Diário da Região

19/02/2017 - 00h00min

ESCOLAS EM ESTADO DE GUERRA

Escolas estaduais registram 34 mil conflitos em dois anos

ESCOLAS EM ESTADO DE GUERRA

Johnny Torres Educadores e alunos não conseguem se entender; foram 13,4 mil ocorrências em dois anos em 38 escolas estaduais de Rio Preto
Educadores e alunos não conseguem se entender; foram 13,4 mil ocorrências em dois anos em 38 escolas estaduais de Rio Preto

A guerra está declarada e não há um consenso sobre como restabelecer a paz e, assim, construir um País mais saudável e próspero. O problema não está em nenhum país do Oriente, está nas salas de aula das escolas estaduais de Rio Preto. Isso mesmo, a casa do saber se transformou em campo armado. De um lado os professores e do outro, os alunos. Nos anos de 2015 e 2016, somando todas as ocorrências dentro das 38 escolas estaduais de Rio Preto, foram 34,3 mil casos de conflitos.

Desse total, 13.481, ou 39%, foram entre educadores e estudantes. São mais de 18 casos por dia. Os dados foram obtidos pelo Diário da Região pela Lei de Acesso à Informação. De quem é a culpa? Entre eles, sempre o outro está errado, mas especialistas em educação são unânimes em dizer que o problema vem do sistema, que vai desde os cursos letras e pedagogia, até o desinteresse do Estado, enquanto órgão público municipal, estadual ou federal, de não pensar a educação de forma interativa.

“A formação dos professores é falha, eles não são preparados para trabalhar com crianças e adolescentes e o mundo de um jovem é muito diferente do de um adulto”, afirma o especialista em educação Gentil de Faria. Segundo ele, o método antigo de dar aulas, sem a introdução da tecnologia e à base do grito para chamar a atenção dos alunos, não funciona mais. “Antigamente, o professor era o centro do aprendizado, mas hoje os alunos têm informações de todos os lados e o professor passou a ser um dos interlocutores. Ele não tem mais o monopólio do saber, com isso perdeu a força que já teve no passado”, observa.

Ainda segundo o especialista, o mais importante em educação é a construção do saber do estudante e não o passar os conteúdos. A solução, na opinião dele, está em um diálogo maior entre professores e alunos, escola e as famílias e educadores e o sistema educacional. “Os professores são abandonados em uma sala de aula. Para os da rede estadual é ainda pior, a base deles está lá na praça da República (sede da Secretaria de Estado da Educação).” Faria diz ainda que há o problema de baixos salários, cargas excessivas de trabalho para compor uma renda melhor, desgastes físicos e emocionais e falta de investimento em tecnologias nas escolas.

Afastamentos

Segundo a Apeoesp – o sindicato que representa os professores – os casos de conflitos ficam à sombra da sociedade por existir uma “lei da mordaça”. “Os professores têm medo de falar e serem punidos pelo Estado”, diz a diretora-executiva do sindicato, Maria José Cunha. Se esse temor faz com que prevaleça o silêncio, outros números mostram que os conflitos em sala de aula são um grave problema. A rede estadual de ensino paulista concedeu 136 mil afastamentos médicos em 2015, ano em que a rede contava com 220 docentes. 

A principal causa de afastamento são transtornos mentais e comportamentais, responsáveis por 27,8% dos casos. Esses dados foram revelados em reportagem do jornal O Estado de S Paulo, que também acionou a Lei de Acesso à Informação. Para a socióloga Miriam Abramovay, pesquisadora do tema violência nas escolas, e com passagens pela Unesco, Banco Mundial e Unicef, o primeiro passo para transformar o cenário de conflitos é fazer um diagnóstico com os principais problemas que envolvem as unidades escolares.

Ela sugere que esse trabalho possa ser feito por Diretorias Regionais de Ensino. Miriam conduz no momento um trabalho de cunho científico com essa finalidade. É coordenadora da Área de Juventude e Políticas Públicas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso/Brasil) e junto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) conduz um levantamento em 25 escolas de Porto Alegre e Fortaleza, num total de 50, para fazer o diagnóstico dos principais problemas e, a partir dele, criar um plano de ação.

“A proposta é mudar o clima na escola e pode servir como experiência útil para políticas públicas. Transformar a questão de só o professor ter voz ativa, mudar as regras que promovem os conflitos”, diz. O trabalho foi iniciado em maio de 2016 com um levantamento de dados qualitativos por meio de entrevistas feitas o corpo escolar e também as famílias dos estudantes. O propósito é o de embasar a realidade da escola e seus problemas para o desenvolvimento de estratégias.

Para a especialista, um ponto crucial que precisa ser trabalhado é a relação do professor com o aluno e da escola como um personagem autoritário e centralizador. “O professor precisa ser melhor formado para falar sobre sexualidade, racismo e preconceitos porque os jovens precisam que se fale sobre isso. O professor tem dificuldade de aceitar o jovem. O sistema educacional no País hoje é perverso, a sociedade mudou, mas a escola não mudou nas últimas décadas”, aponta.

 

Arte - Professor - 19022017

Outro lado

Segundo a Secretaria de Estado da Educação, os dados levaram em conta todos os tipos de conflitos, inclusive situações em que o aluno não atende solicitações dos professores, como por exemplo, não portar material didático e causar transtorno nas aulas. “O registro de conflitos real representa 1,9% dos alunos da rede da cidade, que contam com 26 mil alunos e 38 escolas”, informa em nota.

Informa ainda que têm programas para levar as famílias para dentro das escolas, o que diminuiu os conflitos. “A escola é um reflexo da sociedade, por isso a Secretaria sempre pede o envolvimento dos pais para que ajudem na conscientização dos filhos quanto violência, direitos e deveres.” A nota diz ainda que promoverá programas de capacitação específicos, por meio da Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores (EFAP), para garantir a máxima efetividade das ações de mediação nas escolas.

(Colaborou Millena Grigoleti)

Para alunos, aulas são maçantes

Cinco dos cinco alunos que estavam próximos a uma escola pública estadual de Rio Preto e que foram abordados pela reportagem disseram que já tiveram conflitos com professores. Marcos, 15 anos (os nomes são fictícios), teve problemas com os professores de matemática e história, no ano passado. “A professora de matemática implicava comigo. Era só eu levantar para ir na mesa de um colega da sala para ela chamar minha atenção, gritar e mandar eu me sentar”, diz. Certo dia, veio a briga.

“Também gritei com ela”, conta. O estudante também teve problemas com o professor de história. “Quase fui pra cima, mas me acalmei.” Rita, 14, também discutiu com um professor no ano passado. “Ele implicava com tudo, achava que era o dono da razão, e não é não. A gente quebrou o pau muitas vezes, mas ficava só no bate bate-boca.” O problema de Paulo, 15, foi o uma professora de inglês. Segundo o estudante, no ano passado ele estava na sala com mais dois colegas fazendo um trabalho e a educadora disse que ele não estava fazendo nada. 

“Ela me mandou para a diretoria. Falei com o diretor e ele disse para eu ficar sossegado, que ela é meio louca mesmo.” Ana, 14, também acha que é a implicação de um professor de ciência que a levou a entrar em conflito no ano passado. “Eu estava conversando com uma colega do lado, ele chegou e mandou eu entregar o caderno e fez uma advertência.” Celso, 17, dá “graças a Deus” por estar no 1º ano do ensino médio e não ter mais que se relacionar com um professor de matemática. 

“Eu estava usando o celular e ele gritou comigo. Aos berros dizia que tiraria meu celular. Eu fui pra cima e ele voltou a dar aula.” Todos os alunos falaram que os professores são desinteressantes, que colocam matéria na lousa e ficam “horas” só falando, sem interagir com os alunos. “Por que eles não mandam a matéria por e-mail e depois a gente só discute o conteúdo e faz mais atividades, principalmente fora da sala. É maçante passar horas copiando e depois ficar ouvindo”, diz Ana. “O professor tinha que ser mais nosso amigo, não pensar só na matéria. Eu não gosto de praticamente nenhum professor”, afirma Rita.

Espancado em plena aula sobre violência

Professor de sociologia, Adolfo ministrava seminário sobre violência para uma turma do 2º ano do ensino médio matutino na escola Bento Abelaira Gomes, no Jardim Antunes, quando levou um pontapé de um aluno de 16 anos. O episódio trouxe consequências graves. O professor ficou nove meses afastado, tomando tranquilizante e precisou ser submetido ao processo de rizotomia no local da pancada. “Senti muita dores, esse pontapé me deixou com problema na coluna e traumas. Hoje, tenho 60 anos, sinto medo e como vou me defender se isso acontecer novamente?”, questiona.

“Gosto da escola, dos professores e acho que os alunos são bons. Infelizmente, nunca mais vou conseguir dar aula tranquilo, sempre há o receio que o jovem volte”. Tudo começou no seminário sobre violência. O professor foi até a carteira dos alunos entregar o material de estudo e pediu para um deles desligar o celular. O jovem se recusou. O professor, então, resolveu levar o caso à diretoria. Revoltado, o aluno partiu para cima do professor com chutes e socos. “Ele também fez ameaças de morte, isso me deixa com mais medo”. O garoto estava em liberdade assistida e retornou ao regime de internação da Fundação Casa.

 

Arte - Nº de problemas nas escolas - 19022017 Clique na imagem para ampliar

Justiça atende 144 casos

A Justiça Restaurativa, criada em abril de 2016 em Rio Preto atendeu 144 ocorrências no ano passado. O projeto foi criado para evitar que a violência dentro das escolas resulte em processos judiciais. “O foco da nossa atuação não é punir, e sim, restaurar a relação entre aluno e unidade escolar”, diz o juiz da Infância e Juventude, Evandro Pelarin. Depois de se tentar sem sucesso reverter o conflito dentro da própria escola com o apoio do professor mediador, o caso é enviado para a Justiça. 

“Buscamos evitar que aquele caso simples de um coleguinha que xinga o outro ou de uma desavença dentro da sala cresça e ganhe proporções”, diz Pelarin. O juiz se recorda de um caso em que um aluno passou por audiências em função da indisciplina na escola até que se chegou a uma “solução”. “Ele é um ótimo aluno de matemática. Durante três meses ele foi duas vezes por semana no período da tarde ajudar estudantes que estavam com dificuldades na matéria. Viu sua importância, que pode fazer a diferença e mudou seu comportamento”, recorda Pelarin.

No ano passado, a Justiça Restaurativa atendeu 144 ocorrências. Desse total, 76 foram reclamações feitas por escolas contra estudantes, sendo 47 da rede estadual e 29 da rede municipal. Outras 41 ocorrências foram feitas por famílias, com problemas com os filhos, mas seis foram contra escolas. Houve 16 encaminhamentos do Ministério Público para medidas de proteção de crianças e adolescentes e cinco encaminhamentos dos Conselhos Tutelares.

“Os conciliadores, que são mediadores que trabalham no Tribunal de Justiça, buscam além de um acordo respostas para o motivo do problema, para então, chegar a uma solução”, afirma o juiz. As audiências são feitas duas vezes por semana, no Fórum de Rio Preto, e são chamados aluno, representante da escola, pais e o conciliador. “A sociedade toda e os governos deveriam fazer uma campanha sistêmica para a valorização do professor para que os jovens revejam seus conceitos e entendam que a profissão mais importante do nosso País é a de professor. São eles que podem mudar a realidade do Brasil”, conclui Pelarin. 

Ameaças afastam professora

Sônia, professora de matemática, está entre os funcionários afastados por causa da violência nas escolas. Ao ser ameaçada por um aluno e em seguida pela mãe do jovem, a professora viveu noites em claro e teve de tomar calmantes. Na escola Galante Nora, Sônia só permitia ao agressor, com idade entre 15 e 16 anos, ir ao banheiro se apresentasse a tarefa. O aluno se revoltou, cuspiu na carteira e começou a gritar com a professora. “Ele dizia assim: 'aqui ela é professora e lá fora a gente pega ela'. 

Disse também que eu amanheceria com a boca cheia de formiga”, conta a professora. “Não gosto de lembrar porque lembro muito do meu filho, que é criança ainda.” Por alguns dias, ela escondeu o episódio dos seus familiares. Porém, como não dormia e vivia apavorada, ficou insustentável manter o caso em segredo. Depois que Sônia foi até a delegacia e registrou boletim de ocorrência, ela passou a ser ameaçada pela mãe do aluno. “O menino estava de liberdade assistida e ela me disse que, se o filho dela fosse condenado, me encontraria até no inferno”, conta a professora. “Percebi, naquele dia, que o menino era o melhor da família.”

 

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