Diário da Região

02/07/2017 - 00h00min

Chico Xavier

Um legado para a humanidade

Chico Xavier

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Queijo mineiro com doces de figo e leite, tudo misturado, e um cafezinho para arrematar. Entre as músicas mais ouvidas estavam as clássicas, como a 9ª Sinfonia de Beethoven, a 6ª Sinfonia de Tchaikovsky, e Roberto Carlos orquestrado, tocando ao fundo, enquanto trabalhava. Torcedor do Corinthians, leitor de dois jornais por dia, e um ouvinte assíduo das notícias do rádio. Ele ainda adorava anedotas e ria muito ao ouvi-las e conta-las. Assim era parte do dia a dia de Francisco Cândido Xavier, conforme revela o mirassolense Adelino da Silveira, 75 anos, que por mais de três décadas conviveu com o maior expoente do espiritismo no Brasil. “O ser humano mais humano que já conheci”, afirma Adelino.

Há 15 anos, Chico Xavier nos deixava, e junto, um legado de conhecimento e orientações, a principal delas: o amor. Sua partida se deu exatamente em 30 de junho de 2002, dia que o Brasil comemorava a conquista do pentacampeonato, na Copa do Mundo, em Seul. Chico sempre dizia que queria ir (desencarnar para os espíritas) em um dia “em que os brasileiros estivessem muito felizes”. Foi aos 92 anos, em Uberaba (MG), que Chico encerrou também os 75 anos de atividade mediúnica. Uma personalidade querida e admirada por todos. 

Ainda que com tantas diferenças entre crenças religiosas, ninguém se atreve a desqualificar toda a bondade, caridade e generosidade de Chico Xavier. Adelino, assim como outros moradores de Rio Preto e região que tiveram a oportunidade de conhecer e conviver com ele, confirmam. A vida para o médium, em qualquer formato que se apresentasse, era alvo de seu respeito. “Ele dizia que quem chuta um animal é porque ainda não aprendeu a amar”, fala Adelino, que conta também um caso em que o espírita “salvou” a vida de um besouro. Chico Xavier era um manancial de casos e os contava porque gostava de conversar, do contato com gente.

 

Antonio Carlos Navarro - 02072017 Antonio Carlos Navarro, um dos fundadores do Centro Espírita Chico Xavier, em Rio Preto; conheceu o médium em 1989

Voltando à história do besouro, certa vez, quando ele e o também médium Waldo Vieira trabalhavam, um inseto caiu dentro da máquina de escrever de Waldo. Ele o pegou e jogou contra a parede. O inseto voltou a voar e novamente caiu dentro da máquina do médium, que novamente o jogou contra o teto, dessa vez com mais força. Como se fosse um avião com uma das asas desregulada, o besouro voltou a voar e dessa vez caiu na máquina de Chico. O líder espiritual o pegou e disse: “Se o Waldo não conseguiu te desencarnar, é porque você tem uma missão na terra”. Abriu a janela e o colocou para fora, falando: “Vá com Deus, vá com Deus.”

Essa é uma das experiências que compartilhou com Adelino, que durante 33 anos foi amigo próximo de Chico. Já com problemas cardíacos, o espírita de Mirassol deveria, por recomendação médica, aquietar-se um pouco. Mas Adelino continua a fazer palestras por todo o Brasil sobre a doutrina e a história do “apóstolo da nova era”, como ele se refere ao médium. Rio-pretenses que conheceram Chico Xavier dizem que é “inexplicável a experiência de estar ao lado de alguém com uma aura tão iluminada”, como explicitado pelo eletrotécnico Antonio Carlos Navarro, entre outros.

O autor de mais de 400 títulos e 10 mil cartas “psicografadas” é a maior referência no Brasil da doutrina espírita. Seu trabalho já foi traduzido em pelo menos 30 línguas e já foram vendidos mais de 60 milhões exemplares de seus livros. A obra "Nosso Lar", por exemplo, virou best-seller, com mais de 1 milhão de unidades comercializadas no Brasil, onde foi transformada em filme, lançado em 2010, quando Chico completaria 100 anos, segundo dados da Fundação Cultural Chico Xavier. Todo o dinheiro obtido com a venda dos livros foi revertido em ações sociais.

Doutrina

O espiritismo é uma doutrina estabelecida no século 19, na França, por Denizard Hippolyte Leon Rivail, mais conhecido como Allan Kardec. Nela, se considera a morte apenas uma etapa da evolução e acredita-se que existam vidas em outros planetas. Fundando diversos pontos da prática espírita, kardec difundiu a doutrina na Europa. “Kardec prossegue”, um dos três livros escritos por Adelino da Silveira, traz Chico Xavier como o continuador legítimo da obra de Allan, ou seja, sua “reencarnação”.

Chico Xavier é o mais consagrado escritor e psicógrafo brasileiro e o Brasil possui a maior comunidade espírita do mundo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que em 2010, último Censo, eram 27.786 rio-pretenses que se declararam espíritas na cidade, ou 6,8% da população, na época composta por 408.258 habitantes. Ficava na terceira posição entre as religiões mais seguidas, atrás de católicos e evangélicos.

Em Rio Preto, estima-se que sejam 60 centros espíritas, conforme a União das Sociedades Espíritas. Um deles, no Solo Sagrado, recebe o nome de Francisco Cândido Xavier. Dentro, a imagem do homenageado. “Estive com Chico em 1989, em Uberaba, e disse que tínhamos fundado um centro espírita com seu nome. Ele, em sua simplicidade, me respondeu que tinham tantos nomes bonitos que poderiam ser colocados, não precisava ser o dele”, conta o eletrotécnico Antonio Carlos Navarro, 58 anos, um dos fundadores do centro.

Ele conta que esteve duas vezes com o médium, na segunda, em 1999, só para cumprimentá-lo, já que Chico Xavier já estava bem adoentado e recebia as pessoas em sua casa. “Na primeira vez que estive com Chico tinha mil coisas para falar, mas não falei nada. Chega a ser comovente estar na frente de um homem como ele”, diz. Mesmo sem ter feito as perguntas que queria, Navarro conta que recebeu as orientações que havia ido em busca. “Quando Chico Xavier olha nos seus olhos ele lê sua alma. Ele me deu conselhos de cunho pessoal e do trabalho espírita. A uma pergunta sobre minha mediunidade, ele disse: ‘Espere o tempo, que ele trará o que busca’, encaixou-se como uma luva às minhas necessidades íntimas”, recorda Navarro.

 

Hamilton Bassi com Chico Xavier - 02072017 O cardiologista Hamilton Bassi com Chico Xavier e Adelino da Silveira

‘Oportunidade ímpar de conhecê-lo’

Conheci Chico pessoalmente em 1982 e estive com ele mais umas seis vezes. Eu tinha um desejo enorme de conhecer aquela figura cristã, refletindo Jesus, e que tanto me inspirou na vida. Tinha sede das suas palavras e da sua sabedoria.

Sou moldado pelo Chico e pelos seus livros. Não consigo me imaginar sem o que aprendi com sua vasta literatura e suas preciosas orientações. Conhecer Chico foi um acréscimo de misericórdia divina na minha existência.

Chico me orientou na minha carreira médica, escolhendo minha especialidade, me ensinando a examinar os meus pacientes, na indicação de certas drogas e no cuidado com cirurgias e procedimentos invasivos desnecessários. Suas orientações foram fundamentais no meu proceder. Quando eu estava preocupado com a minha saúde ele me orientou: ‘Se o senhor emagrecer, chegará a tantos anos’, e me revelou a partiria para o plano de vida eterna, ‘caso contrário...’ Fiquei vermelho e sem graça, já que estava muitos quilos acima do peso. Em uma das visitas que fiz e estava afastado um pouco dos livros, Chico falou: ‘O senhor precisa se atualizar na profissão’, quase morri de vergonha.

Chico era o médium do Brasil, o cristão em plena atividade, um excelente contador de histórias. Tudo que Chico dizia era com graça e sabedoria. Era Divertido, bem-humorado, amoroso. Sua presença era um show de luzes, paz e harmonia.

Hamilton Bassi, 60 anos, cardiologista, mora em Rio Preto

 

Antonio Nunes Balbino - 02072017 O militar Antonio Nunes Balbino, com a mulher, Clélia, e Chico Xavier

‘As palavras dele eram uma lição de vida’

Estivemos com Chico Xavier cinco anos seguidos. Era um sonho estar ao lado dele, não tem explicação. Ele sempre falava palavras que serviam para a gente. Ele me disse: ‘Quem caminha para a responsabilidade, nunca deve perder a hora’. Procurávamos ir em abril, que era o aniversário dele. O Chico adorava a presença do povo ao lado dele. Depois do trabalho no Centro Espírita Grupo da Paz, onde ele psicografava cartas, íamos até a casa dele para tomar um café. Assim foi nossa vida perante esse missionário de Jesus.

Antonio Carlos Balbino, 60 anos, militar, de Rio Preto

 

 

Adelino da Silveira com Chico Xavier - 02072017 O espírita Adelino da Silveira com Chico Xavier

‘Em 33 anos, nunca deixei de ver Chico um único mês’

Conheci Chico no dia 21 de julho de 1969, um trânsito de dor me levou até ele. Em 1966 meu irmão Wilson morreu em um desastre de carro entre Fernandópolis e Estrela D’Oeste. Ele tinha 28 anos e havia se casado há sete meses. Conheci a doutrina espírita, quando eu não acreditava mais em nada, e foi ela que me levou até ele.

Já naquela época se formava uma fila enorme em frente ao centro que Chico atendia, em Uberaba. Quando fui me aproximando da porta, ele acenou na minha direção, continuei na fila, ele não me conhecia. A fila andou mais um pouco e Chico acenou novamente, e eu fiquei na fila. Quando já estava mais próximo, Chico disse: ‘ Venha cá, Adelino’. Uma das perguntas que fiz, a resposta mudou a minha vida. Eu tinha uma grande ânsia de conhecimento e medo que a tese materialista tirasse de mim o pouco de espiritismo que eu havia conquistado. Ele me deu uma aula de humanidade, falou sobre a importância dos livros e da ciência, mas completou dizendo: ‘Não adianta ser sábio, sem ter amado primeiro’. Nos 33 anos de amizade, eu nunca fiquei um mês sem ver o Chico. Ele esteve em Mirassol três vezes. Em 1974, veio para fazer uma prece no casamento da minha irmã Ilda com o meu cunhado Alderico.

Em 1971, quando ele participou do Pinga-Fogo, na TV Tupi, estava de terno e gravata. Foi muito criticado pelos espíritas que o acusaram de não ser humilde. As acusações prosseguiram e disseram que ele iria cair. Chico respondeu que não cairia. Mais uma vez o acusaram de falta de humildade e Chico respondeu que não poderia cair porque nunca havia se levantado. Um homem com apenas a 4ª série primária passou três horas sendo entrevistado sobre os mais diversos assuntos e discorreu sobre todos.

Chico usava peruca e boina por dizer que todos deveriam se apresentar bem e também porque faz frio de madrugada e ele ficava até quase de manhã no centro espírita. Os óculos escuros é porque ele tinha catarata inoperável. Contou-me que em 1931, Emmanuel (espírito) veio até o lado dele e disse que não haveria cura. Chico respondeu que precisava do olho para trabalhar e Emmanuel disse que ele trataria do olho com médicos, e assim foi. Chico não cabe nos livros, transcendeu o estreito perímetro das religiões. Como ele mesmo dizia: ‘Todas a religiões são santas. Nós é que temos que ser fiéis e pontuais’. Uma frase que defina Chico? É uma luz refletindo o próprio Cristo.

Adelino da Silveira, 75 anos, responsável pela parte espiritual e doutrinária do Grupo Espírita da Paz, de Mirassol, e autor dos livros Chico de Francisco, Kardec prossegue e Momentos com Chico Xavier.

 

Valdilene Aparecida Galípio - 02072017 A cuidadora de idosos Valdilene Aparecida Galípio com a carta psicografada e assinada pelo filho Felipe

Valdilene e Gláucia ‘falaram’ com seus filhos

No dia 21 de maio deste ano, a cuidadora de idosos Valdilene Aparecida Galípio, 36 anos, foi até um centro espírita que fica no bairro Cidade Jardim pela primeira vez. Entre as cerca de 300 pessoas que estavam no local, ela foi “chamada” por Felipe, o filho que partiu em 24 de novembro de 2016, aos 12 anos.

Fui para assistir a palestra do espírita Nilton César Stuqui, mas tinha certeza que o Felipe ia falar comigo. Eu acordei naquele dia com um beijo dele no meu rosto”, conta Valdilene. Para ela, o que aconteceu naquele dia não tem explicação. “Ninguém me conhecia no centro espírita, ninguém sabia do Felipe e ele falou várias coisas da nossa vida pessoal”, conta.

Entre as frases psicografadas, o filho teria dito aos pais que estava sendo bem cuidado, que já podia brincar e correr. Felipe nasceu com fibrose cística, uma doença genética sem cura, e desde pequenininho, dividiu sua vida entre a casa e o hospital. “Ajuda muito saber que ele está sendo bem cuidado, que está bem, era a grande preocupação que eu tinha. Traz conforto, já que a saudade não tem como amenizar”, diz Valdilene.

Quem também buscou conforto no espiritismo é a organizadora de eventos Gláucia Guarnieri, 45. A filha única, Karla, sofreu um acidente de carro em maio de 2015, quando tinha 17 anos, e não resistiu. “Uma amiga me falou do Instituto Espírita do Amor, em Pratinha, Minas Gerais e fui até lá. Quando o médium Júlio Carvalho me chamou pelo nome, foi surreal. Karla falou coisas de nossa mais restrita intimidade, como que sentia saudade do cheiro de castanha que eu exalava. Ela adorava esse creme”, diz. “Eu e meu marido tínhamos combinado de irmos juntos lá, mas um compromisso de última hora, o impediu e ele teve que viajar para Araraquara. Só nós dois sabíamos disso, e a Karla falou”, prossegue.

A filha teria mandado mais três mensagens para a família e Gláucia se tornou adepta da doutrina. Vai até o centro espírita em Minas duas vezes por mês. “Ela era a milha filha única. O conforto de saber que está bem é o que devolveu um pouco da vida para mim.”

 

análise

Reencarnação é oportunidade para evolução

“A doutrina espírita prega a existência do espírito em novos corpos, adequados às suas necessidades de aprendizado ou missão, tantas vezes quanto necessárias. A reencarnação explica entre outras, as diferenças morais, sociais e intelectuais entre os habitantes da terra. Sem as várias existências corporais o espírito ou alma encarnada não evoluiria moral e intelectualmente até atingir a sua perfeição relativa pois a perfeição absoluta é de Deus. A reencarnação não é uma punição, mas uma oportunidade de reajustamento às leis de Deus infringidas pelo seu orgulho, vaidade ou egoísmo. A verdadeira vida é a do espírito. Na Terra ele se reveste de um corpo físico temporário. Com a morte, o espírito volta ao mundo espiritual e permanece ali, feliz ou infeliz, aguardando uma nova oportunidade reencarnatória.”

Vislei Bossan - dirigente espírita

 

análise

Ressurreição é um dado de realidade

Para nós católicos, a única referência é o ensinamento e a experiência de Jesus Cristo. Em seu discurso, durante seu ministério apostólico, Jesus afirmou muitas vezes que a vida do ser humano não se resume em viver alguns anos e depois ser exterminada. 

Para Jesus, nossa vida é eterna. Vida eterna é o tema que mais é apresentado nos Evangelhos. Acreditamos também por causa da experiência de Jesus. Morreu na sexta-feira e já estava vivo, ressuscitado, na manhã do terceiro dia após a cruz. 

De todas as possibilidades acreditadas de vida após a morte, a ressurreição de Jesus é a única que tem caráter histórico. A ressurreição não é uma hipótese, é um dado de realidade, é algo experimentável. Respeitamos os tantos outros irmãos que pensam diferente, por exemplo o grande Chico Xavier e nossos irmãos espíritas.

Padre Oscar Donizeti Clemente

 

análise

Não existe uma segunda chance

A teologia protestante, de maneira geral, acreditar na imortalidade da alma, ou seja, que a vida não finda com a morte. O Apóstolo Paulo ensina que os que morrem em Cristo passam imediatamente para a presença de Deus, já os não crentes são destinados a um lugar antagônico ao céu, ou seja, a um lugar de sofrimento. 

Ao morrer, o homem estará diante do seu destino, não existe uma segunda chance após a morte, sendo que a atitude diante de Deus e da obra redentora de Jesus Cristo aqui em vida é que definirá a eternidade do indivíduo. Daí o porquê os evangélicos insistem tanto na conversão de almas à fé cristã.

Pastor Batista João Flávio Martinez, Pesquisador de religiões

 

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