Diário da Região

26/04/2015 - 00h20min

Entrevista

Conheça a história da primeira coronel rio-pretense

Entrevista

Lézio Júnior Coronel Helena dos Santos Reis
Coronel Helena dos Santos Reis

Ela é a quarta mulher a ocupar o posto mais alto na hierarquia da Polícia Militar paulista. Primeira rio-pretense a ostentar o título de coronel, conquistado ano passado. Helena dos Santos Reis, 45 anos, comanda o curso de formação de sargentos da PM. Ensina-os a ter o espírito de liderança que ela sempre demonstrou na carreira.

A Polícia Militar sempre foi o caminho natural para ela, filha de um sargento, irmã de outro. Em 1988, foi aprovada na primeira turma de mulheres da Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Formada tenente, trabalhou no policiamento de rua nas sensíveis regiões da Sé e Luz, centro de São Paulo, com seus mendigos e viciados em drogas - na época, cheiradores de esmalte e cola de sapateiro.

Em 1995, veio para a região, onde chegou até o posto de major no Comando de Policiamento do Interior de Rio Preto (CPI-5), responsável pelo planejamento operacional. Estava aqui quando o irmão, sargento Israel, foi assassinado ao voltar para casa na Capital, em agosto de 2001. Faltavam 16 dias para se casar. O assassino nunca foi identificado. "A sensação de impunidade dói", reconhece. Nem por isso, a coronel apela para sentimentos mais primitivos como os de fazer justiça com as próprias mãos, comuns em parte da tropa. Helena sabe o estrago que PMs matadores provocam na corporação, minando a credibilidade do policial perante a população.

Mas o zelo pela legalidade não a impede de assumir posições polêmicas, como defender a redução da maioridade penal para 16 anos, nos moldes do projeto de lei debatido atualmente no Congresso. Nem de criticar o comportamento dos jornalistas, ao atribuir à mídia parte da sensação de insegurança na sociedade. "Você pega esses programas policiais na TV, parece o fim do mundo. E não é bem assim. Crime sempre vai haver, mas nada justifica tanto medo."


Leia a seguir a íntegra da entrevista:
 

Diário - De onde veio a vontade de tornar-se policial militar?

Helena dos Santos Reis - Meu pai era sargento da Polícia Militar. E meu irmão também. E aí abriram vagas para mulheres na Academia do Barro Branco, em 1988. Meu irmão sugeriu e fui atrás, conhecer (o curso). De cara me identifiquei. Foram quatro anos, equivalente ao curso superior. Saí como aspirante oficial, depois 2º tenente. Fiquei em São Paulo dois anos, na área central, de 1992 a 1994. No ano seguinte, fui para Catanduva e depois para Rio Preto, onde fiquei 20 anos, até o início de 2014, quando fui promovida a tenente-coronel e, em março passado, a coronel, último posto da carreira. 
Quando entrei na academia, eram 15 mulheres para 800 homens naquela primeira turma.
 
Diário - Hoje a situação é diferente?

Helena - Sim, bem diferente. Até 2011, havia vagas para homens e para mulheres. Desde então, unificaram-se os quadros. Não há mais essa distinção de gênero. Mas claro que, tradicionalmente, a carreira militar ainda tem preponderância masculina. São 11 mil mulheres e 94 mil homens na Polícia Militar.
 
Diário - Chegou a enfrentar alguma situação de preconceito na PM por ser mulher e negra?

Helena - A Polícia Militar espelha a sociedade. Não tive nenhuma situação específica de discriminação. Mas mulher em cargo de liderança se cobra demais. Pensa: "se errar, é porque sou mulher". Por isso tento fazer algo a mais. É uma postura profissional. De todo modo, a disciplina militar ajuda a evitar o preconceito aberto, a afronta, porque há consequência disciplinar.
 
Diário - No início da carreira, chegou a fazer policiamento de rua?

Helena - Já. Em São Paulo. Comecei como aspirante, comandante de uma equipe feminina na Sé e Luz, área central de São Paulo. Na época a molecada cheirava cola de sapateiro e esmalte. Era algo até puro, comparado com os dias de hoje. A missão da policial militar na época era cuidar mais de crianças e mulheres, uma função mais "social", vamos dizer. Cuidávamos das crianças de rua na praça da Sé. Em ocorrências com criança e mulher, era designada a guarnição feminina.
 
Diário - Houve alguma ocorrência de risco na época?

Helena - A primeira ocorrência que me chocou foi de um suicídio de uma garota de 13 anos, dentro de casa. Aquilo me marcou bastante. Participei de algumas operações.
 
Diário - Inclusive na cracolândia?

Helena - Sim, porque havia muita queixa da população, então cuidávamos do combate ao tráfico nas imediações. Mas, graças a Deus, nunca me envolvi em situação de tiroteio. Mas a expectativa disso acontece existe até hoje.
 
Diário - A policial militar mulher leva alguma vantagem em relação ao homem PM?

Helena - Eu diria que não. Depois de lidar com as questões mais sociais, a mulher foi para o policiamento de trânsito e foi muito bem recebida. O trato da mulher dava a ela uma receptividade melhor. Mas, no policiamento ostensivo, não há diferença.
 
Diário - Qual sua opinião sobre o projeto de lei no Congresso que tenta reduzir a maioridade penal?

Helena - Eu acredito que a redução, por si só, não vai ter o efeito que a sociedade pensa na redução da criminalidade. Mas nós temos no Brasil hoje a sensação de impunidade entre os adolescentes. Você pega um rapaz de 16, 17 anos, já com o porte de um adulto, cometendo crimes como adultos, com uma série de direitos civis e discernimento. Sou favorável à redução, porque o medo da punição tem um efeito (na redução de crimes).

E maiores usam menores em crimes como o tráfico de drogas. Porque há sensação de impunidade. Mas não é uma solução mágica. É preciso aplicar efetivamente as penas. Recentemente, a polícia aqui da região prendeu uma quadrilha que explodia caixas eletrônicos. Dois tinham condenação por roubo, mas cumpriram um sexto da pena e saíram. Isso precisa ser reajustado. Nos Estados Unidos as penas alternativas são vigiadas de perto. Já aqui no Brasil é tudo muito frouxo. Tudo cai em descrédito.

 

Helena dos Santos Reis Ela se inspirou na carreira do pai e leva a sério a disciplina

Diário - Muitos policiais militares defendem o ciclo completo da PM, da prisão à condução do inquérito. Qual sua opinião a respeito?

Helena - Sou inteiramente a favor. O Brasil é um dos únicos países do mundo que mantêm essa separação entre uma polícia administrativa e outra judiciária. Nos demais países, existe mais de uma polícia. Os Estados Unidos têm a polícia municipal, do condado, estadual e federal. Todas com ciclo completo. Agiliza o trabalho e temos que caminhar para isso. Nessa troca de atribuições como é hoje, perde-se muito tempo.

Diário - Mas e a rivalidade entre as polícias Civil e Militar? Não dificulta essa integração?

Helena - Nós trabalhamos de forma integrada, mas às vezes o limiar dessa atribuição se confunde. Quando a Polícia Militar faz a repressão imediata, o crime já aconteceu: em teoria, essa tarefa caberia à polícia judiciária, que busca provas para a condenação. Isso gera confusão e atrito. É uma fronteira tênue.
 
Diário - Com as audiências de custódia implantadas pelo Tribunal de Justiça em São Paulo, em que os indivíduos detidos precisam ser levados em até 24 horas na presença de um juiz, 40% deles foram liberados. Isso indica um excesso da PM nas prisões?

Helena - Tinha-se a impressão inicial de que, com as audiências de custódia, surgiriam casos de abuso policial ou uma grande quantidade de prisões ilegais. E isso não aconteceu. Esses 40% seriam liberados mesmo sem essas audiências, porque cometeram crimes menores, e ele seria liberado de qualquer forma. O que percebemos é que há qualidade na prisão feita pela Polícia Militar. Acabou referendando o trabalho que já vinha sendo feito. Torço para que esse modelo se expanda. Agora, em relação a esses 40%, se poderiam ser mais bem vigiados para não voltar a delinquir, aí a gente entra em uma outra discussão.
 
Diário - Essa é uma frustração dos PMs em trabalho de rua: o sujeito é preso e meses depois está solto novamente, cometendo novos crimes?

Helena - Acontece. O próprio policial tem a sensação de enxugar o chão com a torneira aberta. Mas qual a opção? A lei diz que determinados crimes são afiançáveis e desde 2013 o próprio delegado arbitra o valor. Temos que trabalhar com nosso ordenamento jurídico. É isso o que procuramos passar aos policiais: não sinta que o seu serviço é infrutífero. O fato de a pessoa ser liberada não significa impunidade. Ela vai responder a um processo. O sistema de segurança pública é legalista. Temos de lidar com isso.
 
Diário - Esse sentimento de frustração não é perigoso, na medida em que dá origem a grupos de extermínio na PM, como se vê com frequência principalmente em São Paulo?

Helena - Essa questão da justiça com as próprias mãos se vê em alguma ocorrência, em que o policial fala: "tomei sim essa medida radical porque não vislumbrei a possibilidade de se fazer justiça por outros meios". Isso causa indignação e leva à descrença no sistema (de segurança pública), que é quando o indivíduo deixa de prestar queixa do roubo do celular porque pensa que não vai dar em nada. O que acarreta subnotificação. Então isso deve ser refletido: como (o policial) ter credibilidade diante da vítima? Um estudo que fiz mostrou que a falta de confiança na justiça criminal leva a essa subnotificação.
 
Diário - Mas a partir do momento em que o policial não tem uma boa distinção do seu papel em uma dada situação na rua, o perigo de um abuso é imenso, não?

Helena - É aquela história: isoladamente, para alguns PMs, isso acontece. Mas é exceção, nunca algo institucionalizado.
 
Diário - A Corregedoria tem sido efetiva contra esses policiais?

Helena - Sim, muito. Cortamos na própria carne, sem medo. Nossa Corregedoria é muito atuante. Se paira alguma suspeita, como enriquecimento ilícito ou desvio de conduta em alguma ocorrência, vai ser investigado e, uma vez provado, punido, inclusive com a demissão. Sem corporativismo. Somos legalistas.
 
Diário - Existe na Polícia Militar um grande ressentimento em relação à cobertura da mídia. Policiais reclamam que jornalistas só divulgam o lado negativo do trabalho da PM, nunca o bom. A sra. concorda com essa visão?

Helena - Há, sim, pontos de divergência. Uma vez eu entrevistei um repórter e perguntei por que tanta ênfase a aspectos negativos da PM, e recebi a resposta: "Porque notícias ruins vendem". Não adianta falar que o policial salvou a família de um assalto, que salvou um bebê. Essa questão é séria. Quem ganha com a insegurança pública? Com uma sociedade, acanhada, com medo? São Paulo tem o menor índice de homicídios do País, e mesmo assim, de onde vem essa sensação de medo?
 
Diário - Vem da mídia?

Helena - Em parte, sim. Você pega esses programas policiais na TV, parece o fim do mundo. E não é bem assim. Crime sempre vai haver, mas nada justifica tanto medo. Por exemplo, na época do maníaco do parque não se frequentava mais parque, inclusive em outros Estados. Porque a sensação de medo estava difundida. Mas respeito muito o papel informativo da imprensa. As críticas, muitas vezes, reforçam nossos sistemas de controle. E conhecer casos de corrupção, por exemplo, é vital para formarmos nossas próprias convicções. Mas penso haver espaço para a notícia positiva.
 
Diário - Esse comportamento da mídia influenciou no comportamento da população nos protestos de julho de 2013?

Helena - Na verdade, ninguém estava preparado para aquela eclosão de protestos. Nem a polícia, nem a própria mídia, que num primeiro momento elogiou a atuação (da PM), depois criticou. Depois, surgiram lideranças dos movimentos e houve um redirecionamento das ações. Tanto que agora as pessoas tiram selfies com policiais militares.
 
Diário - O que a PM aprendeu com os protestos de 2013?

Helena - A conversa prévia (com as lideranças), o planejamento. Por exemplo, os black blocks. A própria população se ressentiu desse grupo e começou a excluí-los dos protestos. O que se alinhou com os objetivos da Polícia Militar. No dia 15 de março (deste ano), a orientação do movimento era sentar-se diante de qualquer distúrbio para que aqueles que participassem de atos violentos fossem identificados pela polícia. Isso ajudou nosso trabalho. Então, foi um alinhamento. De forma alguma somos contra (os protestos). Nós vivemos em um mesmo país e também sentimos os efeitos dos atos dos nossos governantes.
 
Diário - Qual sua avaliação da polêmica sobre a contagem dos manifestantes na avenida Paulista nas manifestações do dia 15 de março? Petistas e simpatizantes acusaram a PM de inflar os números por ser subordinada a um governo tucano.

Helena - Divulgamos 1 milhão, o Datafolha, 200 mil. Eles mensuraram só a Paulista. Nós tivemos fotos aéreas de um perímetro maior, incluindo as ruas paralelas. Foram medidas diferentes. Temos técnicas, que não são exatas, mas nossos números não têm conotação ideológica. Não faz sentido.
 
Diário - Por que a polícia tem tido dificuldade em reduzir os índices de roubo no Estado?

Helena - Tem a questão da redução da subnotificação pela possibilidade em se registrar a ocorrência pela internet. Mas o principal motivo é o aumento do poder de consumo da população. Tanto que hoje todo mundo tem um celular. O que chama a atenção do criminoso. Ao mesmo tempo, houve um incremento nos dispositivos de segurança dos automóveis, o que dificultou os furtos e fez aumentar os roubos. É um conjunto de fatores.
 
Diário - Em que medida o narcotráfico fomenta os índices criminais?

Helena - O tráfico induz os furtos e roubos menores, porque o usuário precisa fazer dinheiro rápido para manter o vício. Então alimenta sim os crimes patrimoniais. Combater o tráfico é uma diretriz importante na Polícia Militar.
 
Diário - Como combater as cracolândias, tanto na Capital quanto em Rio Preto?

Helena - Uma medida positiva foi a internação compulsória. Não é muito bem aceita na sociedade, mas eu vejo como algo positivo. A pessoa que deixou a família, vivendo daquele jeito, não tem mais como dirigir a própria vida. Além do mais, é uma questão de saúde pública. Faltam locais para internação (dos dependentes), falta continuidade no tratamento. A repressão não basta.
 
Diário - Qual sua opinião sobre o programa "De braços abertos" da Prefeitura de São Paulo?

Helena - Todo programa social só tem valor se tiver um acompanhamento muito rígido. Pode incentivar as pessoas a mudar de vida? Pode, mas essa pessoa não está no controle da sua vida. Se der dinheiro a essa pessoa, vai comprar mais drogas. É preciso exigir mais contrapartida. E, sempre que possível, envolver a família nesse processo.
 
Diário - Como você reagiu à morte do seu irmão?

Helena - Fiquei muito triste, arrasada. Ele morreu dia 1º de agosto e iria casar-se dia 17. Estava tudo pronto para o casamento. Tivemos de cancelar a festa, avisar os convidados.
 
Diário - Na hora, veio a raiva?

Helena - Sim, é natural. A gente pensa: por que isso?
 
Diário - Angustia o fato de o autor estar impune?

Helena - Sim. Ele pode estar fazendo mal a outras pessoas. A sensação de impunidade dói.
 
Diário - Se a sra. topasse hoje com o assassino, que tipo de reação teria?

Helena - É difícil de dizer. Por uma questão de princípios, não sou a favor da justiça com as próprias mãos. Para não morrer espiritualmente - porque a mágoa te envenena - você tenta aceitar a situação, assimilá-la. Não passa um dia em que não me lembre dele e da vida que poderia ter tido, mas é preciso superar, racionalizar a situação. É o melhor caminho. 
 
Diário - Qual a possibilidade de a sra. assumir o comando do CPI-5?

Helena - (Risos). Não tenho condição de responder isso. Sou de Rio Preto, então seria uma realização. Minha família está aqui. Mas o coronel Rogério (Xavier, atual comandante) também é daqui. Não trabalho com essa possibilidade no momento. Sou recém-promovida. Se surgir a oportunidade, vou ficar feliz. Seria a primeira mulher na história do comando do CPI.

 

 


 

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