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domingo, 1 de agosto de 2010
Literatura e quadrinhos caminham cada vez mais juntos
 
  Divulgação
 
  ‘Cachalote’, de Daniel Galera e Rafael Coutinho (foto), era um dos lançamentos de 2010 mais aguardados em HQ no Brasil

O texto de jovens escritores aliado a traços de peso do País. A intersecção entre quadrinhos e literatura deixa de ser coisa de “gringo” e passa a ganhar força no Brasil. A publicação de exemplares do gênero já é realidade e mais de uma dezena de projetos está no forno para ser servido até o fim do ano. A maior parte das iniciativas começou a tomar forma em 2008. O resultado já é visível no caso de “Cachalote”, lançado em junho deste ano. O livro é do escritor Daniel Galera e do designer e quadrinista Rafael Coutinho.

Foram dois anos e meio de produção em parceria. Coutinho conta que o projeto surgiu em um momento em que ele e Galera buscavam trabalhos novos e instigantes. “O projeto todo foi assinado junto. Foi união de ideias minhas e dele, que viraram histórias dos dois, pois alteramos muita coisa.” “Cachalote” conta seis histórias diferentes.

O livro mostra personagens diante de acontecimentos drásticos, misteriosos, relacionamentos ameaçados e a tentativa de preservar o afeto. As ideias dos autores se transformaram em roteiro-guia e mais tarde deram origem aos primeios esboços acerca da estética das histórias e características dos personagens. “Trocamos muitas referências visuais, de música, filmes, literatura, quadrinhos para entender quais eram as forças envolvidas por trás da história.”

Dentre os desafios de um projeto como “Cachalote” está o de ser persistente para superar contratempos de um projeto extenso. “O resultado não vem rápido. As pessoas não sabem o que você está fazendo e isso não pode te incomodar. Você fica à margem do reconhecimento imediato.” Para Coutinho, que é filho do quadrinista Laerte, a aproximação entre literatura e quadrinhos não é algo que exige muito esforço. “Literatura e quadrinhos são como primos que se veem regularmente nas férias.

A proximidade das duas linguagens é muito grande. Os dois estão tentando contar uma história. A literatura bebe muito nas imagens para insinuar um ambiente e o quadrinho dá conta e abre novas portas e saídas poéticas para que essa imagem continue insinuando sem matar a participação do leitor.” O livro de Coutinho foi publicado pela editora Companhia das Letras, que deverá lançar outras obras do gênero. O projeto envolve também a RT/Features, empresa produtora de entretenimento.

Joca Terron, escritor e designer gráfico que trabalha para a RT nesses projetos, explica que há outras 12 parcerias entre jovens escritores e quadrinistas em andamento. A intenção é realmente fomentar essa obras, já que não há uma tradição disso no Brasil. “O que vemos são tirinhas, charges de jornal, quase tudo relacionado a humor.”

Terron, atualmente empenhando em um livro que vai unir literatura e quadrinho, conta que dentre as iniciativas mais adiantadas estão “O nome da cidade”, de Emílio Fraia e desenhos de DW, “V.I.S.H.N.U.”, obra escrita por Ronaldo Bressane e Eric Acher e desenhos de Fabio Cobiaco, e “A Máquina de Goldberg”, da escritora Vanessa Barbara ilustrado por Fido Nesti.

No caso de “A Máquina de Goldberg”, Nesti explica que os trabalhos começaram no final do ano passado. Cerca de um terço do livro já está pronto. A obra conta a história de Getúlio, um gordinho punk que se vê obrigado a participar de um acampamento de férias, após tomar uma advertência por ser antissocial na escola. Lá, ele conhece um velhinho chamado Leopoldo. Os dois personagens, solitários, em extremos da vida, vão aos poucos ficando amigos. “A Vanessa me envia o texto, eu dou algumas opiniões e passo para os quadrinhos.”

Em 2006, Nesti publicou “Os Lusíadas em Quadrinhos”. “Não alterei nenhuma vírgula do texto de Camões, mas tive grande liberdade para criar minhas próprias interpretações.” As semelhanças e diferenças entre histórias em quadrinhos e literatura é um tema polêmico que já foi bastante discutido entre especialistas de ambas as áreas. De acordo com o jornalista, professor e pesquisador de HQs Paulo Ramos, há algum tempo os pesquisadores de quadrinhos brasileiros têm convergido para a ideia de que são linguagens diferentes e autônomas, mas com inegáveis diálogos entre elas.

Casos como a obra “90 Livros Clássicos Para Apressadinhos” (Editora Galera) são exemplos de como literatura, cinema ou outras obras podem render material para a produção de resultados criativos e divertidos. O livro, de Henrik Lange, conta histórias como “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez , e “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes, em apenas quatro quadros. Mas há também produções como o “Logicomix” (Martins Fontes), de Doxiads e Christos H. Papadimitriou, que traz a biografia de Bertrand Russel (filósofo e matemático), inteiramente ilustrada.

Além da literatura, os quadrinhos dialogam com outras formas de arte, o que pode enriquecer a produção dos diferentes ramos. “Em relação ao teatro, acredito que os quadrinhos mais beberam dessa fonte do que ofereceram recursos de linguagem, embora tenhamos casos de adaptações para os palcos que se valeram de onomatopeias, balões, desenhos e outros elementos dos quadrinhos. Com relação ao cinema, em particular nas primeiras décadas do século 20, os quadrinhos já traziam muitos dos enquadramentos e recursos verbais que seriam vistos no cinema somente anos depois.”

 
 
 



  Guilherme Baffi
 
  ‘O espaço para esse segmento melhorou muito’, anima-se Orlandeli, autor de ‘(Sic)’

Orlandeli lança livro do (‘Sic’) em Piracicaba

O avanço das obras em quadrinhos no mercado brasileiro envolve tanto as “graphic novels” (histórias de fôlego maior) quanto as compilações de tirinhas de um mesmo personagem ou série, sejam eles nacionais ou de obras traduzidas. São tantos os exemplos do que já foi publicado ou está prestes a ser lançado que não é difícil encontrar em livrarias prateleiras inteiras dedicadas apenas a publicações do gênero.

O projeto do ilustrador Orlandeli (que trabalha no Diário da Região) com tirinhas do “(Sic)” está prestes ocupar seu devido espaço nessas prateleiras. Com incentivo do Programa de Ação Cultural (ProAc)da Secretaria de Estado da Cultura, ele lança, ainda este mês, dentro da programação do Salão de Humor de Piracicaba, do qual é jurado, um livro pela editora Conrad que reúne algumas tiras produzidas entre março de 2009 e julho de 2010.

“Escolhemos o Salão de Humor de Piracicaba para lançar o livro pois, inicialmente, o Sic foi desenvolvido para competir no evento e foi premiado com o primeiro lugar em 2008. A partir daí, surgiu a ideia de publicá-lo semanalmente no Diário”, diz Orlandeli. O aumento da oferta de obras que utilizam os quadrinhos, quer para contar histórias longas, quer para entreter ou fazer refletir por meio da imagem, do “jogo rápido”, deve ampliar o conhecimento das pessoas a respeito da produção de quadrinhos nacional, na opinião do ilustrador.

“Tem uma parcela pequena do público que ainda não entendeu que as histórias em quadrinhos não são voltadas apenas para os consumidores infantis. Mas, em geral, o espaço para a produção desse segmento melhorou muito”, avalia Orlandeli. Para Paulo Ramos, que é jornalista, professor e pesquisador da área de HQs, essa é uma área que vem ganhando espaço e conquistando outros leitores - em particular o adulto - como nunca se viu antes no País. “O papel dos diferentes governos no fomento a obras e compra de títulos e a descoberta das livrarias como pontos de venda têm contribuído muito para isso.”

Revolução

 
 
 





Outro projeto que foi viabilizado com verba do ProAc é o álbum “Anita Garibaldi, o Nascimento de uma Heroína”. A publicação, lançada ontem, em São Paulo, é de autoria do cartunista paulistano José Custódio Rosa Filho. Foram três anos de trabalho, da pesquisa à finalização do projeto. Filho de catarinenses de Laguna, cidade de Anita, Custódio conta que sempre escutou histórias sobre a heroína local - personagem importante da Revolução Farroupilha - e sentia vontade de fazer um projeto sobre a história dela.

O livro foca o nascimento de Anita até o momento que ela deixa Laguna, cidade onde ela conheceu (Giuseppe) Garibaldi. A pesquisa foi árdua. Em casos de documentos que não podiam ser xerocados, Custódio precisou fotografar um a um. “Fiz um arquivo de 5 mil imagens entre lugares, uniformes de reinados.” O cartunista afirma que apesar da pesquisa ter sido trabalhosa, o maior desafio foi encontrar o traço certo. “Sou um cartunista, não um desenhista clássico. Meu desenho tende mais para o humor que para o heroico. Tive de adequar meu traço e estilo de cartunista para um desenho que se enquadrasse na história.”

Trabalhos distintos

Para Custódio, mergulhar durante três anos em um único projeto trouxe uma grande sensação de trabalho autoral, de um livro que o pertence. Contudo, o cartunista conta que teve de conviver com a ausência do trabalho imediato, de algo que se produz e se entrega em um prazo curto. “O trabalho imediato traz a satisfação imediata também. É como comer um chocolate.

Já o livro é como se você estivesse fazendo um vinho, estivesse fermentando no tonel e sentir o prazer de vê-lo envelhecendo no barril para ser degustado depois.” No próximo dia 4, faz 161 anos que Anita morreu, na Itália. Como homenagem, Custódio vai publicar quatro páginas do livro em seu blog. O endereço é anitagaribaldi.wordpress.com. Lá já é possível encontrar desenhos, fotos e informações sobre o processo de criação da obra.

  Divulgação
 
  Escritor Lourenço Mutarelli teve ‘O Cheiro do Ralo’ adaptado para o cinema e ‘O Natimorto’ para o teatro

Artistas que dialogam com HQ, cinema e teatro

A influência dos quadrinhos é mais notável em adaptações de histórias de super-heróis para o cinema. Mas a técnica dos desenhos lança suas teias para além da sétima arte. Lourenço Mutarelli, por exemplo, é um artista que passeia entre quadrinho, literatura, teatro e cinema absorvendo as referências entre um e outro trabalho.

O princípio da carreira do escritor, quadrinista, ator e dramaturgo foi no estúdio de Maurício de Souza. Depois, Mutarelli, no início da década de 80, tentou publicar suas próprias histórias e produziu também alguns fanzines. “O quadrinho influencia muito meu trabalho. Ainda que eu não perceba diretamente isso, os meus leitores percebem. Mesmo minhas obras literárias são muito visuais, o que acredito ser fruto dos quadrinhos”, diz Mutarelli.

Das histórias contadas com o auxílio dos desenhos, Mutarelli passou aos romances. “O Cheiro do Ralo” (Devir), por exemplo, romance escrito por ele, ganhou o cinema com Selton Mello no papel principal. “Quando penso uma ideia, penso muito mais no texto, hoje. O que me distanciou um pouco dos quadrinhos, além do trabalho excessivo, é que o texto escrito remete o leitor para algo mais próximo da realidade, do que ler algo por meio de uma representação que é o desenho: essa é a grande diferença entre literatura e quadrinho”, diz.

Mais um romance do ator e escritor, que também sofre, como toda sua obra, influência do universo das HQs é “O Natimorto”. O livro foi adaptado para os palcos teatrais por outro nome que mantém vínculos estreitos entre as histórias em quadrinhos e outras formas de expressão: Mário Bortolotto.

O dramaturgo assume que, pelo seu gosto pelas histórias desenhadas, todo seu trabalho sofre de alguma forma influências desse universo. “Existe essa relação entre os quadrinhos e as artes cênicas e existem diretores que conseguiram fazer isso, ainda que seja raro. Para o teatro, por exemplo, fiz ‘Chapa Quente’, em que a influência dos quadrinhos é inegável”, diz Bortolotto.

Ele fala ainda que, por ter a visão das HQs e gostar desse estilo de linguagem, permite que haja o diálogo entre esses meios em seus trabalhos. “Histórias em quadrinhos estão ganhando cada vez mais espaço no cenário nacional, novos talentos têm aparecido.”

Polêmico, Robert Clumb vem à Flip

Até mesmo os textos sagrados não escaparam do avanço dos desenhos em quadrinhos. O artista norte-americano Robert Crumb criou polêmica ao lançar, no fim do ano passado, “Gênesis”, uma versão em HQ do primeiro livro da Bíblia. Para ilustrar a criação divina, o artista, ateu convicto, estudou a história da religião e a geografia da Terra Santa por meio de registros fotográficos. O trabalho de criação da obra levou mais de quatro anos.

Robert Crumb, que se destacou na contracultura, nos anos 1960, confirmou a vinda ao Brasil para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa na próxima quarta-feira e vai até o dia 8, na cidade do litoral fluminense. Além do livro de “Gênesis”, Crumb já ilustrou obras de Franz Kafka, Charles Bukowski e Philip K. Dick.


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