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Domingo, 19.03.17 às 00:00 / Atualizado em 18.03.17 às 19:23

Encontrado em Rio Preto osso da espécie de titanossauro

Marival Correa
Divulgação Luciano Alves - 19032017
Luciano Alves com o fóssil do úmero de um titanossauro encontrado por ele enquanto trabalhava no canteiro de obras de um supermercado no cruzamento da JK com Francisco das Chagas: o “Indiana Jones” caipira diz entender o valor científico do seu achado e por essa razão doou o material para pesquisa

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Divulgação Luciano Alves - 19032017
Luciano Alves com o fóssil do úmero de um titanossauro encontrado por ele enquanto trabalhava no canteiro de obras de um supermercado no cruzamento da JK com Francisco das Chagas: o “Indiana Jones” caipira diz entender o valor científico do seu achado e por essa razão doou o material para pesquisa

Esqueça a JK do jeito que você conhece. A avenida, continuação da Bady Bassitt e que leva a alguns dos endereços mais valorizados de Rio Preto - shoppings e condomínios, principalmente - , não passa de um terreno encharcado em que predominam imensas áreas pantanosas. O rei do pedaço não são os carros, mas uma criatura equivalente ao peso de 15 Fuscas ou de três elefantes juntos e duas vezes a altura de uma girafa adulta. Com uma esticadela, fácil fácil alcançaria o terceiro andar de um desses prédios espalhados pela avenida.

A Rio Preto que aqui se apresenta é um território inóspito e longínquo. Direto do túnel do tempo, há 90 milhões de anos, quando eram reis os dinossauros. Mais precisamente, os gigantes saurópodes da espécie titanossauro (Titanosaurus indicus, do latim "lagarto titânico"). Hstória digna de um enredo hollywoodiano que o Diário revela em primeira mão como um presente para Rio Preto, nestes seus 165 anos de história.

Sempre se atribuiu à região à fama de ter sido um grande vale de dinossauros, principalmente da família dos saurópodes, mas também de criaturas bem menores, como os crocodilianos. Fartos achados fósseis em locais como Ibirá, Uchoa, Monte Alto, Jales, General Salgado, entre outros, sempre apontaram nessa direção. Mas quis o destino e principalmente a iniciativa de um operador de máquinas, com instinto digno de um Indiana Jones, para colocar a própria cidade de Rio Preto dentro deste “jurassic park caipira”.

O achado que mudou essa história se deve ao motorista Luciano Alves. Há dois anos ele trabalhava como operador de retroescavadeira nas obras de fundação de um supermercado no cruzamento das avenidas Juscelino Kubitschek e Francisco das Chagas Oliveira. Quando estava a 12 metros abaixo do nível da rua, aproximadamente, deparou-se com algo diferente. “Quando a pá da máquina bateu na rocha, uma coisa me chamou atenção. Desci e cheguei perto. Vi que não era osso de vaca, nem de outro bicho e muito menos osso de gente.

 

Arte - Eras Mesozoica - 19032017 Clique na imagem para ampliar

Com muito cuidado, bem devagar, fui escavando, escavando até conseguir tirar aquele osso. Saiu um pouco quebrado e com uns pedaços soltos, também juntei alguns fragmentos da costela. Era o fóssil de um dinossauro, tinha quase certeza”, relembra Luciano, fã incondicional de programas sobre paleontologia, especialmente os exibidos pelo Discovery Channel. Com a consciência de que seu achado não era propriedade particular ou individual, mas de interesse público e principalmente científico, correu para a internet atrás de um centro de pesquisa interessado na descoberta. 

Foi muito bem atendido pelo pessoal do Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que mantém um blog justamente para divulgar a paleontologia e também incentivar as pessoas a doar para a ciência prováveis materiais fósseis. Os pesquisadores concluíram que o osso encontrado por Luciano, no terreno onde hoje está assentado um supermercado da zona sul de Rio Preto, era o úmero de um saurópode. O material foi estudado pela equipe, catalogado e hoje encontra-se exposto no “Museu da Ciência Prof. Dr. Mário Tolentino”, em São Carlos, junto ao nome do seu descobridor, Luciano Alves.

“Todos os meses nós recebemos vários e-mails similares, porém, geralmente o que as pessoas encontram são rochas com formatos estranhos ou ossadas de bichos recentes. Todavia, o caso do senhor Luciano era diferente”, recorda a paleontóloga Aline Ghilardi, bióloga, mestre em Ecologia pela UFSCar e doutoranda em Geociências pela UFRJ e uma das integrantes do blog (www.colecionadoresdeossos. com.br) com o qual Luciano entrou em contato.

Tudo confirmou-se, segundo a paleontóloga, assim que as primeiras fotos foram analisadas. “O osso branco destacava-se da rocha rosada, típica da Formação Adamantina, unidade geológica local na qual os fósseis do Cretáceo são encontrados. O osso estava fragmentado devido às atividades da obra, porém, pelas fotos, era possível reconhecer que o material era grande, bem maior que qualquer osso de vaca. Além disso, suas características morfológicas não eram semelhantes a de nenhum organismo atual e o fato de ele estar entranhado na rocha confirmou sua natureza fóssil”, explica.

Luciano conta que nem por um segundo pensou em lucrar com a descoberta. Tanto é verdade que o caso não veio a público à época, há exatamente dois anos. Ele não quis transformar aquilo em marketing pessoal e nem mesmo prejudicar o andamento das obras do supermercado. Entregou pessoalmente os ossos (o úmero e os fragmentos de costela, num total aproximado de 70 quilos de material fóssil) para os pesquisadores de São Carlos, que vieram a Rio Preto ainda no ano de 2015. “Isso não pertence a mim, pertence ao mundo todo, pertence a todos nós, e por isso dever ser estudado e ficar em um museu”, declara o motorista.

 

Titanosaurus - 19032017 Digite aqui a legenda

Quebra-cabeça pré-histórico

“O senhor Luciano possui um enorme senso de ética e cidadania. Ao confirmarmos a identificação do material como “ossos de dinossauros” (mais precisamente um úmero de saurópode e fragmentos de costelas), ele prontamente quis que tudo fosse encaminhado para um museu ou centro de pesquisa. Dessa forma, acabou contribuindo com mais uma peça do quebra-cabeça sobre a história da vida no passado de nosso planeta. Ele foi um vetor positivo nessa história, que, confesso, nem sempre tem um final feliz”, afirma Aline.

Um final que só foi realmente feliz porque, diante da descoberta, o “Indiana Jones rio-pretense” fez aquilo que a paleontóloga diz ser o mais correto nesses casos: entrou em contato com especialistas para a identificação das peças. Fósseis, salienta a pesquisadora, são bens da União, ou seja, pertencem a todos os cidadãos, e por isso sua comercialização ou escambo (troca por outros artigos) é crime. “Seu valor é científico e cultural, não podendo ser calculado em termos monetários.”

Tão incalculável quanto impensável que o nobre endereço em Rio Preto guarde os resquícios de um elo que une o passado remoto ao presente da maior cidade da região. E em quantidade que jamais poderá ser dimensionada. Sob as camadas de concreto, dizem os pesquisadores, pode haver muito mais fósseis. Como o do titanossauro de Luciano, morto há 90 milhões de anos provavelmente de cabeça para baixo como indicam os ossos encontrados.

Região na era dos dinos; fósseis conectam história

A região de Rio Preto é amplamente conhecida pela ocorrência de fósseis do final do Período Cretáceo e por um isso um campo vasto para pesquisas e descobertas reveladoras sobre diferentes tipos de dinossauros. A afirmação é de um profundo conhecedor do assunto. Biólogo, mestre em Ecologia, doutor em Geociências e professor titular de Paleontologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Marcelo Adorna Fernandes é responsável pelo Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia da instituição, local onde a paleontóloga Aline Guilardi faz sua pós-graduação.

Os dois foram os responsáveis por viajar até Rio Preto para receber o fóssil das mãos de Luciano, depois estudá-lo e catalogá-lo. “Esse intervalo de tempo (final do Período Cretáceo) é conhecido como o auge da ‘Era dos dinossauros’, entre 100 e 66 milhões de anos atrás. Nas rochas da região de Rio Preto são comuns restos não somente de dinossauros, mas também de crocodilos, tartarugas, lagartos, cobras e peixes pré-históricos”, explica Marcelo, também integrante junto com Aline e outros pesquisadores do blog Colecionador de Ossos.

Diante da explicação do pesquisador, duas coincidências (ou não) se conectam com 19 anos de intervalo: em 1998 foi encontrado em Vila Ventura - localizada entre Uchoa e Ibirá – a parte fossilizada de um titanossauro. Era precisamente um úmero, pesando 30 kg. Da mesma forma que no caso de Luciano Alves, “o nosso Indiana Jones caipira” rio-pretense, coube o feito a uma pessoa comum, com o mesmo espírito de aventura e amor pela ciência. Trata-se de Pedro Candolo, um torneiro mecânico que morava em Uchoa e que faleceu há dez anos.

Seu Pedro era um explorador, um “caçador” de fósseis que mantinha um pequeno acervo de seus achados em sua oficina. Todos os ossos foram encontrados na Vila Ventura e localidades próximas, uma região repleta de grotas e cachoeiras. Fora, no passado, vales profundos e muito antigos, formados pelas águas das cheias das regiões marginais e remanescentes mais próximos do que foram estas paragens em tempos remotos (142 milhões e 65 milhões de anos atrás, período que é dividido em Cretáceo Inferior e Cretáceo Superior): uma região com temperaturas bem mais quentes que as atuais, úmida, de solo pantanoso e não por acaso rica na proliferação de milhares de espécies de plantas com flores e frutos em diversas regiões e também época do surgimento de várias espécies de peixes com organismos mais complexos, além de ser a última fase do reinado de grandes exemplares como os titanossauros, antes de caminharem para a extinção. Esta, porém, já é uma outra história.

O material coletado por seu Pedro Candolo foi estudado pelo professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp)/Ibilce e também paleontologista Luiz Dino Vizotto, que identificou alguns fósseis. “É interessante uma pessoa sem conhecimentos vastos sobre fósseis dar tamanha importância a esses achados”, disse Vizotto, em entrevista ao Diário da Região em 2001, ao comentar essas descobertas. A principal delas, exatamente o úmero de um titanossauro com mais de 65 milhões de anos e mais pesado que o encontrado na zona sul de Rio Preto, há dois anos. As outras peças estudadas pelo professor são um grande fragmento do ilíaco (osso do quadril), uma porção distal do fêmur e ainda uma tíbia.

Ao lado do saudoso amigo Fahad Moysés Arid, o professor Vizotto tem mais de cem trabalhos de pesquisas em zoologia, paleontologia e ecologia e sempre sonhou que os seus achados e mais materiais coletados por terceiros, como os deixados por Pedro Candolo, pudessem formar um museu em Rio Preto. “As regiões de Rio Preto, Ibirá e Uchoa foram habitat de dinossauros. O Baurusuchus (crocodilo pré-histórico), viveu na região de Jales, que tem achados interessantes dessa espécime. As tartarugas preferiram as regiões de Ilha Solteira e Presidente Prudente. Preservar esses achados para pesquisa e divulgação para conhecimento de todos é muito importante”, explica Vizotto.

Museu em Uchoa

O sonho do professor Vizotto tornou-se realidade em Uchoa. Conforme o Diário da Região publicou em 30 de dezembro do ano passado, a cidade ganhou naquela data o primeiro museu paleontológico da região. Fica localizado na Estação Cultura, antigo armazém da estação ferroviária do município.

São cerca de 400 fósseis de dinossauros, crocodilos e tartarugas. E a expectativa é que o acervo aumente com doações. As primeiras peças são do acervo do seu Pedro Candolo, o qual dá nome ao local. A maioria das peças é da cidade e também de Vila Ventura, Ibirá e Cedral, mas o acervo contará também com itens da Chapada do Araripe, no Nordeste.

Os ‘primos’ de Rio Preto e Presidente Prudente

O grupo dos saurópodes (Sauropoda), do qual faz parte o titanossauro da zona sul de Rio Preto, inclui os grandes dinossauros pescoçudos, que atingiram durante a sua evolução tamanhos incríveis para animais terrestres. O Brachiosaurus brancai, o maior saurópode conhecido por um esqueleto quase completo, deveria atingir 26 metros de comprimento, 12 metros de altura e 38 toneladas, mais que 7 elefantes! Durante muito tempo julgou-se ser este o maior dinossauro a ter existido. Porém, sabe-se agora que vários titanossauros (o argentinossauro, por exemplo, que chegava a medir 45 metros de comprimento) eram maiores que o braquiossauro.

Pertenceram ao período Cretáceo da era Mesozoica, que está compreendida entre 100 milhões e 500 mil e 66 milhões de anos atrás. O interior paulista tem muito a contribuir no que se refere a estes gigantes. Trata-se exatamente do grupo dos titanossauros, como o nosso exemplar rio-pretense. E, em outubro do ano passado, cientistas anunciaram a descoberta do que dizem ser o maior dinossauro já encontrado no Brasil, com 25 metros de comprimento. O fóssil que levou à essa conclusão foi encontrado em Presidente Prudente. O animal, um “primo” do titanossauro que habitou estas terras de São José, viveu no País há 70 milhões de anos, segundo os pesquisadores.

O Austroposeidon magnificus, algo como "o ser que causa terremotos", como foi chamado, teve vértebras do pescoço e da coluna vertebral encontradas no local onde uma estrada estava sendo aberta. Os titanossauros eram dinossauros herbívoros com o corpo bem desenvolvido, o pescoço e a cauda muito longos e uma cabeça relativamente pequena. Era uma característica comum aos saurópodes: a cauda muito comprida e uma grande unha que a maioria desse grupo possuía na pata dianteira eram suas únicas armas de defesa, além é claro de seu tamanho. Eram quadrúpedes, com patas altas, retas como colunas, terminadas em pés dotados de dedos curtos e bastante parecidas com as dos elefantes.

A sua dieta alimentar era vegetariana. Muitos deles não dispunham de mandíbulas e dentes apropriados para mastigar, de modo que engoliam grandes quantidades de matéria vegetal que, em seguida, eram "trituradas" no estômago por pedras ingeridas para facilitar a fermentação e a digestão do alimento. Eles eram muito abundantes no supercontinente Gondwana - que, no passado, reunia as massas continentais de América do Sul, África, Índia, Austrália e Antártica.

 

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