Diário da Região

24/02/2017 - 00h00min

LAR NADA DOCE LAR

Família vive sob um viaduto de Rio Preto

LAR NADA DOCE LAR

Johnny Torres Alessandra, Agnaldo e Leandro: dificuldade de viver nas ruas, mas alívio de ter a quem recorrer. Para eles, faltam oportunidades
Alessandra, Agnaldo e Leandro: dificuldade de viver nas ruas, mas alívio de ter a quem recorrer. Para eles, faltam oportunidades

Três pessoas conversando ao redor de uma mesa. Em uma cadeira, roupas de cama dobradas. Um colchão encostado. Um fogão, chão limpo e bem varrido. A casa não tem porta, mas está sempre aberta a quem precisa de ajuda ou de um prato de comida. Ali moram Alessandra, Juliano e Aguinaldo, uma família nada convencional, assim como o “lar” que criaram debaixo de um viaduto na avenida Murchid Homsi, perto da Swift. Se a generosidade que atrai outros moradores de rua ao local é gigante, a miséria que por ali reina é tão incômoda quanto. 

O local, na verdade virou uma espécie de “casa de passagem” para quem vaga pelas esquinas sem saber direito para onde ir. Segundo último levantamento realizado em Rio Preto, no ano passado, são pelo menos 900 pessoas morando nas ruas na cidade. Alessandra Sousa Soares (que já ganhou o apelido de a “mãe da rua”) e o marido Juliano, ambos de 39 anos, chegaram ao local há um ano. Há oito meses veio o “agregado” Agnaldo Teixeira de Melo, 46 anos, chamado de “Véio”. E tem o Faísca, o cachorro manso que brinca e dorme aqui e ali.

Neste momento, a “casa” acolhe Leandro Costa dos Santos, 21 anos. Ele deixou o Maranhão há dois anos em busca de uma vida melhor para a mãe que rala coco, mas brigou com o dono do circo em que trabalhava em Maringá (PR) e caiu na estrada. Como ouviu falar que um irmão seu estava em Rio Preto, desembarcou aqui três meses atrás. Não achou o irmão. Agora quer voltar para casa, mas não tem dinheiro para tirar os documentos perdidos e comprar passagens.

Na “casa” da mãe da rua não se admite coisa errada. “Chegou aqui, come e dorme. Mas mexer no alheio, usar droga ou bebedeira aqui nós não aceita (sic) não”, diz a mulher. Alessandra não nega apoio e comida. “Do jeito que nós precisamos, eles precisam também. É um ajudando o outro.” No dia que a reportagem visitou o local, havia um casal por lá, mas as pessoas não quiseram ser identificadas. Alessandra soma quatro anos de rua. Seu último emprego, com o marido, com quem vive há 12 anos, foi há dois, em uma fazenda em Goiás, onde ordenhavam vacas. 

Sem trabalho quando o negócio desandou e sem o pagamento a que tinham direito, saíram pelas estradas e vieram parar em Rio Preto. Ela tem três filhos de outro relacionamento. “Cada um tem sua vida própria”, diz. Juliano tem um casal de filhos, de 17 e 14 anos. Também é natural do estado de Goiás, onde ele e Alessandra se conheceram. Alessandra conta que passou fome quando criança e hoje não reclama do que tem. “Às vezes nós vivemos melhor do que quem está lá (em um teto convencional). Na comida, no vestir. Nós não temos uma casa boa para estar debaixo, é tudo só o que falta”, afirma.

Agnaldo nasceu em Campinas, veio do Mato Grosso, mas tem origens na região, com mãe morando em Jales e pai nascido em Votuporanga. Tem uma filha. Na última vez que a viu, ela tinha 12 anos. Calcula que hoje ela esteja com 31. A vida nas ruas não é fácil. “Você habita com tudo que é bom e com tudo que não presta também”, diz Alessandra. A família já teve os pertences – roupas, colchões e comida - queimados uma vez. Em outra ocasião, os pertences de Agnaldo também foram incendiados. A maior dificuldade é com saúde e higiene. Comida sempre tem, mas banho acontece só quando chove. E se quiser fugir da chuva, também não dá, porque o viaduto não protege da água que encharca tudo. “Aqui, sem querer você já fica doente, que é muita friagem, é muito frio”, conta Alessandra.

Faltam de oportunidades

Além do trabalho, eles contam com ajuda da população. Juliano conseguiu emprego como ajudante de pintor. “Nós estamos tentando agora para ver se conseguimos juntar (dinheiro) para sairmos daqui”, relata Alessandra, enquanto cozinha a comida da família no fogão improvisado. Leandro já tentou arrumar emprego e entregou currículos, mas até agora nada surgiu. Agnaldo é pedreiro, mas está parado. Com psoríase atacada, ele precisa de remédios e dinheiro para tirar os documentos.

Não acredita que tenha sido esquecido pelo mundo, mas vê um motivo para sua situação. “A situação se agravou e cada vez mais vem nos sacrificando. A senhora me daria um emprego eu estando aqui embaixo da ponte sem documento, sem moradia, a senhora confiaria deixar a sua casa na minha mão e ir trabalhar?”, questiona.

Quando respondo que possivelmente não faria, ele continua: “Então, esse é o motivo de estarmos aqui. Não temos oportunidade. Não somos bandidos. Se fôssemos, não estaríamos aqui. Mas aos olhos da sociedade não somos confiáveis, então não temos oportunidade e cada vez menos oportunidades. Quanto fracos ficamos, mais dependemos da sociedade. E quanto mais dependemos da sociedade mais excluídos estamos, porque não confiam em nós.”

Esperança

O sonho de vida de Alessandra é ter uma casa, assim como Agnaldo. Mesmo com todas as dificuldades, a mulher diz que é feliz. “Se falar que sou triste, estou mentindo. Sou feliz com o pouco que Deus dá”, relata. A preocupação da “família” agora é ajudar Leandro a voltar para o Maranhão, onde deixou uma filha pequena. “Para ele não ser mais um mendigo na cidade, nem mais um ladrão amanhã. 

Ele estando aqui, as oportunidades são mínimas. Ninguém dá confiança, não tem endereço, não tem um telefone, a gente não tem uma referência, então ele precisa dessa ajuda.” Todos dizem sentir saudade dos familiares, mas não pensam em procurá-los. “Voltar nessa circunstância, eu não quero, não”, diz Alessandra, que não vê a mãe há cerca de três anos. Agnaldo também não pensa em deixar Rio Preto. “Eu sou daqui e é aqui que eu vou viver e morrer.”

Prefeitura anuncia novo levantamento

A Diretoria Regional de Assistência e Desenvolvimento Social (Drads) e a Prefeitura de Rio Preto vão realizar pesquisa para atualizar o número de moradores de rua de Rio Preto. O trabalho será realizado em 46 municípios da região. De acordo com o último levantamento, de 2016, Rio Preto tem 900 habitantes em situação de rua.

A proposta é traçar um diagnóstico para o desenvolvimento de ações conjuntas e multidisciplinares, envolvendo futuramente, além da Assistência Social, áreas como Saúde, Educação, Trabalho, entre outras, para um atendimento integral ao morador de rua. “O trabalho é de fazer o resgate, mas é direito dele decidir se quer sair da rua. É um serviço a longo prazo”, diz Maria Sílvia Fernandes, secretária municipal de Assistência Social. 

Segundo ela, a população migra para Rio Preto vinda de cidades de São Paulo e de outros estados. “A proposta é traçar uma política regional para que o morador não fique indo de um município para o outro.” A secretária considera que a maioria das pessoas acaba na rua devido à fragilização do vínculo com a família e ao desemprego.

De acordo com Silvia Laguna, diretora regional da Drads, a mesma metologia de pesquisa será utilizada em todas as 47 cidades. Ela afirma que o trabalho não é simplesmente dar passagem para a pessoa voltar para sua cidade de origem. “O que a gente precisa é de um trabalho aprofundado. Saber o motivo pelo qual essa pessoa está na rua, qual foi a opção dela”, afirma.

 

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