainda persiste, inclusive em regiões muito desenvolvidas como o interior paulista. Ainda há um longo caminho a percorrer nessa batalha”, afirma o especialista em sociologia urbana da Unesp Tiago Dumont.

Miséria

Migrante da Bahia, Cecília Augusta Santos de Souza mora há quatro anos em um casebre inacabado com o filho, a nora e dois netos, de dois e quatro anos de idade. A única renda da família são os R$ 400 por mês que o filho ganha como servente de pedreiro e R$ 112 do Bolsa Família. “A gente só não passa mais necessidade porque muita gente doa roupa e cesta básica”, afirma. Ela admite que há dias em que os netos pedem por comida e não há nada nos armários nem na geladeira.

A energia elétrica e a água vêm de “gatos”. Não há rede de esgoto, apenas fossas improvisadas. Ao lado, Cecília viu a favela crescer - já são seis barracos, contra três há cinco anos. Um deles é o da faxineira Maria Helena das Neves, 55 anos. Com a ajuda de parentes, construiu quarto, sala e cozinha com caibros e pedaços de madeira e papelão. O teto baixo torna o ambiente claustrofóbico em dias de calor.

Com a renda de faxineira, menos de um salário mínimo, sustenta ela e o bisneto de 9 anos, abandonado pela mãe dependente química. “Quando a situação aperta, peço ajuda para a minha filha”, afirma. Os problemas não se resumem à renda. O garoto é hiperativo e tem déficit de concentração. Por isso, vai mal na escola. Em busca de cura, a bisavó promete levá-lo ao psiquiatra. “Ele precisa ter uma vida melhor do que a minha.”

 

FAMILIAS CARENTES - Faxineira Maria Helena das Neves Faxineira Maria Helena das Neves, 55 anos, construiu quarto, sala e cozinha com caibros e pedaços de madeira e papelão

Assistência tem investimento de 2%

Em 2013, Rio Preto gastou 2,07% do seu Orçamento de R$ 1,13 bilhão em ações de assistência social. Proporcionalmente, no grupo das 28 cidades paulistas com população entre 200 mil e 500 mil habitantes, é apenas a 22ª, atrás de municípios como Santos, Marília, Limeira, Franca, Bauru e Americana. “Uma cidade conhecida pelos bons indicadores sociais deveria investir mais no setor”, afirma o pesquisador François Bremaeker.

Em números absolutos, a Prefeitura investiu naquele ano R$ 23,6 milhões, dos quais R$ 1,9 milhão em assistência ao idoso, R$ 911 mil em assistência ao portador de deficiência, R$ 8,9 milhões em assistência à criança e ao adolescente e R$ 11,8 milhões em assistência comunitária, programas específicos do setor em Rio Preto. Os números são da Secretaria do Tesouro da União.

O Diário procurou a assessoria da Secretaria de Assistência Social do município, mas não houve retorno. 

 

 

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