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Terça-feira, 02.05.17 às 08:30

Após se aventurar pelo ska, CPM 22 resgata suas raízes

João Paulo Carvalho - AE
Divulgação CPM 22
Banda CPM 22 volta à pegada mais pesada depois de flertar com o ska

A força do hardcore melódico ainda pulsa nas veias do CPM 22. Sentados em três cadeiras aconchegantes do pub Cão Véio, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, Badauí (vocal), Luciano (guitarra) e Japinha (bateria) refletem sobre Suor e Sacrifício, sétimo álbum de estúdio do grupo paulistano, que chegou às lojas na semana passada.

Com o mesmo ímpeto jovial de 20 anos atrás, quando a banda começou a se destacar na cena independente, o trio paulistano resgatou seu DNA rock-n-roll após uma aventura experimental pelo ska em Depois de Um Longo Inverno (2011).

"Hoje, nós temos quase o dobro da idade que tínhamos quando nosso primeiro álbum (A Alguns Quilômetros de Lugar Nenhum) foi lançado, em 2000. A visão sobre as coisas mudou completamente, apesar de ouvirmos as mesmas bandas de sempre. O lance é acrescentar novas influências naquilo que já fazíamos", diz Luciano.

Foi em outubro de 1998, quando a tradicional e saudosa casa de shows Hangar 110 abriu suas portas na Rua Rodolfo Miranda, no bairro do Bom Retiro, na zona central da capital paulista, que o CPM 22 começou a trilhar sua trajetória de sucesso. Primeira banda a fazer show naquele que pouco tempo depois se tornaria o maior reduto do punk-rock e do hardcore da cidade, o grupo apresentou um repertório pesado. Não demorou muito para que Badauí e sua trupe se destacassem e, a partir dali, alcançassem o estrelato.

No recém-lançado Suor e Sacrifício, a banda trouxe de volta esse sentimento nostálgico. Ao melhor estilo de A Alguns Quilômetros de Lugar Nenhum, o CPM 22 buscou em suas raízes a fórmula do sucesso. "Acho legal essa associação. Mostra que a nossa essência continua a mesma, embora isso não tenha sido pensado", afirma Japinha.

"Nosso último disco de estúdio tinha bastante coisa de ska. Desta vez, portanto, queríamos fazer o bom e velho punk-rock melódico. Em nenhum momento, todavia, queríamos fazer alusão a A Alguns Quilômetros de Lugar Nenhum. Foi algo totalmente involuntário", complementa Badauí.

Embora a banda não tenha premeditado tal 'resgate', fica difícil não comparar os dois momentos. Tudo em Suor e Sacrifício faz lembrar A Alguns Quilômetros de Lugar Nenhum: dos riffs intensos à velocidade frenética, passando até mesmo pelas letras bem construídas do disco. Quem cresceu ouvindo a banda, com certeza vai se identificar com canções como Linha de Frente, A Esperança Não Morreu e Combustível. Em Honrar Seu Nome, Badauí presta sua homenagem ao pai, que morreu no ano passado.

"As letras no CPM sempre foram verdadeiras. São coisas que a gente, de alguma forma, viveu, sabe? No máximo, contamos coisas que aconteceram com pessoas que estão à nossa volta. Ninguém nunca vai olhar para uma composição do CPM e achar que inventamos aquilo. Muito coisa aconteceu nos últimos tempos: familiares que morreram, filhos que nasceram e casamentos que se desfizeram. Tudo isso reflete. Se eu escrever alguma coisa que não seja verdadeira, o Badauí vai ser a primeira pessoa a reconhecer isso", conta ainda Luciano.

O novo disco traz ainda uma parceria interessante. Em Never Going to be the Same, composta por Japinha, o vocalista da veterana banda norte-americana Face to Face, Trever Keith, participa da canção. Influenciados pelo grupo desde a adolescência, o CPM bebeu novamente de sua maior inspiração musical para trazer à tona algo que sempre esteve em seu DNA.

"Já tinha rolado uma conversa prévia com ele na época do acústico, em 2013. Com certeza, o Face to Face é a maior influência do CPM. O Trever falou para a gente mandar a base que ele ia escrever uma letra. Ele fez também a melodia de voz. Todo mundo afirma que o CPM é o Face to Face brasileiro. Quando ele mostrou a composição, nós adoramos. A molecada que sabe das nossas inspirações ficou de cara com a situação", afirma também Badauí.

Inspiração política

Para Badauí, o momento político atual do Brasil também está refletido no novo trabalho. Segundo ele, o sentimento de contestação surgiu de forma natural e involuntária em meio à crise.

"O brasileiro é um povo maltratado. Um país que arrecada o que arrecada de imposto não pode tratar o povo dessa maneira. A população não merece isso. Não podemos perder a simplicidade do nosso punk-rock, o nosso jeito de dizer as coisas. O discurso não deve ser obrigatório. Você precisa sentir isso. A indignação não pode ser sentida por modismo. Isso, na verdade, precisa ser natural", conclui o frontman do CPM 22.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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