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Egocêntrico
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
O narcisista pode minar relacionamentos e afastar amigos
 
  Lézio Jr.
 
 

Você costuma descrever o seu dia a dia no Facebook? Tem divulgado no Twitter suas conquistas e bens? Tem o hábito de falar abertamente sobre seus relacionamentos “perfeitos” em público? Acha que o mundo gira em torno de você? Se sim, você pode ser diagnosticado como o que se conhece comumente por narcisismo. Você pode até pertencer à variedade mais branda, mais normal, mas não menos prejudicada pelo próprio comportamento.

Atualmente, pergunta-se com frequência se narcisistas são bons ou ruins para a sociedade. Existem respostas para todos os gostos, embora haja certo acordo de que pessoas com egos inflados podem representar certo perigo. Egocêntricos costumam relacionar-se de forma superficial e costumam se achar superiores. Gostam de se expor nas rodas de amigos, não admitem que outro chame mais atenção e esperam sempre que alguém narre suas qualidades.

Os narcisistas ocupam parte de sua energia angariando elogios, desejando a aprovação e a admiração. Muitas vezes, não têm noção sobre como as situações parecem da perspectiva dos outros. Sensíveis ao serem ignorados, os narcisistas gostam de exibir suas conquistas e de falar sobre seu corpo ou beleza. A geração da internet é ainda mais narcisista e adora exibir sua vida sempre em perfeita ordem, mostrar seus bens e conquistas materiais na rede.

Mas será que os narcisistas são felizes? De acordo com a psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lúcia Madureira, o narcisista precisa ser valorizado para se sentir admirado. O problema é que a convicção é instantânea. “Ele precisa repetir infinitamente o ritual para poder acreditar novamente. É mais ou menos como o efeito do crack, por ser tão breve, a pessoa precisa consumir a droga o tempo todo para obter a sensação de gratificação.”

Existem diferentes causas para explicar a necessidade de autoafirmação do narcisista. Segundo Mara, uma das origens está ligada ao convencimento. “Ele pode acreditar que convence os outros. É quase a mesma coisa quando você aprende que tem de se valorizar e ter pensamento positivo. Então, a maioria das pessoas pensa que isso tem a ver com enaltecer a si próprio e afirmar que é bom. Ele imagina que afirmar repetidas vezes acabará convencendo as outras pessoas.”

Outra explicação é porque não se considera bom o bastante como pessoa. “Ele precisa acrescentar mais itens no rol de características para elevar sua reputação”, afirma Mara. Quando exibe suas posses (diferente de compartilhar com pessoas íntimas ou interessadas), o narcisista envia uma mensagem. “Você está vendo o meu poder? Eu sou realmente bom, não sou?”, afirma Mara.

Segundo a psicóloga, se alguém se opõe ao narcisista, ele trata de imediatamente encontrar justificativas racionais para a oposição. “Atribui a discordância à inveja, incapacidade do outro, entre outros, para retirar de si o medo de não ser tão bom quanto julga ideal.” Alexandre Caprio, psicólogo cognitivo comportamental, afirma que a rebeldia é comum.

“Ao se sentir frustrado, o narcisista rotula as pessoas como incapazes de compreender sua verdadeira importância.Inferioriza e desclassifica as realizações alheias, assim como a forma como conduzem suas vidas. Pretende, com isso, aumentar a desigualdade que pensa haver entre ela e os demais.”

Aceitação

Aceitar-se do jeito que se é é positivo. Pessoas bem resolvidas não precisam de exposição e da necessidade de aprovação. “Tem um ótimo funcionamento da personalidade, sem traços patológicos de narcisismo e com boa autoestima. Elas estão seguras sobre quem são, do que podem ou não e convivem bem com isso”, afirma Mara.

Segundo a psicóloga, pessoas saudáveis nesse sentido se ocupam em buscar meios de aprimoramento. “Tentam ser melhores por meio de ações consistentes e significativas, que vão além de seus próprios umbigos. As preocupações saudáveis têm propósitos mais amplos, não se limitam à satisfação do próprio ego”.

Ajude um narcisista

O primeiro passo para conviver com um narcisista e ajudá-lo com informação. A família deve levar sua suspeita até um profissional para que seja realizado o devido diagnóstico. O psicólogo cognitivo comportamental Alexandre Caprio afirma que o narcisista pode oferecer resistência a um tratamento. “Os psicólogos desenvolvem a quebra dessa resistência ao longo das sessões por meio da conquista da confiança e da transmissão de informações.” Como se trata de um transtorno que se desenvolve desde a infância, esse pode ser um trabalho metódico.

O segundo passo é dar mecanismos para que o narcisista identifique suas crenças e estratégias diárias. “Para isso, a terapia já deve estar em andamento”, afirma Caprio. A família, de acordo com o especialista, é um agente importante nesta fase. “Ela deve estar preparada para ajudar e não criticar na modificação do comportamento. Auxiliá-lo a registrar seus pensamentos e emoções quando deseja demonstrar superioridade ajuda a identificar os mecanismos automáticos que estão por trás de sua postura.”

Quando o paciente compreende que a mudança de seu comportamento traz benefícios maiores do que os que eram obtidos com a autoafirmação, o processo de melhora pode acelerar. “Os ganhos pessoais (relacionar-se sem exaurir o cônjuge), sociais e profissionais (tornar-se desejável em novos grupos) diminuem o comportamento antigo por oferecer diferencial prático que levam o sujeito a um crescimento real”, afirma Caprio.

De acordo com a psicoterapia corporal e sistêmica Renata Terruggi, o narcisista em busca de equilíbrio deve aprofundar seus conhecimentos a respeito de sua história pessoal por meio do autoconhecimento. Um tratamento psicoterapêutico pode auxiliar a fortalecer a autoimagem. “A descoberta advinda de um processo criativo terapêutico favorece a sustentação de transformações e de seus significados existenciais. É um caminho para a reconexão humana necessária à evolução, da esfera íntima à profissional.”

 
 
 





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