Diário da Região

06/09/2017 - 00h00min

VIOLÊNCIA

Maioria dos casos de feminicídio acontece dentro de casa

VIOLÊNCIA

Belisário/Editoria de Arte NULL
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A cada dez tentativas de feminicídio ou crimes consumados do tipo na região, 8,75 são cometidos dentro de casa. É o que mostra levantamento da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado obtido pelo Diário com base na Lei de Acesso à Informação. De janeiro de 2015 até março deste ano, foram pelo menos 11 tentativas e cinco feminicídios consumados na região de Rio Preto. Metade das ocorrências aconteceu durante a noite ou madrugada.

Uma dessas vítimas é G.M.V., morta em fevereiro em Urupês, aos 32 anos. Durante uma discussão, o ex-marido jogou um copo nela. A mulher caiu no chão ferida; neste momento ele a esfaqueou no peito. O casal estava separado porque a vítima não suportava mais as agressões. O crime aconteceu na frente da mãe de G., com quem ela estava morando. O casal tinha um filho adolescente, que agora mora com a avó. O homem está preso.

Segundo uma tia da vítima que não quer ser identificada, o autor ameaçava a vítima. “A partir do momento que ela o conheceu, a vida dela acabou, nunca mais teve paz.” A mulher tentava esconder da família o que vivia e chegou a ter um dos braços quebrados pelo companheiro. Quando resolveu dar um basta na situação, sabia que corria riscos. “É muito difícil. Ela vivia em um inferno. Muito batalhadora, o sonho dela era ser professora”, diz a tia. A vítima vendia salgados em uma escola de Urupês, mas foi aprovada em um concurso público e passou a atuar como servente na instituição.

 

Arte - Feminicídio 02 - 06092017 Clique na imagem para ampliar

Agora ficou o medo de que o autor possa se voltar contra alguém da família. A situação de G. não é exceção. Segundo Cléa da Cruz Lima, coordenadora do Centro de Referência e Atendimento à Mulher (CRAM) de Rio Preto, a maior parte dos casos de feminicídio que chegam ao órgão acontecem depois que a mulher tenta romper o relacionamento. Isso, no entanto, não deve impedir a denúncia e o afastamento do autor do delito, pois segundo Cléa há maneiras de proteger a mulher e é preciso procurar ajuda o quanto antes.

Mesmo quando os crimes acontecem fora de casa, eles têm ligação com o convívio familiar da vítima. Em setembro de 2015, um homem de 32 anos agrediu com socos e pontapés sua companheira de 39 porque ela o teria traído. O crime ocorreu na avenida Ernani Pires Domingues e a mulher chegou a ser socorrida, mas morreu ao dar entrada na UPA Norte. A lei que coloca o feminicídio como crime qualificado é de março de 2015. Um caso é considerado como tal quando ocorre em decorrência de violência doméstica ou ódio ao gênero da mulher.

As agressões que ocorrem em casa são subnotificadas, criando uma espécie de “cifra negra” - ocorrem mais casos do que os que chegam a público. É o que acredita Ana Gabriela Mendes Braga, professora do curso de direito da Unesp de Franca e doutora em criminologia. “Tem muito mais violência que ocorre no ambiente doméstico, não vem á tona até pelo domínio do homem dentro da casa, às vezes a mulher depende financeiramente dele.”

Para a docente, o direito às vezes não consegue coibir a violência na casa das pessoas, mas as mudanças na lei, frutos também do movimento feminista, servem para lançar luz ao problema e torná-lo público e não isolado de cada mulher - uma interrupção do ditado “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. “O feminicídio não é nada mais que o homicídio, está na lei, mas chamar isso de feminicídio traz uma luz, um foco para uma violência que é cotidiana”, considera. A Secretaria de Segurança Pública afirma que adotou um Protocolo Único de Atendimento em casos de violência contra a mulher para melhor acolher as vítimas, além de manter parcerias que auxiliam no combate e no tratamento dos casos.

 

Arte - Feminicídio 03 - 06092017 Clique na imagem para ampliar

Violência começa antes

A tentativa ou o crime consumado de feminicídio não acontece na primeira agressão. É o que acredita Cléa da Cruz Lima, coordenadora do CRAM de Rio Preto. “Acontece em decorrência de várias situações de violência. O autor ameaça a mulher, às vezes os filhos, os familiares. Esse medo paralisa a mulher.” No primeiro semestre deste ano, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) registrou 464 casos de ameaças e 332 de lesões corporais. O agressor chega a culpar a vítima pelos seus atos. Há o sentimento de vergonha e a mulher acaba não relatando o que se passa para a família, que, quando sabe, também sente medo.

Dálice Aparecida Ceron, delegada da DDM, afirma que a maioria das vítimas de tentativa ou feminicídio consumado não denunciaram agressões anteriormente. “Pode ser que haja um histórico, mas elas suportam.” Dálice explica que a violência é cíclica. “O homem bate, ameaça, agride, se arrepende, chora, pede perdão até a próxima investida.” A delegada acredita que muitas mulheres demoram para dar um basta à situação por medo da solidão e dependência financeira. A orientação é sempre procurar ajuda. O agressor não precisa saber da denúncia. Em casos de risco de vida, a mulher pode ficar em uma Casa Abrigo.

 

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