Diário da Região

22/04/2015 - 00h02min

FUGITIVOS

Eles fogem em busca de droga e amor

FUGITIVOS

Sergio Isso Elaine ganha abraço do filho de 17 anos, que ficou desaparecido por 11 dias
Elaine ganha abraço do filho de 17 anos, que ficou desaparecido por 11 dias

A cada três dias, a polícia de Rio Preto registra uma ocorrência de adolescente desaparecido. Eles somem de casa em busca de droga ou para ficar com o namorado ou namorada. O levantamento foi feito pelo Diário com base em boletins de ocorrências. Em cem dias, 28 adolescentes fugiram. Além de deixar parentes aflitos, esses desaparecimentos momentâneos mobilizam polícia e Conselho Tutelar. Na maioria dos casos, os adolescentes são encontrados ou voltam espontaneamente para casa.

Quem viveu esse drama foi a estagiária de pedagogia Vera, 33 anos, (nome fictício) que ficou dois meses procurando a filha de apenas 13 anos. E quando ela a encontrou, a garota estava na casa do namorado, de 17 anos. "Tínhamos uma relação muito boa, de amigas. Poderia ter conversado comigo. Tenho certeza que chegaríamos a um acordo e tudo seria resolvido", conta a mãe.

De acordo com Vera, a filha dela, Isabela (nome fictício), desapareceu em janeiro quando estavam fazendo compras no supermercado. " Chegamos no caixa para pagar e ela pediu para ir ao banheiro. Foi nesse momento que ela fugiu. Procuramos no estacionamento, anunciamos no mercado e nada", lembra. Vera foi então até o plantão policial e registrou um boletim de ocorrência. Em março, quando as aulas começaram, a mãe teve notícias da filha. "Eu liguei na escola e a diretora disse que ela estava frequentando as aulas normalmente. Fui encontrá-la na saída do colégio, mas ela me viu não quis vir comigo. Disse que queria namorar e que eu não deixava."

Até hoje Isabela não voltou para a casa da mãe. A mulher conta que chora todos os dias pela falta da filha e teme pela saúde dela. "Minha filha é uma criança ainda, não tem capacidade para decidir o que é melhor para ela. O melhor lugar é aqui em casa, onde tem amor de mãe. Isso ninguém substitui", diz a mãe, que tenta na Justiça o direito de trazer a filha de volta. "Meu sonho era conseguir relatar meu caso para o juiz , acho que só ele conseguirá resolver meu caso. Já procurei outras autoridades, mas as coisas que ouvi não gosto nem de lembrar. Fui muito humilhada", conta.

 

 

filho foge - mãe elaine mensagem filho celular Mensagem que Elaine Maiolo recebeu do filho

Droga

Já a cuidadora de idosos Elaine Cristina Maiolo, 45 anos, teve um final diferente. Ela conseguiu encontrar o filho de 17 anos que havia desaparecido no último dia 12 de março. Apesar de voltar para casa, o garoto cortou as relações com a mãe e os dois não se falam desde o desaparecimento. Elaine conta que descobriu que o filho estava usando drogas e os dois começaram a discutir. "Eu quero que as coisas sejam certas. Não quero que meu filho use drogas, pelo menos enquanto ele estiver morando comigo. Por isso começamos a discutir, mas não era nada muito agressivo, muito pelo contrário. Eu explicava como deveriam ser as coisas", afirma.

A mãe conta que quando descobriu que o menino estava se drogando começou a "pegar mais no pé". Ela passou então a estabelecer horários para ele e exigir que o adolescente fosse para escola, igreja e ao trabalho. "Por dois meses tudo isso deu certo e eu achei que ele havia parado com as drogas. Mas teve um dia que eu estava trabalhando e, quando voltei, ele não estava em casa. Mais tarde, quando ele chegou, perguntei onde tinha ido e ele me disse que tinha ido levar a namorada na casa dela. Mas ele não tinha essa autorização. Fiquei muito brava e gritei com ele."

No outro dia o menino saiu dizendo que ia ao trabalho e desapareceu. "Eu liguei no mercado onde ele trabalhava e me disseram que ele nem tinha ido. Fiquei desesperada, liguei muitas vezes no celular dele e nada. Fui na casa de amigos, da namorada e ninguém sabia onde ele estava. Foi então que procurei a polícia", diz. Dez dias depois, o garoto mandou uma mensagem de texto no celular da mãe dizendo que não voltaria mais, que tinha onde morar e trabalhar e que ela não precisava ficar preocupada.

No dia seguinte, a mãe foi chamada na delegacia de polícia de Araçatuba para buscar o filho que havia sido detido com maconha. "Nunca me imaginei numa delegacia para buscar um filho. Assim que eu olhei pra ele, a primeira coisa que eu fiz foi dar um tapa bem forte na cara dele. E isso doeu em mim mais do que nele, aliás, sinto a dor desse tapa até hoje. Eu nunca havia feito aquilo, mas perdi o controle quando o vi ali, naquela situação", conta chorando.

 

filho foge - mãe vera bicho pelucia filha Vera abraça urso de pelúcia da filha; ela saiu de casa e não voltou mais

Para psicóloga, a culpa é de todos

"Não tem como culpar apenas os adolescentes ou só os pais ", afirma a psicóloga Flávia Carvalho. Segundo ela, a fuga geralmente é motivada por algum conflito ou ruído na relação entre pais e filhos. "A adolescência é uma fase de descobertas e é justamente por isso que os pais precisam estar mais próximos do que nunca. Digo próximo no sentido de diálogo. E isso está acontecendo cada vez menos. Os pais estão cada vez mais ausentes por conta do trabalho. Quando estão em casa, cada um fica no seu canto. Pai e mãe na TV e filho no smartphone, por exemplo".

Ela conta que na maioria dos casos, os pais sabem o que motivou a fuga. "Muitas vezes, o local da fuga também é previsível. Mas se não houver retomada da relação pai e filho, as fugas vão se repetir." De acordo com o delegado Marcelo Parra, os casos de adolescentes desaparecidos são cada vez mais comuns e na maioria das vezes a pessoa é encontrada na casa de amigos ou junto de alguém que se relaciona, namorado ou namorada. "É importante, sim, registrar o boletim de ocorrência, mas as pessoas precisam ter bom senso e perceber o que está acontecendo com o filho antes. Conversar, estar sempre perto, dar apoio. Percebo que muitos pais que vêm aqui nem sabem onde os filhos estavam, onde moram os amigos dos filhos. Isso dificulta o nosso trabalho", explica o delegado. O juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, Evandro Pelarin, ratifica a opinião da psicóloga. "É uma idade complicada em que os jovens procuram liberdade, por isso é importante que os pais fiquem atentos a todas as atitudes dos filhos." 

 

RG é bloqueado para facilitar busca

Se alguém desaparece, independentemente da idade, a família deve dirigir-se a uma delegacia de polícia e solicitar que seja aberto um Boletim de Ocorrência (BO). Não é necessário esperar 24 horas. No entanto, o desaparecimento para a polícia é aquele que ocorre sem que se saibam, a priori, as suas causas. Assim que o boletim de ocorrência é registrado, o RG do desaparecido é bloqueado. Com isso, se ele tentar emitir algum documento, ou der entrada em algum hospital ou delegacia, é localizado.

"Também é importante que após registrar o boletim e encontrar o desaparecido, a pessoa que fez o boletim precisa ir a uma delegacia informar que a pessoa foi encontrada. Só então o RG pode ser desbloqueado", diz o delegado. O sistema brasileiro de desaparecidos ainda é deficitário. Desde 2009 existe o cadastro nacional de desaparecidos  - www.desaparecidos.gov.br -, criado pela Secretaria de Direitos Humanos, mas ainda há falhas na integração e o número de registro não mostra a realidade. Hoje, por exemplo, estão cadastrados 396 casos de desaparecidos em todo o país, nenhum deles em Rio Preto. 

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