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Sábado, 10.12.16 às 00:00 / Atualizado em 09.12.16 às 18:40

O espírito livre do poeta da rua Saldanha Marinho

Beto Carlomagno
Mara Sousa Antônio Marcos - 10122016
Poeta transformou uma casa abandonada na rua Saldanha Marinho em uma espécie de ‘monumento-abrigo’: “Fico aqui até me tirarem"

Passando pela rua Saldanha Marinho, em meio aos prédios residenciais e comerciais, um ruído visual chama a atenção. É impossível não notar a obra de arte que é a morada de Antônio Marcos, conhecido por todos na região como o Poeta de Rua. Em uma casa abandonada, o Poeta criou um monumento para ser seu abrigo. A barraca onde dorme é envolvida por quadros, fotos, uma máquina de escrever, uma impressora, e tantas outras peças das mais variadas origens.

“Tudo veio de caçambas, nada aqui foi comprado. É para tumultuar, para causar impacto, não tem uma pessoa sequer que passa por aqui e não para pra olhar. Vou montando e, com o tempo, mudo algumas peças de lugar para criar novas experiências. Uma peça dessas sozinha não faria sentido, mas a junção de tudo isso cria esse sentimento”, diz o Poeta, em busca de palavras para expressar o resultado do que na verdade é inquietação.

Na frente de tudo, chama a atenção um mural com diversas imagens do personagem Dr. Jekyll e sua contraparte, Mr. Hyde, do clássico da literatura O Médico e o Monstro. “Todos nós temos dois lados. Todo dia, nunca somos iguais, sempre temos um lado oculto, que às vezes ninguém sabe que a gente tem”, explica. As paredes no entorno dão um gostinho de sua poesia, contestadora na maior parte das vezes. “É fácil olhar para o poeta!!! O difícil é olhar para si mesmo!”, está escrito em um dos pilares, enquanto, no muro, os dizeres “se somos todos iguais perante a lei, por que a lei favorece a impunidade deles” se destacam.

Esse ambiente de inquietação define bem a vida do Poeta, que nunca se conformou em seguir as regras. “Prefiro (viver) assim, não tenho nenhum tipo de compromisso, não tenho laços com ninguém. Tenho uma relação com a minha família, eles vêm aqui direto, mas não me vejo voltando à vida de antes. Já tentaram de tudo para me levar de volta. Minha irmã arruma a cama, tudo certinho, cheirosinho, vou lá e não consigo dormir, preciso tirar tudo e dormir no chão”, conta. Mas apesar da liberdade aparente, poeta descreve sua vida como uma prisão sem grade. “Entrei no laço das drogas.”

A vida nas ruas é, realmente, uma opção. Antônio Marcos cresceu em escolas particulares, em uma família que tinha condições de mantê-lo. Mas nenhum lugar parecia casa como a liberdade que a rua lhe proporcionou. “Fico aqui até me tirarem, aí vou para outro lugar.” Hoje com 44 anos, Poeta está há mais de 20 anos levando essa vida nas ruas, mudando de um ponto para o outro. E apesar de a poesia ser algo sempre presente em sua vida, ela se tornou seu meio de vida mais ou menos por acaso. “Eu era hippie, trabalhava vendendo artesanato, e uma moça com quem eu tinha um relacionamento, uma malabarista de circo, disse que gostava das coisas que eu escrevia. Ela me incentivou a viver disso.”

Na primeira vez que foi escrever e que apresentou seu trabalho na rua, diz que foi recebido com aplausos. “Curtiram meu trabalho e aquilo foi o empurrão que eu precisava para continuar. Desde então, não parei mais. A poesia é minha filosofia de vida”, recorda. Segundo ele, a inspiração nasce do momento. Por dia, escreve entre dez e 15 poemas, alguns inspirados por seus próprios pensamentos e outros nascidos da interação com o público. “Trabalho muito com pessoas, vou às mesas dos bares da região, à noite, e as pessoas me dão um tema. Escrevo ali, na hora, a partir do que foi pedido e, muitas vezes, minhas palavras se encaixam perfeitamente com o momento da vida daquela pessoa, o que emociona. Tem gente que guarda meus poemas na carteira por muitos anos.”

Além dos bares, o Poeta também pode ser visto nos semáforos das ruas Saldanha Marinho e Independência, vendendo seus poemas. Cada um paga o que acha que seu trabalho vale. “Lembro de uma situação curiosa. A gente, que está na rua, toma uns ‘enquadros’ da polícia, né. Aí um dos policiais chegou em mim depois do enquadro e disse: ‘Poeta, você salvou meu casamento’. Foi na época do bar Babilônia ainda. Ele estava na mesa com a esposa, eles estavam fazendo de tudo para reatar, eu parei e ofereci meus serviços. Escrevi um poema, não lembro o que escrevi, faz muito tempo. A menina leu, se emocionou e resolveu dar uma chance para o cara”, conta.

 

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