Diário da Região

10/07/2016 - 00h00min

O LEGADO DE DOLLY

Clonagem está sendo pesquisada para tratamento de seres humanos

O LEGADO DE DOLLY

Guilherme Baffi Professor de nefrologia Mário Abbud Filho explica que resultados de estudos apontam para melhora da função do rim, retardando evolução da doença renal. (Foto: Guilherme Baffi)
Professor de nefrologia Mário Abbud Filho explica que resultados de estudos apontam para melhora da função do rim, retardando evolução da doença renal. (Foto: Guilherme Baffi)

Há 20 anos o mundo parou quando pesquisadores do Instituto Roslin, na Escócia, anunciaram que haviam feito a clonagem de um mamífero e apresentaram a ovelha Dolly. O assombro inicial serviu também para abrir os olhos da comunidade científica para um experimento, que deixava de ser ficção científica e ganhava corpo.

A clonagem de animais virou algo relativamente comum. Em Rio Preto é feita em bovinos pelo custo de R$ 60 mil. Na Correia do Sul, já se clonam cães e o preço é de US$ 100 mil.

Mas, muito além da finalidade mercadológica e de ter uma reprodução idêntica de uma espécie, a clonagem está sendo pesquisada amplamente no mundo com objetivo terapêutico, para tratamento de seres humanos acometidos por diferentes doenças.

A Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto) é um dos centros nacionais de pesquisa de células-tronco com foco em desenvolver terapêuticas ou ampliar linhas de tratamentos, no futuro, para doentes renais crônicos e pacientes com câncer de cabeça e pescoço, em dois estudos distintos.

“A doença renal crônica não tem cura ou o paciente faz diálise ou transplante, que oferece a possibilidade de uma vida com mais qualidade. Eticamente não podemos injetar células-tronco no ser humano, o que estamos fazendo é em modelo animal”, diz o professor de nefrologia Mário Abbud Filho, que também é o responsável pelo Centro de Transplantes de Rins do Hospital de Base.

Os estudos com ratos começaram há cerca de seis anos. Ele explica que, por meio cirúrgico, é retirado um dos rins do rato e grande parte do outro, produzindo no animal uma doença renal crônica semelhante a do ser humano. “Ele fica doente e então injetamos células-tronco no pedacinho de rim que ficou para melhorar a função do órgão”, explica. Outra experiência, sob a coordenação do pesquisador, foi produzir um biomaterial colante (como se fosse um esparadrapo) com células-tronco que é colado no pedaço de rim. “Os resultados, nas duas situações, mostram que esse tipo de abordagem terapêutica melhora a função do rim. Não se trata de cura, e sim de uma terapêutica que retardaria a progressão de um doente renal ou mesmo pararia a evolução da doença, para que não se torne um renal crônico.”

clonagem10072016 Halim Atique Netto explica que as clonagens de animais são para a preservação da espécie, para reserva genética e não para melhora da raça, já que é uma cópia. (Foto: Guilherme Baffi)

Essas pesquisas já foram divulgados em diferentes espaços de trabalhos científicos mundiais. No Brasil, a Famerp está entre as primeiras instituições a fazer estudos com células-tronco e rins.

Há cerca de um ano, as pesquisas avançaram e passaram a usar células-tronco embrionárias criadas a partir de uma célula não embrionária. “Usar células embrionárias esbarrava na questão ética e após um estudo revolucionário do pesquisador Yamanaka, que levou o Nobel de Medicina, foi possível chegar a células-tronco embrionárias feita com célula adulta”, diz Abbud Júnior.

Em 2006, o pesquisador japonês Shinya Yamanaka desenvolveu uma técnica de produção de células pluripotentes (semelhante à célula-tronco embrionária) através da reprogramação genética de células adultas de camundongos e, em 2007, de células humanas.

A reprodução, em geral, é feita com células da pele. As células derivadas desse método são chamadas de células-tronco de pluripotência induzida e são muito similares às embrionárias, apresentando as mesmas características de auto-renovação e potencial de diferenciação.

“Estamos trabalhando com um grupo de São Paulo que produz células-tronco embrionárias e injetamos em ratinhos. Contudo, os resultados até agora não são satisfatórios. Por um lado, a função renal melhorou, mas eles desenvolveram tumores. Isso nos mostra que precisamos ter muito cuidado com esse ramo de pesquisa”, diz Abbud Filho.

Religião

A ciência considerava essencial pesquisa de terapêuticas médicas com células-tronco embrionárias. Mas enfrentou a oposição de grupos religiosos e políticos que consideram que extrair células de um embrião equivaleria a sacrificar uma vida. O trabalho do pesquisador Shinya Yamanaka conseguiu a façanha da ciência avançar e contornar objeções éticas e religiosas.

clonagem10072016 Processo custa caro porque animais nascem fracos e exigem cuidados; custo chega a R$ 60 mil. (Foto: Guilherme Baffi)

Estudo objetiva melhorar tratamento

Outro estudo feito na Famerp é com células-tronco tumorais (CTT). Não se trata de clonagem, é uma terapia celular para tratamento de câncer. “O objetivo do nosso trabalho de pesquisa é usar células-tronco retiradas do tumor para entender como elas atuam em determinados indivíduos que têm câncer de cabeça e pescoço. A nossa técnica é identificar e tentar entender por que a quimioterapia e a radioterapia fazem regredir e até desaparecer as células tumorais, mas não as matam, e elas depois voltam”, diz a professora doutora Eny Maria Goloni Bertollo.

O trabalho, realizado há um ano, é financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), e conta com a colaboração dos pesquisadores Rosa Oyama, Érika Pavarino, José Maniglia, Ana Galbiatti Dias e alunos de pós-graduação da Famerp.

“O que estamos fazendo é identificar as células-tronco tumorais, multiplicar e testar em laboratório. Nós cultivamos essas células in vitro, usamos doses dos seis quimioterápicos utilizados nos tratamentos contra esse tipo de câncer, para, no futuro, melhorar o tratamento e evitar o prognóstico ruim, que é o óbito”, diz.

A pesquisa ainda se estende para o reconhecimento de três genes que estão envolvidos no processo da criação de novos vasos sanguíneos e que são responsáveis pela progressão do câncer e surgimento da metástase (quando a doença atinge outros órgãos do corpo).

“As células-tronco tumorais se replicam lentamente e os quimioterápicos não as atingem, eles só agem sobre as que se multiplicam rapidamente. Por isso a importância na identificação dessas células dentro do tumor. Isso poderá auxiliar no desenvolvimento de agentes quimioterápicos individualizados ou com alvos diretos na CTT e com isso reduzir o número de pacientes que apresentam resistência aos tratamentos contra o câncer de cabeça e pescoço”, finaliza.

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Clonagem de bovinos já é realidade aqui

Dolly, a primeira tentativa bem-sucedida de clonagem a partir de uma ovelha adulta, nasceu em 5 de julho de 1996, num vilarejo rural nos campos da Escócia, mas o mundo só soube da sua existência em 23 de fevereiro de 1997, depois que a revista britânica “Nature” revelou.

A experiência, que avança sobre a natureza e foi considerada por muitos como “brincar de Deus”, serviu para abrir caminhos para outras pesquisas. Ano a ano, novas experiências com clonagens passaram a ser anunciadas no mundo. No Brasil, a bezerra Vitória nasceu em 17 de março de 2001. O clone foi feito em um laboratório da Embrapa.

Há cinco anos, a Faculdade de Medicina Veterinária da Unirp de Rio Preto, em parceria com o laboratório FertVitro, atua na clonagem de bovinos. Já foram feitos oito clones de vacas e touros, contudo nem os animais e nem a identidade dos proprietários é revelada. 
“A técnica de clonagem é uma opção para criadores para a preservação de animais de destaque de suas raças. São animais que valem R$ 3 milhões, R$ 5 milhões e os empresários preferem não aparecer. Mas a clonagem de bovinos, caprinos, equinos e até de plantas já é algo mais comum”, diz o diretor do hospital veterinário Halim Atique Netto, que é também diretor da FertVitro e professor de reprodução animal e obstetrícia do curso de Medicina Veterinária.

Segundo ele, a cada 50 tentativas são obtidos entre oito e dez embriões, desses um ou dois nascem e um sobrevive e pode ser entregue ao proprietário. “Os clones nascem muito fracos, com problemas respiratórios, hipoglicemia e há casos de malformação. Temos que manter todo um aparato com UTI até que adquiram resistência e estejam saudáveis. Por isso o processo ainda tem um custo elevado”, diz. Cada clone entregue custa R$ 60 mil.

Segundo Atique Netto, para clonar um touro, por exemplo, é extraído um óvulo de uma doadora da mesma raça, esvaziado o seu núcleo, e colocada célula com o material genético da matriz. Por meio de uma fusão elétrica (choque com aparelhos específicos) a célula se torna um embrião, começam então as divisões celulares e se forma um animal idêntico ao outro.

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“As clonagens de animais são para a preservação da espécie, para reserva genética. Não é uma melhora, é uma cópia”, diz.

Na Coreia do Sul, há cópias de cães

Uma empresa sul-coreana, a Fundação de Pesquisa Biotécnica Sooam, oferece clonagem de cachorros. Conforme o seu fundador, o controverso pesquisador Hwang Woo-souk, pioneiro no âmbito das células-tronco em cães, o procedimento é feito comercialmente desde 2006 e cada clone custa US$ 100 mil, cerca de R$ 300 mil.

Há dez anos, Hwang, então professor da Universidade de Seul, fez um falso anúncio de clonagem de embriões humanos. Ele foi julgado e culpado de usar fundos públicos para falsificar testes científicos que “confirmavam” a pesquisa. Depois disso fundou a companhia.

Ele é visto com restrições entre a comunidade científica, que questiona sua ética do profissional. Mas Snuppy, desenvolvido por Hwang, nasceu em 24 de abril de 2005 e testes genéticos mostraram que seu DNA era idêntico ao seu “pai” (matriz).
Para os cientistas, o cachorro é um dos animais mais difíceis de serem clonados. Ao contrário de outras espécies de mamíferos, as fêmeas ovulam quando seus óvulos ainda estão imaturos. Para fazer um clone é preciso do óvulo de uma doadora, que será esvaziado, e receberá o material genético da matriz.

clonagem10072016 Zangão era considerado um bom touro, mas não tinha a ‘índole” do famoso Bandido. (Foto: Hamilton Pavam/Arquivo)

Touro Bandido gerou cinco clones

Em 2006, o empresário rio-pretense Paulo Emílio Marques clonou o global Touro Bandido. O processo de clonagem ocorreu em Mogi Mirim, na filial brasileira de uma empresa norte-americana. 

Dos cinco filhotes, o que ficou conhecido no mundo dos rodeios foi Zangão, que morreu no ano passado de câncer ocular, como a matriz (Bandido) e as outras quatro cópias.

O empresário Paulo Emílio quis manter o DNA de Bandido vivo. Contudo, a índole não é passada da matriz para as cópias. Bandido era um touro agressivo, bipolar, que não permitia que os peões ficassem sobre seu lombo nos oito segundos de uma prova de montaria.

Zangão era considerado um touro bom, mas não colérico como a sua matriz. Chegou a participar de provas em Rio Preto, Rio Verde e Goiânia, contudo não pertencia ao primeiro escalão da Companhia Paulo Emílio.

“As características, o instinto de sobrevivência, a selvageria de Bandido não foram transmitidas porque ele era um touro criado no meio de uma boiada. Já os clones, receberam muitos cuidados e atenção quando nasceram, não tiveram a influência do meio ambiente para serem como sua matriz”, explica Halim Atique Netto, professor de reprodução animal e obstetrícia do curso de Medicina Veterinária.

ANÁLISE

A ‘cópia’ humana é impensável

Hoje no Brasil não há qualquer restrição para a clonagem de animais. Já a de humanos é totalmente inconcebível. É um assunto que não se fala, está encerrado, seria antiético e esse é um entendimento mundial por parte dos pesquisadores e juristas.

Quanto à clonagem de órgãos humanos cada um pode ter um entendimento. No meu, vejo como louvável se a ciência se voltar para esse campo. Imagina não ter que enfrentar fila de espera e nem passar um transplante de órgão.

Já a utilização de células-tronco embrionárias para pesquisas e uso terapêutico, no Brasil, devem seguir a lei de biossegurança número 11.105, de 2005. O entendimento da redação dela é complexo. Ela autoriza a utilização de embriões que tenham sido congelados três anos ou mais antes de sua publicação, ou seja, até 2002 ou embriões que sejam incompatíveis com a vida. Na prática, não temos embriões disponíveis para pesquisa. É essa a situação que existe no País.

LUÍS ANTONIO VENLANI, advogado especialista em direito médico e bioeticista pela USP

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