Diário da Região

19/02/2017 - 00h00min

EM XEQUE

80% dos novos médicos não sabem o básico

EM XEQUE

Johnny Torres Pedro Teixeira Neto, conselheiro do Cremesp e professor universitário em Rio Preto: formação do aluno de medicina preocupa
Pedro Teixeira Neto, conselheiro do Cremesp e professor universitário em Rio Preto: formação do aluno de medicina preocupa

A medicina no Estado de São Paulo, considerada a mais eficiente do Brasil, apresenta sintomas graves. Oito em cada dez médicos recém-formados não sabem sequer interpretar uma radiografia. Esse dado é só uma amostra do exame aplicado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Das 30 escolas, a Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) e a Faculdades Integradas Padre Albino (Fipa), de Catanduva, foram as únicas da região que participaram, com 65 alunos cada, e ficaram entre as 16 melhores colocadas.

No total, 2.677 alunos fizeram a prova em outubro do ano passado (todos do último ano da graduação) e mais da metade não foi aprovada. O resultado só foi divulgado agora. Desses, 1.166 mil foram aprovados e 1.511 mil reprovados. Para ser aprovado, o candidato precisava acertar 72 das 120 questões no total, ou seja, 60%.

“É um número muito preocupante. Isso demonstra que as universidades têm problemas na formação do aluno”, disse o médico Pedro Teixeira Neto, conselheiro do Cremesp e professor universitário em Rio Preto. Pela ordem, os alunos conseguiram mais acertos nas questões de ciências básicas, saúde mental, clínica cirúrgica, bioética, clínica médica, ginecologia, obstetrícia, pediatria e saúde pública/epidemiologia.

 

Arte - Nº de Teste para médico - 19022017 Clique na imagem para ampliar

Erros

O Cremesp repassou à imprensa exemplos de questões com altos índices de erros. Entre eles, 70% dos alunos não souberam indicar a conduta adequada em paciente com crise hipertensiva, doença que afeta 25% da população brasileira; 75% não conseguiram identificar as principais características e conduta correta diante de um paciente com deficiência respiratória; e 71% não acertaram o diagnóstico e o tratamento para hipoglicemia em recém-nascido, problema comum nos bebês, segundo comunicado.

Ao todo, são listados nove escorregões em “questões básicas da Medicina”. Não foram divulgados dados por faculdade ou região do Estado. A avaliação é realizada entre alunos que estão no último ano em escolas públicas e privadas. Além disso, é facultativa e, diferente de outras profissões, como a de advogado, a avaliação do Cremesp não impede o aluno de exercer a medicina.

Somente faculdades que já formaram a primeira turma puderam participar. O Estado reúne 46 escolas médicas em atividade e, dessas, 30 foram avaliadas. Cursos como os da Unilago e da Faceres, em Rio Preto, abertos há menos de seis anos, ficaram de fora porque ainda não haviam formado turmas até a data do exame.

Acima da média

A Famerp, de Rio Preto, e a Fipa, de Catanduva, estão entre as melhores avaliadas após conquistarem uma média de acerto igual ou superior a 60%. As notas fechadas dos cursos serão enviadas aos diretores das instituições e as individuais a cada estudante. “A Famerp ficou em primeiro lugar durante os últimos dois anos, o que comprova a excelência do ensino na faculdade. A Famerp apoia a iniciativa porque essa avaliação é muito importante para a qualidade da formação médica”, disse a faculdade rio-pretense, em nota.

Assim como nos anos anteriores, as faculdades privadas superaram as públicas em aprovação. Em 2016, a privada teve 588 aprovados e 1.159 reprovados. E os cursos públicos contemplaram 578 aprovados e 352 reprovados. Viviane Mari Honori, formada pela Fipa e que fez a prova no passado, comemora o fato de estar entre as 16 melhores avaliadas. "Isso deixou nossa turma orgulhosa, porque há o preconceito com a faculdade privada."

A coordenadora do curso de Medicina da Fipa, Terezinha Soares Biscegli, diz que o fato de figurar entre as 16 melhores no Estado de São Paulo é motivo de orgulho. "É o resultado de um trabalho coletivo que não mede esforços para elevar a qualidade de nosso ensino. A prática profissionalizante, ou seja, o contato direto do aluno com o paciente mediante a supervisão de um preceptor, principalmente nos últimos dois anos de Faculdade, é um dos principais diferenciais do curso. Essa vivência potencializa o aprendizado teórico e transforma nossos alunos em excelentes médicos", afirmou Terezinha.

Pediatria tem resultado ruim

As especialidades de saúde pública, epidemiologia, pediatria e obstetrícia tiveram resultados abaixo da média. O Cremesp classifica o resultado como insatisfatório se ficar abaixo de 60% de acertos. "São três áreas onde há muita procura", disse Pedro Teixeira Neto, conselheiro do órgão. O pior desempenho foi o de saúde pública/epidemiologia, com 49,1%, a última colocada entre as nove áreas. Essa baixa ocorre em um período em que o Brasil, inclusive a nossa região, teme por doenças como dengue, zika e febre amarela.

Pediatria e obstetrícia obtiveram médias de 53,3% e 54,7%, respectivamente. Na outra ponta, ciências básicas lidera com média de 65%. Felipe Medeiros, formado pela Famerp e que fez a prova no ano passado, criticou o modelo de avaliação. "É uma prova de conhecimento teórico, sem avaliar a prática do médico em seus atendimentos. Há médicos que nem conversam com paciente", ponderou Medeiros. 

"É preciso, sim, avaliação externa, mas feita no último ano do curso. Agora, quem vai corrigir meus erros se já não estou mais na faculdade?" Ao fazer sua especialização em saúde pública, Felipe conta que as questões de epidemiologia focaram em dados estatísticos. "Não debateram, por exemplo, como devemos receber esses pacientes. Em ginecologia, também, houve muita conduta específica. A minha visão é generalista", contestou Medeiros. A prova foi composta por 120 questões de múltipla escolha, com cinco alternativas de respostas, e aplicadas pela Fundação Carlos Chagas. 

 

Bráulio Luna Filho - 19022017 Bráulio Luna Filho, diretor do Cremesp e coordenador do exame: faculdades devem promover melhorias no ensino

Teste reprova mais da metade dos alunos

A queda no desempenho dos médicos recém-formados no exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) trouxe preocupações e apimenta o debate sobre a qualidade da formação médica diante da proliferação de novos cursos no Brasil. Realizado no Estado desde 2005, o teste de 2016 apresenta uma das maiores médias de reprovação: são 56%. Bráulio Luna Filho, diretor do Cremesp e coordenador do exame, diz que, com exceção de 2015, o índice de reprovação ficou acima de 50%.

“Neste período mais da metade dos novos médicos entra no mercado de trabalho sem ter conhecimentos básicos de situações cotidianas do atendimento”, afirma Luna Filho. “É preciso que as escolas médicas promovam melhorias nos métodos de ensino e imprimam mais rigor em seus sistemas de avaliação.” Conselheiro do Cremesp e professor universitário em Rio Preto, o médico Pedro Teixeira Neto critica as universidades que passaram oferecer o curso de medicina sem possuir hospitais de ensino.

“Falta docente qualificado com mestrado, doutorado. Estão abrindo muitas faculdades”, conta Teixeira. Desde 2005 até o ano passado, o Brasil ganhou 126 novos cursos, sendo 72 privados e 54 públicos. No total, o país reúne 272 escolas médicas. Teixeira acredita que a divulgação do resultado não irá gerar temor entre a população. “A ideia, pelo menos, é que não impacte a população. Mas estamos vendo que há problemas na formação, sim, principalmente com o número de denúncias feitas no Conselho”, disse o médico.

Por dia, o Cremesp instaura até oito sindicâncias após denúncias. Segundo a assessoria do órgão, são 3,1 mil reclamações em média por ano. A avaliação, desde 2015, está entre os critérios para programas de residência médica. A Famerp deverá adotar a prova a partir do próximo ano; a USP e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) já adotam a prova para o ingresso na residência. O exame também é utilizado como critério na contratação em secretarias de saúde, como em Ribeirão Preto e Santos, e hospitais como Albert Einstein, HC e Sírio-Libanês, na Capital.

“Essa maior adesão certamente deve-se ao fato de que o exame do Cremesp tem ganhado valor de mercado, sendo atualmente utilizado como critério de seleção tanto para contratações e credenciamentos de profissionais, como também para seleção nos melhores programas de residência médica do Estado”, destacou Luna Filho. No ano passado, 840 egressos de 116 cursos de Medicina de fora de São Paulo participaram da prova.

Correções

O Conselho se compromete enviar as notas individuais a cada um dos participantes. As faculdades receberam um relatório sobre o desempenho dos anos por área de conhecimento, na última quinta-feira. “O Cremesp espera que o compartilhamento destes dados possa contribuir para a melhoria da formação médica. Sabemos que não está perfeito e o aprimoramento do ensino médico é bem-vindo para que a população receba uma medicina de qualidade”, disse Mauro Aranha, presidente do Cremesp. Para os recém-formados que obtiveram uma nota inferior a seis, o Cremesp irá disponibilizar cursos online no site www.cremespeducacao.org.br. Para quem não passou, o curso é gratuito e realizado em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein.

 

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