Diário da Região

22/01/2017 - 00h00min

LIGAÇÕES PERIGOSAS

Conectados, presos da região mantêm famílias alertas a tensão nos presídios

LIGAÇÕES PERIGOSAS

Marco Antonio dos Santos Detentos do CPP são liberados na manhã desta quarta-feira
Detentos do CPP são liberados na manhã desta quarta-feira

As conversas por celular entre detentos do sistema prisional de diferentes unidades do noroeste e oeste Paulista com seus familiares de Rio Preto se intensificaram desde as rebeliões ocorridas nos presídios em Manaus (Amazonas), Boa Vista (Roraima) e na região de Natal (Rio Grande do Norte), neste ano. O Diário entrevistou mães, mulheres e irmãs de detentos de Rio Preto, Mirandópolis, Araçatuba, Flórida Paulista e Pracinha. Juntas, as unidades prisionais das cinco cidades têm capacidade máxima para abrigar 7.028 detentos, mas estão com 12.213. 

São 5.185 detentos a mais, ou 73% acima do tolerável. A superlotação é uma das razões apontadas para um início de uma rebelião nos presídios paulistas. Nem todas as entrevistadas têm contato direto com seus parentes por celular, mas elas revelam o medo que se instalou dentro das unidades e também nas suas casas. “Minha amiga me ligou ontem (terça-feira, dia 17) e disse para eu ver o que estava passando no noticiário. Depois que assisti, liguei para o meu filho e ele me retornou mais tarde”, diz Cristina, 41 anos, (os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados).

Celulares dentro de presídios não são novidade. Na madrugada de quarta-feira, dia 18, cinco aparelhos foram apreendidos na porta do Centro de Progressão Penitenciária de Rio Preto. Um dia depois, dois detentos fugiram ao serem flagrados com 20 celulares. Eles tinham permissão para trabalhar na horta, que fica na parte externa da unidade, e estavam com os aparelhos escondido em carriolas. Em 2016, foram recolhidos 210 celulares nas unidades prisionais de Rio Preto, sendo 145 dentro das celas e 65 fora, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). 

Uma operação para investigar a entrada e uso de celulares por detentos de Rio Preto foi deflagrada em junho do ano e é conduzida pelo promotor de Justiça José Márcio Rossetto Leite. Ele teve acesso a cópias de vídeos que teriam sido gravados por presos no interior do CPP. Mas os aparelhos não são usados apenas por detentos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) para dar ordens relacionadas ao tráfico de drogas, assassinatos e outros crimes. Presos, que garantem para seus familiares não fazerem parte da facção criminosa, também têm celulares para manter contato com a família.

“Meus filhos são tudo na minha vida, nada mais importa. Preciso saber como eles estão”, diz Cristina, que tem dois filhos na prisão. Ela conta que normalmente são eles que ligam “para dizer que está tudo bem”. Os telefonemas são apenas à noite e não são diários. “Quando eu preciso falar com eles, ligo e espero retornarem quando puderem. O celular fica no vibra para não chamar a atenção dos agentes penitenciários. A gente sabe que se for encontrado (o aparelho), a situação vai ficar feia para eles”, diz.

Em função desse temor, as pessoas ouvidas pelo Diário se negaram a ligar para os familiares para que a reportagem conversasse com detentos e soubesse como está o clima dentro das unidades prisionais. “Ele não fala muita coisa sobre o assunto, não (rebeliões). Só no domingo passado (dia 15), durante a visita, que eu perguntei sobre como está lá dentro e ele respondeu que está tranquilo, mas que eles (detentos) têm medo. É que se o PCC mandar, vão ter de virar (começar rebeliões)”, diz Catarina, 24, que semanalmente visita o companheiro.

Ela afirma que ele não faz parte da facção e que só usa o celular para falar com ela e com o filho de três anos. “Só ele que liga, eu não posso ligar. Ele me pergunta como estão as coisas em casa, no meu trabalho e conversa com o nosso filho. Meu marido fala que está viajando a trabalho, que logo volta e que vai trazer um monte de brinquedos”, conta. Catarina diz que não leva o filho à unidade prisional para visitar o pai. “As ligações são também para o meu marido manter o contato com o nosso filho”, afirma. “Antes das rebeliões, ele ligava uma vez, agora são duas ou três por semana, sempre à noite”, prossegue.

Clique AQUI para ver o mapa do Raio-X dos presídios da região:

 

Arte - microcelular dos presos - 22012017 Clique na imagem para amplair

Chance é mínima, diz especialista

Para o especialista em segurança pública José Vicente Silva Filho, a possibilidade de rebeliões em unidades prisionais do Estado de São Paulo é mínima. Ele aponta que a situação é diferente do que ocorre nos presídios do Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte e que a polícia é mais bem preparada e equipada para um possível confronto. “A polícia de São Paulo está muito atenta e o serviço de inteligência é atuante. Tanto que 35 advogados envolvidos em atividades criminosas e que serviam aos chefes do PCC foram presos. Isso é incomum”, diz.

O especialista se refere à operação Ethos, desencadeada pela Polícia Civil em parceria com o Ministério Público no dia 22 de novembro de 2016, em várias regiões do Estado. Entre os advogados, foram detidos profissionais que atuavam em Mirandópolis, Birigui, Lins e Presidente Prudente. Quanto a uma possível tentativa de o PCC querer medir forças com o governo, Silva Filho diz que existe a chance de o comando “querer impor grau de intimidação, mas ela é muito pequena”.

“Temos 120 mil policiais no Estado, eles têm armamento pesado e estão preparados, os presos daqui não ficam soltos como acontece nos presídios onde ocorrem as rebeliões. Uma ação nos presídios do Estado seria muito dura contra os presos”. O especialista diz ainda que questões levantadas por entrevistados do Diário, como a demora do Judiciário nas ações desencadear motins, “não colam”. “A Justiça aqui é como no restante do País, essa reclamação é eterna, mas ninguém cumpre pena acima de sua sentença no Estado de São Paulo”.

Rebelião é assunto proibido por telefone

Segundo as famílias entrevistadas pelo Diário, os detentos não costumam falar sobre rebeliões durante as conversas no celular. “Eles têm medo de a ligação ser interceptada e a polícia achar que eles fazem parte do PCC”, diz Maria, 35. Ela estava ao lado de duas amigas que também falam com seus maridos por celular, mas se negaram a dar entrevista, mesmo sem serem identificadas. Nos telefonemas, segundo Maria, o marido pergunta como ela e a família estão e também pede produtos de higiene pessoal, comidas e cigarro.

Segundo informações da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), todas as unidades prisionais do Estado de São Paulo estão equipadas com aparelhos de raio-X de menor ou maior porte, além de detectores de metal de alta sensibilidade para ajudar a coibir a entrada de equipamentos e drogas. Mas o governo agora tem que enfrentar um novo problema. Do tamanho de uma tampa de caneta, a nova dor de cabeça é barrar os microcelulares. Fabricados na China, trazidos por meio de contrabando para o Brasil, os aparelhos custam em média R$ 300.

Os aparelhos foram adotados pelos presidiários por não serem captados pelos detectores de metal. “Como tem poucos componentes de metal, ele não é detectado pelos equipamentos. O celular entra nas celas durante as visitas íntimas. As companheiras dos presos trazem escondidos nos corpos”, disse ao Diário um agente, que não quis se identificar. Além disso, como nem todas as unidades prisionais contam com bloqueadores, os presos podem facilmente se comunicar com o mundo exterior. Como é o caso de Rio Preto. 

Tensão

Apesar de a situação nas unidades prisionais do Estado de São Paulo não ter qualquer relação com as do Norte e Nordeste, onde ocorrem as rebeliões, familiares de presos temem que uma ordem superior do crime organizado seja dada para “testar” o governo. O clima, segundo os detentos contam para as famílias, é tranquilo e calmo nas unidades, mas a tensão também está presente. “Eu estou apavorada e meu marido não quer mostrar, mas está com medo. É que se vier uma ordem do PCC tem de entrar na rebelião, do contrário, é morto. E se entrar, pode ser morto pela polícia. Não tenho mais paz, acordo de madrugada suando frio e com o coração disparado”, relata Vanessa, 24. O contato com o marido é feito apenas nas visitas semanais. Ela afirma que eles não têm celular para conversar. 

“Nós não mantemos contato a não ser nas visitas. Fico o tempo todo preocupada se vai ter rebelião aqui no Interior.” Segundo Ana, 51, os motivos para uma rebelião em unidades do Estado de São Paulo estariam relacionados à demora da Justiça para marcar audiências, à superlotação e à alimentação. “Eles vivem que nem bicho amontoados nas celas. A comida parece lavagem para engordar porco. Se o governo gasta tanto para manter os presos e lá é tão ruim, para onde vai todo esse dinheiro?” Ana diz ainda que o marido está detido há um ano e dois meses e só agora foi marcada a primeira audiência. “Ele errou, mas é uma pessoa do bem, só que se vier a ordem vai ter que entrar na rebelião.” 

Célia, 58, diz que a preocupação com motins é grande. Ela tem um irmão que está preso. “Não tem como ficar tranquila. O PCC pode mandar virar (rebelião) a qualquer momento em uma demonstração de força contra o governo”, diz. A mulher diz que teve um primo que fazia parte da organização criminosa e foi morto dentro de um presídio. “Jogaram ele lá de cima (do presídio), ele caiu e morreu. A gente acha que foi a polícia que matou porque ele era do PCC”. “Meu irmão não faz parte de nenhuma organização criminosa, mas se acontecer rebeliões, ele vai ter que entrar. Essa situação deixa a gente muito nervosa.”

(Colaborou Marco Antonio dos Santos)

 

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