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Domingo, 19.03.17 às 00:00 / Atualizado em 18.03.17 às 19:45

Número de partos normais aumentam nos últimos anos

Nany Fadil
Arquivo pessoal Ginecologista Paulo Fasanelli e Gabriela Polizelli - 19032017
Ginecologista Paulo Fasanelli durante o parto de Maurício; procedimento humanizado foi o escolhido pela farmacêutica Gabriela Polizelli

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Arquivo pessoal Ginecologista Paulo Fasanelli e Gabriela Polizelli - 19032017
Ginecologista Paulo Fasanelli durante o parto de Maurício; procedimento humanizado foi o escolhido pela farmacêutica Gabriela Polizelli

Rio Preto reduziu o número de cesarianas nos últimos anos. Em 2012, das 5.328 crianças que nasceram, 722 foram por parto normal, ou 13,55%. Já a proporção em 2016 passou para 1.050 nascimentos naturais dentro de 5.385 partos, ou 19,5%. É um crescimento de quase seis pontos percentuais, algo bastante expressivo e uma boa notícia. Mas a cidade continua a manter o título de “Capital Mundial das Cesarianas”. É que a cada dez bebês que nascem, oito são por meio de procedimentos intervencionistas.

Enquanto nos países desenvolvidos a média é de 80% de partos naturais e 20% de cesáreas, o Brasil registra 55,5% de cesáreas e 44,5% de partos normais, o que coloca o País como o primeiro do mundo no ranking de cirurgias obstétricas. Vários fatores influenciam nessa “liderança”, mas a principal é a cultura dos médicos e também das pacientes em preferir as cesarianas, apontam especialistas. Para o ginecologista Paulo Fasanelli, que atua na área da obstetrícia humanizada, o problema em Rio Preto está no ensino.

“O residente desaprendeu a fazer o parto normal. Desde o fim dos anos de 1970, o ensino se voltou mais para novas técnicas e aprimoramento das cesarianas e muitos médicos se formam sem ter feito parto normal. Com isso, se sentem inseguros e não capacitados.” Segundo ele, o aumento de partos sem intervenções cirúrgicas em Rio Preto é explicado por um movimento da própria sociedade. É que com mais acesso a informações, as mulheres estão exigindo mais dos médicos.

“As pessoas veem a modelo Gisele Bündchen ter os filhos em casa nos Estados Unidos, dentro de uma banheira, de parto normal e passam a questionar a razão para elas não poderem fazer da mesma forma. A internet trouxe uma liberdade de pesquisa e o paciente chega ao médico já com um arsenal maior de conhecimento e condições de falar com mais propriedade”. O especialista aponta ainda que o aumento da presença de doulas em Rio Preto também favorece o quadro de crescimento dos partos naturais. 

“Essas profissionais merecem todo o nosso respeito porque ajudam tanto fisicamente como psicologicamente para que a mulher se prepare para um parto normal tranquilo e humanizado”, diz. Entre outras medidas adotadas, no parto humanizado, a mulher espera a hora em que a criança quiser nascer, não há o uso de ocitocina para provocar contrações, e nenhuma outra técnica de intervenção para agilizar o nascimento do bebê. Os desejos da mulher, como luz baixa, som, o companheiro ao lado, são atendidos.

Nas primeiras horas de contração, a gestante é incentivada pela doula a fazer exercícios específicos que ajudam o feto a descer e se posicionar para o nascimento e duchas, banheiras ou espécies de piscininhas com água morna são usadas no processo para amenizar dores ou para o parto. “Só de deixar a criança nascer na hora certa já diminui o risco de icterícia, de problema de maturação dos pulmões e também há maior desenvolvimento neuropsicomotor. No parto normal, mãe e bebê ganham. 

 

Arte - Parto Normal - 19032017 Clique na imagem para ampliar

As chances de infecção são menores, os laços sentimentais são fortalecidos, a produção de leite materno é favorecida e a criança tem mais facilidade de respirar ao nascer”, diz. Foram essas as razões que levaram a farmacêutica Gabriela Polizelli, 30 anos, a escolher o parto normal. Quando soube que estava grávida, procurou o especialista por ter informações sobre o trabalho dele priorizar o nascimento natural. “A gestação foi muito tranquila e me preparei fisicamente e emocionalmente para o nascimento de Maurício”, diz. Doeu, doeu muito sim, mas pretendo ter outro filho e também será de parto normal”.

SUS

Para Fasanelli, as diretrizes do Ministério da Saúde para incentivar o parto normal são mais efetivas quando a paciente é do Sistema Único de Saúde (SUS). Os números de Rio Preto parecem comprovar a tese do médico. É que dos 1.050 partos normais feitos no ano passado, 834 foram pelo SUS, o que representa 79%.

Robô auxilia no aprendizado médico

O diretor-geral da Faculdade de Medicina de Rio Preto, Dulcimar Donizeti de Souza, não acredita que o problema do elevado número de cesáreas na cidade esteja relacionado ao ensino. Ele afirma que a Famerp sempre priorizou o parto normal na especialização dos médicos. “Temos uma condição especial. Desde quando os partos eram realizados no Hospital de Base e agora, no Hospital da Criança e Maternidade, a maioria das gestantes é de alto risco e a indicação é a cesariana.

Como a Famerp faz parte da Funfarme, nossos médicos fazem residência no HCM, mas não temos a cultura da cesariana no curso de medicina”, afirma. Segundo ele, há cerca de um ano os alunos têm aulas de parto normal e cesariana em uma robô “grávida”. “Há um mês foi inaugurado o centro de treinamento, com 177 bonecos e quatro robôs (um é uma mulher grávida), mas os treinamentos são feitos há um ano.”

Dulcimar Souza explica que os estudantes aprendem as diferentes posições em que o bebê pode estar na barriga da mãe, como proceder em cada caso e a aula prossegue até o nascimento do bebê robô. O diretor afirma que o ensino na Famerp é “100% para o parto normal”. “Existe a cultura do médico e a da paciente em preferir a cesariana”, diz. “O aumento dos partos normais em Rio Preto está ocorrendo porque mulheres estão tendo mais informações”.

 

Jessica Travassos Sauter - 19032017 Jessica segura a filha, Carolina, de cinco meses, nascida de parto normal

Jéssica trocou médico para ter parto normal

A publicitária Jessica Travassos Sauter, 29 anos, sempre pensou em parto normal, mas quando engravidou passou a pesquisar mais sobre o assunto na internet. Só que na primeira consulta com o ginecologista e obstetra passou a receber do médico informações sobre as “facilidades” da cesariana. “Ele me aconselhou a ver várias postagens no YouTube que traziam que a melhor escolha era da cesárea. Eu quase mudei de ideia”, conta. Mas como ela e o marido estavam fazendo um diário de gestante num blog, receberam mensagens de amigos.

“Algumas pessoas disseram que estavam estranhando o comportamento do médico e me orientaram a pesquisar melhor”, conta. Jessica ligou para o seu plano de saúde e descobriu que todos os partos feitos pelo médico eram cesáreas. “100% cesáreas. Decidi mudar para a doutora Ana Paula Pina”. A publicitária fez todo o acompanhamento da gestação para o parto normal. “A abordagem foi completamente diferente, nos reuníamos com outras grávidas para trocar experiências, conversávamos pelo Whatsapp, eu fiquei totalmente segura”, diz.

A médica aconselhou Jessica a procurar a doula Julia Ferreira Garutti para também a auxiliar e ainda uma enfermeira. “A Ju fez toda a diferença. Pude ficar em casa o máximo de tempo possível, antes de ir para o hospital para a Carol (Carolina, de 5 meses) nascer”. As contrações começaram por volta das 23 horas do dia 27 de setembro do ano passado e ela ligou para a doula. “A Ju foi para a minha casa às 2h30 e ficou comigo a madrugada inteira. Eu não sentia medo, tinha curiosidade de como seria o nascimento.”

Durante parte da madrugada, Julia fez massagens na gestante, além de incentivá-la em exercícios que ajudam na colocação do bebê em posição de nascimento. “Como eu tinha escolhido o parto humanizado, a enfermeira que também me acompanhou, não fazia exames de toque. Ela observava como estava a linha púrpura na nádega”. Por volta das 7h30, todos foram para um hospital em Mirassol onde a médica se encontrou com Jessica. Então foi esperar até que Carolina decidisse nascer.

“Fomos para Mirassol porque eu soube que o hospital que eu tenho convênio não possui uma sala para partos normais. Segundo o que me disseram, a gestante fica em uma espécie de sala de recuperação, mas com outras mulheres. Isso tiraria a minha liberdade.”
No hospital de Mirassol montaram uma banheira inflável e colocaram água morna e Jessica aguardou o aumento da dilatação. “Entrei no período expansivo e às 11h44 e a Carol nasceu, com 3.360 quilos e 50 centímetros. É impressionante como o corpo de uma mulher está preparado para o parto normal, é instintivo. Com certeza o meu vínculo com minha filha e meu marido é uma conexão única”, diz.

Cesárea

A funcionária pública Simone Alves dos Santos Caldeira, 27, mãe da pequena Helena, de 3 aninhos, não teve a mesma experiência. Ela diz que quando ficou grávida e procurou uma médica obstetra a profissional falou sobre complicações no parto normal, problemas na bexiga, sobre sedentarismo. “Ela disse que iria doer muito. De forma velada desestimulou o parto normal. Há três anos, não havia tanta informação sobre o assunto como hoje”, diz.

Segundo Simone, poucas horas antes do nascimento de Helena, a médica perguntou se seria cesariana ou normal. “Eu não havia me preparado, não tinha informações, não tive apoio ou incentivo dela durante toda a gestação, acabei escolhendo a cesárea. Mas se fosse hoje, não escolheria mais a cirurgia”, conclui.

Cultura é uma das causas

“A cultura da classe médica de Rio Preto e da gestante, além da falta de uma estrutura adequada nos hospitais, levam a cidade ser a capital mundial da cesariana”, diz o presidente regional da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, José Luís Esteves Francisco. Segundo ele, a maioria das gestantes já chega dizendo que quer fazer cesárea. “Também há médicos da rede particular que só fazem cesarianas por ser mais cômodo.” O médico afirma ainda que os hospitais não estão preparados para o parto natural.

“Os partos normais são demorados e os hospitais deveriam ter equipe especializada de enfermagem para que o médico só entrasse em ação na hora do nascimento do bebê, mas não é essa a nossa realidade. Sem estrutura básica, o parto vaginal acaba sendo exaustivo fisicamente para o médico e não compensa financeiramente, já que é muito mal remunerado.” Esteves afirma ainda que o parto normal é o melhor para a mãe e para o bebê e reforça que não é mais preciso sentir dor durante o processo em função da possibilidade de analgesia da mulher.

 

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