Diário da Região

09/07/2016 - 00h00min

Epopeia paulista

Entenda o que foi a Revolução Constitucionalista de 1932

Epopeia paulista

Arquivo Pessoal Guarnição de combatentes em Icém, próximo à Cachoeira do Marimbondo.
Guarnição de combatentes em Icém, próximo à Cachoeira do Marimbondo.

Neste sábado, 9, comemora-se o 84º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, lembrando a bravura dos paulistas que lutaram contra tropas federais para conquistar uma Constituição, entre outras reivindicações. Em Rio Preto, a Sociedade Veteranos de 32 - MMDC organiza nesta sexta-feira, 9, cerimônia em memória dos combatentes.

As festividades cívicas ocorrem na praça Rio Branco em frente ao Fórum estadual, no Monumento ao Soldado Constitucionalista, com desfile de tropas, de carros da polícia, entrega da Medalha MMDC a 32 personalidades, além de oferta de flores no monumento. Os organizadores pedem que o público traga flores para depositar no monumento aos heróis combatentes.

Para falar da data, o presidente da Sociedade Veteranos de 32-MMDC, de Rio Preto, advogado Giovanni Spirandelli, resgata a memória de heróis rio-pretenses. E o dentista Orlando Mendonça, também advogado, residente em Marília, faz um apanhado geral da grande luta paulista.

 

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Dias de guerra, por Orlando Mendonça

“São Paulo era um campo de guerra nos primeiros meses de 1932. Todos os dias eram realizados gigantescos comícios, e no fatídico dia 23 de maio, foi realizado o maior comício até então, na Praça do Patriarca. Terminado o comício, a multidão desceu a rua Libero Badaró, para invadir a sede do Clube 3 de Outubro, que abrigava os tenentes de Getúlio. Mas postou-se à porta o general Isidoro Dias Lopes, herói paulista da Revolução de 24, que convenceu a turba a não consumar a invasão, porque lá estavam muitos tenentes fortemente armados.

No dia 9 de julho, um sol escancarado iluminava a pauliceia. Clarins, tambores e ressoar de botas nos paralelepípedos pelas ruas anunciavam que a guerra estava em curso. Uma junta revolucionária se reúne e nomeia comandante efetivo o cel. Euclides Figueiredo.

No dia 10 de julho, já havia 50 mil voluntários equipados para a guerra. No mesmo dia, 20 mil soldados paulistas estavam embarcando na Central do Brasil, no Brás, rumo à capital Rio de Janeiro.

Neste momento, o comandante Figueiredo cometeu um erro inexplicável. Em vez de seguir seu comboio com a tropa diretamente para o Rio, mandou as locomotivas pararem em Queluz, última cidade da fronteira, para aguardar as tropas que haviam jurado apoiar São Paulo. Essas tropas jamais apareceram, ou pior, apareceram para massacrar São Paulo.

Se o comboio paulista tivesse seguido direto, as tropas do Exército da Vila Militar e das Agulhas Negras, ao lado dos trilhos da ferrovia, teriam aderido aos paulistas, e a Revolução não duraria mais que algumas horas, sem derramamento de sangue.

Mais tarde, no 4º Centenário de São Paulo, Euclides Figueiredo publicou em livro que interrompeu a marcha para respeitar os acordos com as Frentes Únicas de Minas e Rio Grande do Sul.

Começa a via crúcis de São Paulo. Minas e Rio Grande do Sul nos traíram miseravelmente. Havia uma esperança que o gen. Klinger se deslocasse de Campo Grande com 5 mil homens e armamentos, como prometera. Mas quando toda a imprensa de São Paulo e uma multidão foi recebê-lo, a grande decepção: ele estava acompanhado apenas pela esposa e 4 ordenanças.

Os sábados foram fatídicos na guerra. No primeiro, o cel. Júlio Marcondes Salgado, recém-empossado no comando da Força Pública do Estado, morre num acidente no campo de Marte, testando uma bombarda. A arma explodiu no solo, matando-o.

No segundo sábado, Alberto Santos Dumont ao ver seu invento (os aviões vermelhinhos, da ditadura) bombardeando Santos, transtornado ao ver seu invento usado na guerra, suicidou-se naquela noite (23 de julho).

Mas São Paulo lutou bravamente. Na frente Sul, as tropas paulistas comandadas pelo cel. Taborda não permitiram que as tropas gaúchas penetrassem mais que poucos quilômetros em nosso território.

A Coluna Romão Gomes (na qual lutou o cedralense Carmo Turano) tornou-se legendária, graças à sua bravura. Dizem que quando as coisas iam mal em certa frente, os comandantes deslocavam essa coluna para o local e só a notícia da chegada promovia debandada das tropas ditatoriais.

A Federação das Indústrias, Associação Comercial e o Instituto do Café, presidido pelo rio-pretense Luiz Américo de Freitas, foram os grandes financiadores da guerra. As Indústrias Matarazzo transformaram suas linhas de produção, produzindo artefatos bélicos.

O temido Trem Fantasma provocava pesadas perdas de inimigos. Era um trem totalmente blindado com chapas de aço, que penetrava nas linhas inimigas, causando estragos nas tropas ditatoriais, na frente norte.

O mais impressionante - para mim - foi a invenção de uma engenhoca, por um professor da Escola Luiz de Queiroz, de Piracicaba, chamada matraca. Era uma caixa de madeira com uma manivela e uma roda dentada com lâmina de metal a ela acoplada. Os paulistas já estavam sem cartucho para manter a guerra. Então acionavam a matraca, no fundo das trincheiras, que fazia som semelhante ao pipocar de metralhadoras. Com esse som, mantinham as tropas inimigas afastadas. É preciso ter muita coragem para enfrentar um exército fortemente armado e mais numeroso, apenas com o som de metralhadora.

Esta é a história singela de um grande povo, de uma inigualável raça, a raça paulista!”

 

 

PERFIL GIOVANNI

Heróis que Rio Preto não esquece, por Giovanni Spirandelli

“Oitenta e quatro anos se passaram, mas Rio Preto insiste em não esquecer dos seus heróis, combatentes da Revolução Constitucionalista, mortos em combate. Assim, justo nominá-los:

Antônio Amaro - Fez parte da comissão do MMDC, organização de esforço de guerra. Como conhecedor da região do Porto do Taboado, tornou-se guia das tropas comandadas pelo capitão José Teixeira Pinto. Em 12 de agosto, próximo ao córrego do Jacu Queimado, ao frontear a residência do sr. João Wenceslau, uma força adversária atacou-os. Primeiro a tombar, atingido na cabeça. O corpo foi jogado no rio Paraná pelos adversários. Nascido em 1891.

Antônio Duarte da Fonseca - Conhecido por Totó Duarte, se incorporou à 3ª Cia. do 4º Batalhão 9 de Julho. Partiu para a frente mineira de combate. Em 4 de setembro, em combate, no morro do Gravy, subsetor de Itapira, um estilhaço de granada matou-o. Nascido em 20 de outubro de 1905.

Carmo Turano - Incorporou-se na 2ª Cia. de guerra Alta Araraquarense, sub-unidade do Batalhão Francisco Glycério, Coluna Romão Gomes. Foi ferido gravemente durante a retirada de Gramma, faleceu em São José do Rio Pardo, em 17 de setembro. Nascido em Rio Preto em 4 de outubro de 1910.

Elydio Antônio Verona - Incorporou-se à 1ª Cia. do 3º Batalhão 9 de Julho. Estava em fins de setembro na Fazenda Japonesa, situada em Jaguary e Campinas, e em momento de trégua deixou a trincheira, com elementos de sua unidade, em busca de alimento, e foram surpreendidos pela fuzilaria adversária. Foi atingido no alto da cabeça. Sepultado no próprio local. Comerciante em Rio Preto e nascido em 10 de julho de 1913.

Joaquim Marques de Oliveira - Incorporou-se em Rio Preto no Batalhão Voluntários de Rio Preto, sob o comando de Luis de Mello. Morto dentro do automóvel que conduzia oficiais para o front, próximo a Porto Taboado. Atingido na cabeça por bala de fuzil Mauser. Contava com 25 anos à época.

João Baptista de Araújo - Incorporado em Rio Preto, logo no início das operações, seguiu para a zona leste, como soldado do Batalhão Voluntários de Rio Preto. Morreu em pleno combate, no dia 10 de setembro, na Fazenda Guedes, em Campinas, por ferimento de bala de fuzil. Sepultado junto a um bambual, onde tombara. Nasceu em 8 de fevereiro de 1898.

Ipiroldes Martins Borges - Incorporou-se no dia 20 de julho, na 3ª Cia. sob nº 137, do Batalhão Voluntários de Rio Preto. Em razão de sua extrema juventude, a família e o comando do Regimento de Rio Preto se opuseram ao alistamento. Tudo inútil, pois a decisão foi irrevogável. Em 20 de setembro, no setor de Jaguary, foi atingido por uma bala de fuzil no peito. Sepultado em Carlos Gomes. Nascido em 22 de fevereiro de 1915.

Manoel da Visitação Pitta Júnior - Conhecido como Nenê Pitta, foi incorporado no Batalhão de Novo Horizonte, em 27 de julho, no posto de cabo. Logo partira para Porto Taboado, na fronteira de Mato Grosso. No primeiro combate foi ferido à bala, ficando o corpo no local denominado Jacu Queimado. Não há notícias do que foi feito do corpo. Presume-se que tenha sido enterrado pelos adversários. Nascido em 10 de maio de 1887, era casado e deixou uma filha.

Oswaldo Santini - Foi destacado para uma patrulha de reconhecimento perto de Porto Taboado e morto pelas tropas adversárias munidas de armas automáticas, a 12 de agosto. Sepultado no próprio local onde caíra. Posteriormente, o corpo foi transladado para Rio Preto.Tinha 20 anos.”

 

MMDC09072016

Para entender a revolução

O QUE FOI: movimento armado no Estado de São Paulo, entre julho e outubro de 1932, com o objetivo de derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte

QUANDO COMEÇOU: em 9 de julho de 1932, depois que quatro estudantes que protestavam foram mortos por tropas do governo em 23 de maio de 1932. Surge o movimento MMDC - iniciais dos quatro estudantes mortos, Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. (A quinta vítima, Alvarenga, também foi baleada naquela noite, mas morreu meses depois e não entrou na sigla)

COMO FOI: o Estado de São Paulo se rebelou contra o governo federal, com apoio dos Estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul

QUANDO TERMINOU: foi derrotada militarmente em 2 de outubro de 1932

QUANTO TEMPO DUROU: foram 87 dias de combate, de 9 de julho a 4 de outubro de 1932 - sendo os últimos dois dias depois da rendição paulista

QUANTOS MORRERAM: o saldo oficial é de 934 mortos, embora estimativas não-oficiais calculem até 2.200 mortos

SEM ADESÃO: As tropas paulistas lutaram praticamente sozinhas contra o resto do país. As armas e alimentos eram fornecidos pelo próprio Estado, que mais tarde conseguiu o apoio do Mato Grosso

IMPORTÂNCIA: foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas. CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1891: tinha sido abolida por Getúlio Vargas

RESULTADO: O grande efeito do movimento constitucionalista foi a convocação de Assembleia Nacional Constituinte, dois anos depois

HERÓIS: a lei 2.430, de 20 de junho de 2011, inscreveu os nomes de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, heróis paulistas da Revolução de 1932, no Livro de Heróis da Pátria

EFEITOS: apesar da derrota militar, foram atendidas algumas reivindicações por Vargas, como a nomeação de um estado não-militar, indicando governador; a eleição de uma Assembleia Constituinte; e a promulgação de uma nova Constituição em 1934.

MEMÓRIA: duas avenidas paulistas foram nomeadas com datas da Revolução, avenida 9 de Julho e avenida 23 de Maio, além do Obelisco do Ibirapuera cujo mausoléu guarda as cinzas de 713 combatentes, além dos cinco estudantes mortos; em Rio Preto, há o monumento na praça do Fórum, a rua Voluntários de São Paulo, a Escola Voluntários de 32, o Museu da Revolução no CPI-5 e a Sociedade Veteranos de 32-MMDC 

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