Diário da Região

24/02/2017 - 00h00min

Senhor anfitrião

O que faz o defensor público Tanone fora do dia a dia profissional

Senhor anfitrião

Arquivo Pessoal Tanone e as filhas, Helena, dois anos, e Alice, seis; suas paixões
Tanone e as filhas, Helena, dois anos, e Alice, seis; suas paixões

Passar um tempo à mesa com os amigos e familiares é o grande prazer da vida do advogado Júlio César Tanone, 35 anos, que atua na Defensoria Pública de Rio Preto há quase dez anos. Se durante o expediente, ele é anfitrião de pessoas com demandas essenciais como direito à saúde, educação ou moradia, quando está de folga aproveita o tempo para receber pessoas em sua casa para celebrar a vida, trocar experiências e fortalecer as relações. O ritual se repete pelo menos uma vez por semana, senão mais. A mesa de dez lugares da casa está sempre cheia, para uma picanha se os tempos forem de bonança, para uma pipoca se a grana estiver curta e para um café, a qualquer hora.

Tanone não sabe cozinhar, por mais que adore ter a casa cheia. Os quitutes ficam por conta da mulher, Lívia, com quem é casado desde os 24 anos. Mas ele diz que tem se esforçado, pelo menos para aprender a fazer churrasco. Com o apoio de um amigo já tem melhorado os cortes e até ganhado alguns elogios sobre a carne que prepara. “Gosto muito desse tempo de mesa, é um lazer. Acredito que aprofunda as relações, que nos momentos de adversidades são essas pessoas com quem vou poder contar, com quem eu gastei tempo”, afirma.

Por trabalhar entre oito e dez horas por dia, viajar todas as sextas-feiras também a trabalho, tem priorizado os momentos com a família, com muita gestão de tempo. Uma vez por semana passa um período inteiro com as filhas e a mulher, sem qualquer contato com celular. Ele transfere todos os compromissos de trabalho para outros dias e se dedica exclusivamente. “Minhas meninas estão numa idade maravilhosa, a gente fica à toa, sem programação. É o tempo de pijama”, conta.

Hoje, o defensor público vive numa casa confortável, que ele mesmo construiu. Da relação com Lívia, que conhece desde que era pré-adolescente, nasceram Alice, 6 anos, e Helena, 2. Os dois se conheceram em Penápolis, de onde são, voltaram a se encontrar depois de concluída a faculdade e se casaram no período em que ele se preparava para o concurso da Defensoria Pública, instituição pública que tem como missão oferecer aos cidadãos orientação jurídica gratuita e a promoção dos direitos humanos.

Chegar aonde chegou exigiu muito empenho. Filho de feirantes, estudante de escola pública, Tanone viu na faculdade de direito a oportunidade de estudar e viabilizar uma carreira profissional. Optou pela faculdade de direito de Araçatuba, em instituição que já tinha 50 anos de história. Ao se formar, em 2004, manteve a rotina pesada de estudos já focado em atuar na área social. Foi para São Paulo se aperfeiçoar e estudar para concursos. “Eu estudava dez horas por dia e no planejamento o dinheiro daria apenas para um ano.”

 

Arte - Júlio César Tanone - 24022017

A dedicação intensa deu resultados. Depois de dois concursos e empregos para preencher o requisito de tempo de profissão foi um dos aprovados no concurso que teve 13 mil inscrições em 2007. Com a boa colocação, logo veio para Rio Preto e neste ano completa dez anos de casa. Tanone se orgulha de ajudar a construir a instituição. “A Defensoria Pública recebe as pessoas do jeito que elas vêm, é uma instituição séria, relevante, desapegada dos paradigmas que a Justiça consolidou. Estamos num papel contramajoritário”, afirma.

Com o passar do tempo, Tanone deixou de ter “crises” por viver em dois mundos tão distintos, o dos moradores do Dahma e o de quem trabalha diretamente com os pobres. Essa disparidade de realidades, da possibilidade de dar segurança e conforto à família e a dificuldade em atender direitos básicos do cidadão foi superada à base de muita reflexão sobre a própria trajetória. “O Brasil é um país democrático em que se acessa cargos de elite por meio de concursos públicos. Sendo um estudante de escola pública, de pequena cidade, vejo que é possível vencer em termos profissionais e alcançar seus objetivos”, afirma.

E é à influência das pessoas à sua volta, sejam familiares, colegas de trabalho e amigos, que Tanone forja sua própria existência, com base também no padrão cristão. Ele faz parte de comunidade cristã de tradição reformada, a Vitral, de origem presbiteriana. “Busco referências de pessoas de esquerda, de direita e que professam a mesma fé. Essas referências me deram motivação para seguir em frente e hoje poder viver essa dicotomia sem entrar em crise, sob a perspectiva de que os assistidos merecem um profissional bem preparado, com condições de agir”, afirma.

Tanone também gosta muito de ler. A Bíblia é seu livro de cabeceira, seu norte. Autores cristãos também fazem parte da sua lista. Mas nunca sem antes conhecer sua biografia. Só ganha sua atenção o autor cuja conduta de vida estiver de acordo com o que coloca no papel. Hoje, está lendo 1984, de George Orwell, mas brinca que não é por conta da modinha e sim porque ganhou de aniversário no fim do ano passado. “O Trump ainda não era presidente e os ventos não eram tão favoráveis”, afirma.

Esquerda ou direita?

Mas é com Fernando Pessoa com quem ele se identifica. Talvez tenha a ver com os pseudônimos do autor e os vários lados que Tanone sugere numa observação e conversa de cerca de uma hora. Em alguns momentos, pende para a esquerda, em outros esbarra na direita, mas se define com um perfil de liberal. “Sou uma espécie de alguém de direita que enxerga na esquerda valores que gostaria de adotar, como a utopia da igualdade.”

Tanone conta que tem muita dificuldade com gente militante, qualquer que seja seu discurso. Ele se coloca entre os engajados, aqueles que ouvem primeiro e depois tomam uma posição a partir de sua realidade, trajetória e experiência.

A partir dos discursos de polarização destilados nas redes sociais ele adotou duas posturas. A primeira, quando o assunto é polêmico, é agora convidar para que a discussão ocorra olho no olho, à base de um café. “Só costumo entrar em discussões com pessoas que tenham compromisso comigo, de amizade, profissional. Do contrário fica muito próximo do militante, que não ouve nada e tem só sua convicção.”

E quando o assunto é pessoal ele adotou uma estratégia interessante para manter a privacidade. Separou o que é público, o que é privado e o que é íntimo. “O que é público vai para a rede social, o privado pode ir para os amigos e o íntimo nunca irá”, afirma.

Conservadorismo

Para Tanone, o movimento conservador que toma conta da história atual nada mais é do que um movimento pendular, que vai ceder em algum momento quando mudam os atores e as circunstâncias, como já houve em outras ocasiões, já que o mundo é bastante dinâmico. “Quem não tem raiz e suas convicções bem solidificadas sempre vai sendo levado pelo vento que bater um pouco mais forte.”

Sobre as drogas, Tanone é taxativo em dizer que é contra a descriminalização. Para ele, o País não conseguiria nenhum resultado positivo, até porque já não consegue com uma proibição direta. Sobre a política de aprisionamento, também diz que se mostrou catastrófica, que o ideal seria um outro tipo de acerto com a Justiça e a preparação para seu retorno à sociedade. “O estado tem feito essa opção, investido em penitenciárias enquanto deveria estar investindo da escola à escola de formação técnica dessas pessoas”, disse.

Quanto ao aborto, Tanone diz que é contrário em qualquer hipótese, salvo nas previstas pelo código penal, como para garantir a sobrevivência da mãe e no caso de estupro. E questiona o argumento das mulheres que defendem a liberdade plena da mãe de decidir pelo segmento da vida. “A mesma autonomia que a mulher pode ter, essa criança precisa ter o direito de ter também”, conclui.

Ainda neste contexto, ele diz que não é machista e tampouco feminista, já que tem dificuldade em aceitar o movimento atual. Perguntado sobre como ensina as filhas a lidar com o tema, diz que pretende transmitir valores relacionados à integridade, respeito às diferenças, tolerância e que para que não abram mão de suas convicções. “Quero que elas sejam bem resolvidas”, afirmou. O que não deixa de ter um toque de feminismo.

Com açúcar - Tanone toca piano, faz exercícios físicos com regularidade para aplacar a dor nas costas e não abre mão de tomar um café ou almoçar com os amigos frequentemente

Com pimenta - O defensor público diz que seu perfil é de mais liberal, mas causa certa confusão ao concordar com alguns conceitos das ideologias da esquerda e da direita

 

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