Diário da Região

22/11/2015 - 00h00min

Tráfico

O Tribunal do PCC

Tráfico

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No banco dos réus estão assassinos, ladrões, estupradores. Todos serão julgados por um tribunal diferente. Os juízes são tão criminosos quanto os acusados, apenas mais experientes no mundo do crime e, por isso, respeitados. Não há advogados nem garantia alguma de ampla defesa, e a tortura é permitida e até incentivada. As penas variam de surras exemplares até a morte mais cruel possível. São os tribunais do PCC, a facção criminosa que tortura e mata na periferia de Rio Preto. 

Investigação de sete meses do Gaeco, braço do Ministério Público que atua contra o crime organizado, obtida com exclusividade pelo Diário, mostra a rotina de violência imposta pela maior organização criminosa do País em Rio Preto. Prova de que a crueldade exposta em ficções como na novela “A regra do jogo”, da Rede Globo, é semelhante na vida real - na trama, uma “facção” sem nome ordena assassinatos a torto e a direito. 

 

Arte Diálogo 1 - 22112015 Clique na imagem para ampliar

A investigação foi motivada por dados repassados pelo Gaeco de Piracicaba, que no fim de 2013 apreendeu milhares de arquivos com a contabilidade e a ficha dos membros do PCC no interior paulista - parte do material foi antecipada pelo Diário em agosto deste ano. A apuração encontrou lideranças diferentes daquelas apontadas nas planilhas. Segundo o Gaeco, atualmente o PCC conta com 23 “batizados” na região, denominada “área 17” em alusão ao DDD local, e outros 11 em Rio Preto, sem contar o exército de simpatizantes a serviço da facção nos mais de cem municípios do Noroeste paulista.

O líder máximo da regional 17 do PCC é José Mauro de Brito, o Santista, 42 anos, que tem um longo passado no crime. A primeira prisão veio aos 20 anos, por tráfico. Depois, outras sete passagens pela polícia, por comércio de drogas, roubo e porte de arma. Em uma das dezenas de penitenciárias pelas quais passou, tornou-se “irmão” do PCC. É a ele que um integrante da facção em Fernandópolis recorreu em agosto, dizendo que um viciado deixou de entregar um revólver como pagamento por droga em uma boca de fumo da cidade. Santista então conversou com o usuário e ordenou que pagasse o débito, do contrário iria “sofrer outras consequências mais graves”.

 

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Em vez da polícia, é o PCC que as vítimas de crimes na periferia de Rio Preto procuram para resolver imbróglios e buscar vingança. Em julho, três “irmãos” da facção se reuniram com o parente de um rapaz morto por enforcamento no bairro João Paulo 2º, zona norte de Rio Preto. “Qual providência você espera do comando?”, perguntou Alexandre César Arruda, o Zulu, coordenador da logística do narcotráfico na região, função chamada “progresso”. “Quero ver ele (um dos assassinos) pagar da mesma forma (ser morto)”, respondeu o parente da vítima. “Vou montar o tabuleiro (conferência) certinho, consultar o escalão superior e concluir essa caminhada.”

Cinco meses antes, outros dois “irmãos” não identificados pelo Gaeco iniciaram o julgamento de um homem da Vila Toninho, zona leste da cidade, por agredir a mulher: “Um cara deu dois tapas na cara da mulher e hoje a mulher ligou pra mim e pediu providência. Quando fomos até o cara, ele tava alcoolizado (...), assim que fomos embora o cara foi de facão na casa da mulher e ameaçou a mulher. (...) Se o cara for pra cima da gente vamos ter que desmaiar o cara e levar o cara pras ideias (julgamento).” A Polícia Militar, que atuou em parceria com o Gaeco na apuração, não conseguiu identificar se houve punição nesses dois casos. 

 

Arte PCC na Região 1 - 22112015 Clique na imagem para ampliar

Mas em março, os PMs impediram o provável assassinato de dois jovens acusados de homicídio no Parque da Cidadania, zona norte. Um dos “juízes” do tribunal instalado pelo PCC era Claudemir Antonio Pereira, o Lucas, 38 anos, segundo na hierarquia do “partido” na região. Lucas era o “disciplina geral” da facção em Rio Preto, coordenando a inclusão ou exclusão de membros. “Achamos quem matou o Pedrinho”, diz Lucas na ligação, interceptada pelo Gaeco. “O moleque encostou, sequestramos todo mundo, fomos no papo com o moleque e ele abriu o coração (confessou)” “Quem é?”, pergunta o interlocutor, não identificado pelos promotores. “(...) O moleque disse que quem matou foi ele. 

Eu perguntei quem era o ‘cavalo’ (motorista do veículo usado na fuga) e ele disse que foi o Baratinha e aquele pequenininho. Tá sequestrado, vamos parar de falar. Vem até aqui.” “Vou chegar chutando porque são safados.” Acionada, a PM invadiu a casa de Lucas no Cidadania e flagrou no imóvel, além do “disciplina”, cinco integrantes do PCC. No banco dos réus, dois jovens, de 21 e 22 anos, ainda sem marcas de violência. Todos foram liberados para não prejudicar a investigação do Gaeco. A fase ostensiva da operação foi desencadeada dia 2 de outubro. No total, 16 membros da facção foram presos temporariamente - há quatro foragidos. O Gaeco deve denunciar a quadrilha à Justiça até o fim deste mês. Os advogados dos alvos da operação não foram localizados na última semana.

 

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‘Vou quebrar as pernas e os braços’

Abusando de ameaças e violências, o PCC subjuga bairros inteiros na periferia de Rio Preto. Tchupack, apelido de William Teruity Paula Sugano, 30 anos, coordenava com mão de ferro as bocas de fumo do PCC em Rio Preto, chamadas “FM”, além de ser dono de um bar na Vila Toninho, zona leste da cidade. Ao saber que um subordinado chamado Nathan desviou drogas dele de uma dessas “FMs” no Jardim Paraíso, Tchupack ficou furioso.

“Vou quebrar as pernas e os braços do Nathan. Vou bater nele no meio da rua (na zona do meretrício) pra todos verem e respeitar o Comando.”

Discussões simples desaguam na mais pura violência.

“Tem um maluco que colocou o dedo na minha cara, vou mostrar pra ele como é que funciona”, diz um “irmão” do PCC não identificado pelo Gaeco. 

“Vou pegar a arma que tá contigo e dar um par de (ininteligível)”, rebate o interlocutor, também não identificado.

“Joga ele no porta-malas e traz ele aqui” “O cara é grande, desarmado e sozinho não dá”. (...) Tô na neurose, vou dar um par de tiro nesse cara.” “Encosta na quebrada e qualquer fita a gente sequestra esse comédia.” O Gaeco não conseguiu apurar se o plano foi concretizado.

A facção demonstra ser implacável com desvios de conduta dos seus “irmãos”. No dia 11 de março, o responsável pelo cadastro dos filiados ao PCC no interior do Estado anuncia em conferência por telefone com a cúpula da facção:

“O Noturno (Rodrigo Versoti Lopes, segundo o Gaeco) de Votuporanga foi excluído em 26/2/2015 por atos de fraqueza, esperteza e despreparo, tendo como padrinhos Leo de Catanduva e Malbec de Mirassol, unidade Martinópolis (...). Sua data de batismo foi 31/8/2013 na rua de Votuporanga (...) Dizem que o padrinho tomará como penalidade um 90. Se o irmão tiver um 90 (suspensão por um ano da facção) e não tiver sido abonado, adicionando um 90, vai ser excluído” .

 

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‘Boca de fumo’ fatura até R$ 2 mil por dia

Empresa do crime, o PCC encontrou no tráfico de drogas e de armas, além dos roubos, suas principais fontes de financiamento. Em Rio Preto, uma boca de fumo da facção chega a faturar R$ 2 mil em um único dia. 

“Traz um pedaço de neve (cocaína) pra mim aqui na lojinha, é dia de vale e ninguém tá tendo”, diz um integrante da facção não identificado pelo Gaeco.

“Se não tivesse faltando a caminhada, já tinha feito uns dois mil reais.” Cada boca de fumo do PCC em Rio Preto tem um gerente , que ganha R$ 500 por semana, e os vendedores, chamados “vapores”, a maioria menor de idade, com “salário” de R$ 150 semanais, além de “brindes” por “merecimento”, geralmente mais dinheiro ou droga.

Das mais lucrativas, boa parte está no Jardim Paraíso, conhecido ponto de prostituição em Rio Preto.

“Tenho duas lojas na ZN (Jardim Paraíso) que faz dois mil (reais) por dia, uma na rua de cima e outra na rua do meio. (...) Aluguei uma casa por lá, vai entrando dinheiro e minha irmã vai colocando numa caixa de som”, diz William Teruity Paula Sugano, 30 anos, o Tchupack. A facção chega a movimentar 600 quilos de droga por semana na região e fatura alto - são cerca de R$ 3 milhões por ano na região, conforme revelou o Diário em agosto.

Em Rio Preto, no fim de maio deste ano, a interceptação telefônica do Ministério Público levou a Polícia Militar a apreender R$ 40 mil escondidos em um automóvel no bairro Palestra, zona oeste. O dinheiro, segundo o Gaeco, era o lucro do PCC naquele mês em Rio Preto e seria entregue a uma liderança do “partido”, na rodovia Assis Chateaubriand (SP-425).

Roubos

O tráfico de armas e os assaltos são uma constante na rotina do PCC em Rio Preto. Jean Ralph Paganin, o Nike, 25 anos, é o responsável pelos “pés de borracha”, veículos usados para transportar drogas e também levar parentes de presos até as penitenciárias. Em março, ele diz ter comprado uma arma:

“Chega essa semana a bocudona que dá beijo”
“É israelense?”, pergunta o interlocutor, não identificado pelo Gaeco.
“Não, peguei de um mano que virou crente. O cara queria 7 mil, mas paguei 3.500. Do jeito que tá não dá pra ficar descalço (desarmado), porque tem muito invejoso por aí.”
Parte dessas armas era utilizada em roubos a serviço da facção:
“Chegou aquela situação (pessoa a ser roubada)”, diz Claudemir Antonio Pereira, o Lucas, 38 anos.
“Tem que ‘pá’ na melhor hora”, responde o interlocutor.
“A melhor hora é agora, tô precisando demais.”
“Aquela fita (arma) que eu ia arrumar com o Alemão tá com o Bizuza.”
“Vamos marcar o jogo pra jogar.”
Cada detalhe dos assaltos era combinado com antecedência pelo “partido”:
“Vai na fita (roubo) amanhã?”, pergunta a Lucas Leandro Lopes de França, o Argentino, 32 anos, “disciplina” do PCC.
“Vou pegar a outra ali (arma) (...) Amanhã cedo vou buscar o moleque no CDP”, responde Lucas.
“Não pode ser à tarde porque é moiado (risco de abordagem policial), tem que pegar abrindo de manhã (o estabelecimento que será roubado).”

 

Advogado foi alvo do Gaeco

A investigação do Gaeco contra o PCC esbarrou em um advogado criminalista de Rio Preto. Ele era suspeito de integrar a “sintonia dos gravatas” do PCC na região, servindo aos interesses do “partido”, inclusive levando recados entre os líderes da facção em presídios. Os promotores chegaram a analisar a lista de todos os presos do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Rio Preto visitados pelo advogado em 2014 e 2015. Na relação, havia pelo menos três integrantes da facção. Segundo o Gaeco, “os informes dão conta, por exemplo, de que o advogado empreende esforços na cooptação de agentes públicos corruptíveis à entrada de telefones celulares nos estabelecimentos prisionais”.

O celular do advogado chegou a ser interceptado com autorização da Justiça. Em um dos telefonemas grampeados, ele conversa com um integrante do PCC: “Gravata, fica no ar (com o celular ligado) porque os moleques estão indo trabalhar (praticar um crime).” Em outras ligações, o profissional dá indício de que é viciado. “Queria dar um tiro (cheirar cocaína) mas estou sem dinheiro”. No entanto, a apuração do Gaeco não encontrou provas contra ele, e a interceptação foi encerrada. 

Diário antecipou apuração

A reportagem do Diário sobre o faturamento de R$ 3 milhões anuais do PCC na região de Rio Preto, publicada em agosto, antecipou parte da investigação do Gaeco ao apontar o homem apelidado de Nike como traficante na região do Parque Estoril, zona sul da cidade, e um dos líderes do PCC em Rio Preto. Relatório do setor de inteligência do Gaeco citou a repercussão do material jornalístico entre os alvos da operação. “No transcorrer da reportagem, são mencionados nomes de alvos desta investigação cuja atuação se dá na cidade de Rio Preto.

Por ocasião da reportagem muitos alvos, membros da facção, deixaram de utilizar as linhas interceptadas.” Um deles foi o próprio Nike, apelido de Jean Ralph Paganin. De acordo com transcrição da conversa pelo Gaeco, Titan, integrante do PCC, “pede para o alvo (Nike) providenciar outro número em razão da matéria jornalística, onde o alvo disse que já iria arrumar, pois teria batido a sua quebrada com a indicada pelo jornal”. 

 

 

 

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