Diário da Região

19/08/2017 - 00h00min

TRÊS HOSPITAIS

Defensoria vai investigar denúncias de violência obstétrica em Rio Preto

TRÊS HOSPITAIS

Johnny Torres 18/08/2017 Núbia com o filho de um ano e quatro meses: médico foi sarcástico com relação à doula e ela não pôde ficar com o bebê logo após o nascimento
Núbia com o filho de um ano e quatro meses: médico foi sarcástico com relação à doula e ela não pôde ficar com o bebê logo após o nascimento

Mariana (nome fictício para preservar a identidade da entrevistada) chegou ao Hospital da Criança e Maternidade (HCM) em março deste ano já em trabalho de parto e com a bolsa rompida. Pressionada, assinou o papel em que concordava com a cesariana que ela não desejava.

Sem vaga no centro cirúrgico, teve de esperar na sala de recuperação. Conta que havia fluido pingando de sua bolsa e que a equipe ficou brava porque estava sujando o chão. Quando foi para a cirurgia, presenciou uma discussão entre a médica residente e a obstetra. Com dor, não conseguia ficar parada e levou bronca de uma das médicas, que não conseguia fazer a anestesia fazer pegar.

O marido pediu que o ar fosse desligado, mas não foi atendido. “Fiquei o tempo todo tremendo de frio, chorando muito, estava muito desesperada. Dá para ver a agressividade da residente ditando o bebê. Estava um clima muito ruim.”

Para Mariana, ficou a frustração, já somada à violência que tinha sofrido no primeiro parto, do filho de 3 anos, no qual também foi obrigada a fazer cesárea. “Um momento que era pra ser tão especial na minha vida é um dia que não gosto nem de lembrar”, fala. “Sentimento de impotência, acaba deixando um certo trauma e sensação de um sonho que se tornou pesadelo.”

Foram relatos como o de Mariana que a Defensoria Pública de Rio Preto recebeu e agora vai investigar. Eles envolvem no total cinco partos que aconteceram no HCM, Santa Casa e Austa em atendimentos no SUS e por convênios médicos. O Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher, em São Paulo, instaurou processo para apurar as denúncias, pedindo informações às maternidades e propondo medidas educativas, preventivas e repressivas. Dependendo do rumo das investigações e da decisão das mulheres, as instituições podem ser responsabilizadas cível, administrativa e criminalmente.

Daniel faria um ano

O bebê de Patrícia Mara da Silva, tradutora de 37 anos, estaria completando nesta semana seu primeiro aniversário. Ele morreu pouco depois de nascer em agosto do ano passado.

A mãe relata que chegou ao HCM com dilatação de nove centímetros. Queria parto normal, mas foi pressionada a fazer a cesárea. Quando se recusou, o médico teria dito gritando que ninguém da equipe tocaria nela e que ela ficaria esperando o obstetra que fez o pré-natal. Conta que o plantonista a empurrou na maca para fazer o exame de toque.

Desesperada, com dor e sem a analgesia que tinha pedido, concordou com a cesárea. Quando o marido conseguiu entrar, o bebê já havia sido tirado do útero. Patrícia ouviu uma mulher gritar três vezes “chama a pediatra”. A família foi informada que Daniel não sobreviveria devido a um problema na respiração. “Me separaram do meu acompanhante. Todos os órgãos do meu bebê eram perfeitos. Nada justifica ele ter morrido. Não sei e nunca vou saber o porquê.” O caso de Patrícia está sendo investigado pela Polícia Civil.

Núbia Regina Custódio Borsato, dona de casa de 27 anos, deu à luz o filho de um ano e sete meses na Santa Casa. Ela conta que teve problemas para que recebessem seu plano de parto. Quando chegou ao hospital, o bebê já estava nascendo, e tudo correu bem.

Como o períneo lacerou, ela precisou de cirurgia. Pediu pela presença da doula no centro cirúrgico. O médico disse que já que a profissional havia feito o parto, seria ela quem costuraria a paciente. Ela respondeu que não. “Ele começou a ser super estúpido. Torceu meu cordão e puxou minha placenta, sendo que eu não queria, em seguida pressionou o ferimento que ia costurar me trazendo muita dor. Ele percebia. Senti ele me suturar passando a agulha. Sem qualquer explicação introduziu os dedos até meu útero e pressionou com toda a força”, lembra.

Sabrina Santos Viana Castellani, assistente social da Defensoria Pública que colheu os relatos, ressalta que qualquer mulher que se sentir desrespeitada durante o pré-natal ou no parto pode procurar por ela na Defensoria Pública das 7h às 16h. A vítima vai decidir como quer proceder - se faz apenas uma denúncia, se deseja anonimato e se quer entrar com ação na Justiça. “Chegam sempre acompanhadas de um familiar porque estão muito fragilizadas. Um momento que era para ser feliz e virou um trauma.”

Para o defensor Júlio Tanone, há bons profissionais que reproduzem a violência acreditando estarem fazendo o bem. “Contudo, a violência está ligada ao gênero e a objetificação da mulher durante o atendimento, especialmente aquelas mais pobres e humildes, que não compreendem que estão sendo submetidas a violações enquanto sujeitos de direito em especial situação de fragilidade”, afirma.

Outros fatores apontados por ele são a má-formação das equipes, ignorância sobre a legislação impunidade dos agressores e pressões decorrente das más condições de trabalho e o deletério processo de mercantilização da profissão médica.

patrícia Patricia com roupa e objetos que havia comprado para o filho, que faria um ano nesta semana

O que dizem os hospitais de Rio Preto

Em nota, o HCM disse que não recebeu notificação da Defensoria Pública sobre as manifestações das gestantes. Segundo o texto, o hospital e seus profissionais empenham-se em fornecer o melhor atendimento aos pacientes, que são 80% do SUS. A instituição destacou que já foi premiada como a melhor maternidade do Estado, que realiza cerca de 4 mil partos por mês e é referência para gestação de alta complexidade.

A instituição informou que possui dois canais de relacionamento com o cliente. Sobre as manifestações de Patrícia, o hospital disse que a diretoria e os profissionais estão convictos de que prestaram atendimento correto e humanizado e que em respeito à ética e ao sigilo médico não iria informar detalhes do atendimento.

Em relação a Mariana (nome fictício), o HCM disse que ela deu entrada no hospital com quadro clínico que indicava cesárea para garantir o bem-estar do feto, e que a demora necessária no parto normal poria em risco a vida dele.

A instituição reconheceu que todas as salas de cirurgia estavam ocupadas quando Mariana deu entrada, mas falou que ela permaneceu sob acompanhamento da equipe médica durante todo o tempo, sem que a espera prejudicasse sua saúde ou da criança. O HCM negou que as enfermeiras tenham tido atitude negativa em relação à paciente.

O hospital disse que o parto foi humanizado, como todos os outros, e que desde a primeira hora de vida da criança preconiza e estimula o aleitamento materno, o que foi feito com Mariana. Informou também que funcionários acolhem e atendem mães e crianças em tempo integral na sala de recuperação, e que em todo centro obstétrico a equipe monitora as condições de mãe e filho durante a noite.

A assessoria de imprensa do Austa disse que não foi notificada pela Defensoria Pública e que consta manifestação da paciente em seu serviço de atendimento ao cliente, que teria sido prontamente tratada.

A Santa Casa disse que vai investigar os casos e que todas as regras são seguidas rigorosamente.

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