Diário da Região

03/03/2017 - 00h00min

Arquiteto sem casa

Na falta de um lar, Fabiano desenhou sua casa dos sonhos aos 9 anos

Arquiteto sem casa

Johnny Torres Na falta de um lar, Fabiano Hayasaki desenhou a casa dos sonhos aos 9 anos. Hoje, contratado por famosos, assume a fama de marqueteiro e desestressa no karaokê, no tênis de mesa e na bicicleta
Na falta de um lar, Fabiano Hayasaki desenhou a casa dos sonhos aos 9 anos. Hoje, contratado por famosos, assume a fama de marqueteiro e desestressa no karaokê, no tênis de mesa e na bicicleta

São 1,8 mil projetos para construtoras, magnatas, cantores sertanejos e jogadores de futebol. Mansões, academias e prédios homéricos. Em Rio Preto, atire a primeira pedra quem nunca deparou com uma placa de obra de Fabiano Hayasaki. O rio-pretense que, com o lobby de ser o arquiteto do Neymar, assina projetos em Miami. Uma vida glamourosa hoje. Distante de tudo o que foi a infância. O homem, por trás dos ambientes modernos, fora despejado quando criança. Nesse dia, nasceu o arquiteto.

“Com nove anos desenhei uma casa que queria dar aos meus pais. Não ajudei em nada, mas ali nasceu a vontade de ser alguém. A partir desse dia, desenhava casas, prédios. Algumas copiava e outras mudava”, conta Fabiano. Na falta de um lar - a família não conseguiu pagar aluguel na rua Vital Brasil, na Vila Elvira -, os Hayasaki foram morar de favor no clube Nipo Rio Preto. “A casa, na Vila Elvira, era de fundo, com três cômodos, um quarto para meu pai, minha mãe, eu e os dois irmãos. O banheiro ficava fora da casa. O chão vermelho. Parecia casa de sítio”, recorda.

No clube, os pais pagavam a moradia com o serviço de caseiro. Fabiano conta, emocionado, que sofreu preconceitos. “Companheiros do clube nos evitavam. A maioria virou a cara. Eu sei o que é sofrer na pele o sentir-se invisível”. No clube, desenvolveu todos os seus lados, além do A de arquiteto, B, C, D... Pegou gosto pelo esporte. A primeira paixão é o tênis de mesa. Depois, mountain bike. “Adoro fazer trilha pela nossa região, tem cada lugar bonito”, conta ele, mesmo com restrições, após um acidente em 2008 próximo da cidade de Rinópolis.

“Quebrei a perna em oito partes. Foram três meses de cama, UTI e saí de lá com a promessa que cuidaria de mim, da família.” É fascinado pelo karaokê - terminou em quarto lugar na categoria veterano do Concurso Brasileiro de Canção Japonesa, realizado no ano passado em Itu. Em sua casa mantém um equipamento. “É onde relaxo, deixo o estresse ir embora. Quem me vê cantando, não acredita. Sou o campeão do interior paulista”, se gaba. Em uma dessas batalhas, na cidade de Fernandópolis, conheceu a esposa, Tania, natural de Urânia, com quem está casado desde 30 de agosto de 1997 e tem duas filhas - Bheatriz, 19 anos, e Isabela, 14.

Fama de marqueteiro

Fabiano não perde um flash. Nas redes sociais, ostenta selfies com jogadores badalados, campeões na Europa e com a camisa da Seleção da Brasileira. Exibe sua lista de clientes composta, entre outros, por Neymar, Dudu, Zé Roberto, Rivaldo, Denilson e Edmílson, os três últimos campeões do mundo com o Brasil em 2002, além dos menos badalados Leandro Castán e Doni, ex-Corinthians, e Fabiano, ex-São Paulo e Santos. “São os mais justos para pagar. Tem empresário em Rio Preto que fiz seis projetos, não me pagou e tem jatinho próprio. 

Já quis dar um desconto para o Leandro Castán e ele não aceitou. Por outro lado, Rio Preto tem empresários que comem abóbora e arrotam caviar. É a cidade do nariz empinado, como dizem. Se falo que o preço desse telefone é R$ 100, o cara quer pagar R$ 20.” Ao chegar em seu escritório, a operação marqueteira é deflagrada na recepção. Enquanto o arquiteto participava de uma reunião por videoconferência, a secretária aperta o play. No telão, roda o vídeo com depoimentos dos clientes mais ilustres. Fora, troféus e homenagens espalhados no cômodo.

 

Arte - Fabiano Hayasaki - 03032017

Proposital ou não, o vídeo tem efeito. “Eu dei um salto grande quando comecei a estudar marketing. A Cida Caran me chama assim. Todos precisam vender, você precisa vender sua matéria, o jornal precisará vender o jornal. Fui estudar técnicas de marketing, não sou melhor que ninguém.” O ex-são-paulino Edmílson, diz ele, é um irmão. Foi, inclusive, quem o levou até Neymar e para a maioria dos jogadores. E de forma acidental. Fabiano conta que, por problemas no carro de Edmílson, precisou levá-lo até uma reunião com o Neymar em Santos. “Iria apenas deixar o Edmílson e seguir para cobrar um cliente na Praia Grande. Temos 365 dias no ano e justamente naquele dia teve um acidente que fechou a saída de Santos. 

O próprio Edmílson me apresentou como seu arquiteto. Não pedi isso, mas como estava ali logo comecei a mostrar fotos dos meus projetos. O pai do Neymar ficou admirado, lamentou não ter me conhecido antes para ter feito o Instituto, porém, desenvolvi quatro projetos para o Neymar”. Quando fala de Neymar, Fabiano faz uma pausa, um desabafo. “Teve uma arquiteta de Rio Preto que, por inveja, disse que no máximo teria feito um banheirinho na casa do Neymar. Mostro a foto. Essa classe é desunida. Os mais novos gostam de mim, dizem que sou inspiração. Tenho muito respeito pelos arquitetos mais velhos, com quem trabalhei. E a meia geração tem muita inveja”.

No ano passado, Fabiano foi eleito o Arquiteto Destaque pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil. A cereja no bolo para saciar o ego. Fica até embasbacado ao frisar que a cerimônia foi na Câmara de Rio Preto. “É um dos dias mais importantes da minha vida, não tem preço. Até a arquiteta que me criticou, que disse que fiz só um banheiro do Neymar, veio me parabenizar.” Fabiano acredita que sua infância humilde o credencia para trabalhar com os demais jogadores de futebol, a maioria de família pobre, o que é passado também. Seu primeiro cliente, Marcelo Bordon, ex-zagueiro do São Paulo e do Stuttgart, da Alemanha, investiu R$ 8 milhões em uma academia em Ribeirão Preto.

Para fisgar os boleiros, o arquiteto se intitula um psicólogo e conversa por horas com jogadores e companheiras. “Preciso saber o que cada um faz no horário de folga, detalhes ainda mais íntimos. Esse é o momento mágico, parece até uma terapia de casal. Tenho que projetar a casa de acordo com intimidade dos clientes”, conta o arquiteto, que guarda segredos de cada assunto. “Eles confiam em mim, porque o que ouço guardo com sete chaves. Um psicólogo jamais conta o que ouve dos pacientes.” Essa parte do trabalho não pode ter erros. Jogadores são complexos, têm gostos simples, porém, não resistem a uma ostentação. Fabiano conta que são poucos, mas existem clientes desapegados de privacidade. “Por exemplo, se não quer ser visto pelo vizinho durante banho na piscina, projeto uma fachada de vidro. É raro, só que tem quem queira se mostrar.”

Lições

Fabiano diz que trabalhou para 30 arquitetos em Rio Preto, antes de ter a própria equipe. A trajetória começou aos 12 anos, como office boy em um escritório de engenharia. Aos 13, fez o colegial e junto o curso técnico em edificações no Philadelpho Gouvêa Netto. “Gostava muito de desenhar plantas, era o primeiro na sala de aula e fui trabalhar no meu primeiro escritório de arquitetura, do Murilo Seixas.” Fabiano desenhava, como freelancer, para outros arquitetos. Leonardo Romer, um dos seus patrões, fez um desafio, pediu desconto na faculdade Dom Pedro, e Fabiano fez sua matrícula. “Ganhava R$ 400 e o curso de arquitetura custava R$ 600 por mês.”

No segundo ano, Fabiano desistiria do curso, por atrasar mensalidades, e anunciou ao sogro que casaria com Tania e mudaria para o Japão. “Conversei com meu sogro, prometi a ele que seria um decasségui, porque não conseguiria sustentar uma família. Ele quis fazer a festa do casamento, uma cerimônia simples no sítio da família em Urânia, e prometeu me ajudar a pagar o curso.” A sensação de segurança durou pouco. O casamento agendado para o dia 30 de agosto - data, inclusive, de aniversário - fora tragicamente cancelado. O sogro havia morrido na sexta-feira, vítima de câncer.

Descrente, Fabiano recorda que permeou por todos os sentimentos, até o extremo de desejar a própria morte. “Na rodovia, entre rodoviária e o sítio, chorava muito. Não entendia porque uma vida inteira de desgraça e, agora, que alguém me ajudaria, ia embora. Nesse dia, olhando o horizonte, uma voz me consolou, era o homem lá de cima, disse que era para ser assim e que eu devo valorizar mais a minha vida”, conta. “Parei de chorar, ganhei tanta força e passei a acreditar em Deus e na metafísica. Tive motivos para ser depressivo, poderia ter usado drogas e nunca coloquei um cigarro de maconha na minha boca.” Fabiano foi ganhar a vida arquitetando sonhos.

Com Açúcar - O arquiteto tem uma carteira milionária de clientes e prêmios importantes, como o Casa Cor São Paulo como o Melhor Ambiente. Tem como referências Oscar Niemeyer, o japonês Arata Isozaki, o espanhol Santiago Calatrava e o inglês Norman Foster. “São ultramodernistas.”

Com Pimenta - Fabiano Hayasaki não demonstra pudor ao falar da sua fama de arquiteto/marqueteiro. Pelo contrário. “Se não fosse arquiteto, seria marqueteiro”, conta. “Dei um salto muito grande (profissionalmente) quando comecei a estudar esse assunto. É minha leitura de cabeceira.” Na hora de fechar com os clientes, ele apresenta o projeto em vídeos de forma tridimensional e com canção de fundo, escolhida de acordo com sentimentalismo do contratante. Diz ele que já levou Neymar às lágrimas. 

 

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

Não lembro a minha senha!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso