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Domingo, 06.12.15 às 00:00

Em plena era do Facebook e WhatsApp, a boa e velha carta ainda resiste

Carlos Petrocilo
Guilherme Baffi escreve cartas_marcos rodrigues
Marcão tem paixão por cartas; ele escreve e recebe correspondência de ‘estranhos’

Papel, caneta e aqui vai mais uma cartinha. Seja ela de amor, pelo filho, neto ou sobrinho no presídio, e também para chamar atenção do prefeito Valdomiro Lopes. Em um mundo tão conectado à internet, movido pela troca de Messenger e WhatsApp, existe, sim, um grupo que se dedica a colocar no papel seus sentimentos e a postá-lo em uma das agências da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, os Correios. Entre janeiro e outubro deste ano, foi registrada uma média mensal de 24 mil cartas sociais, aquelas emitidas apenas por pessoa física nas agências de Rio Preto.

A reportagem visitou a agência central e somente em um dos 14 guichês a média chega a 300 postagens por dia. “O volume aumenta quando chega o fim do ano”, disse um dos atendentes – a assessoria de imprensa dos Correios proíbe seus funcionários de conceder entrevista.

Uma das figurinhas carimbadas da agência Central dos Correios de Rio Preto é o vendedor de livros Marcos Rodrigues. Desde a adolescência, ele cultiva o hábito de se corresponder com uma 'rede de estranhos'. É sua paixão escrever e receber correspondências, mesmo sendo de pessoas que nunca viu.

 

escreve cartas_Alessandro Luiz Alessandro Luiz de França pediu ajuda para socorrer sua mãe, que mora em casa de tábuas e está deprimida pela morte do marido

Em Rio Preto, segundo funcionários, as cartas para os presídios representam a maioria. Uma senhora, que pede o anonimato, é bem conhecida na agência central. Tem idade entre 50 e 60 anos. Pelo menos duas vezes por semana, ela posta uma carta para o neto, preso. Numa tarde de terça-feira, assim que saiu do culto evangélico, transcreveu “a palavra do Senhor”. “O recado é que ele não tema. O guarda de Israel não dorme e nem tosqueneja (pestaneja)”, postou a avó, em alusão ao salmo 121.

Internet é uma aliada

As redes sociais, acusadas de aniquilar esse velho hábito, têm sido uma aliada. O blog Trocando Cartas reúne atualmente 912 interessados em se corresponder. No ar desde 2009, já registrou 182 mil visualizações, algumas da Espanha, Irlanda e Japão. Lá, quem deseja enviar e receber cartas manuscritas deixa seu nome, idade, o e-mail para troca de endereços e enumera três motivos que justifiquem seu interesse. Entre os cadastros, há inclusive o do rio-pretense Marcos Rodrigues, além de Isabelle Pires, de 39 anos, de Mirassol, e Vitória Ponciano, de 18 anos, de Fernandópolis. “Desejo trocar cartas pelo fato de saber que as cartas são algo que proporcionam as mais diversas sensações para o leitor; por querer conhecer um pouco do que se passa dentro de uma mente, ou no coração de uma pessoa distante; por apreciar palavras escritas com a alma”, postou Vitória.

Elisângela Martins Alves, 36 anos, a dona do blog, também lançou uma página no Facebook para ampliar a divulgação dos contatos cadastrados. “As redes sociais, conhecidas por afastar as pessoas das cartas, têm nos ajudado a reunir essas pessoas que ainda gostam de ir à caixinha dos Correios, ver o carteiro”, disse Elisângela, que mora em São José dos Pinhais.

 

escrevendo carta_Rute Rute escreve carta para o sobrinho internado na Fundação Casa

Escrevendo cartas no terminal urbano

Numa tarde de sexta-feira, a reportagem instalou mesa, cadeira e o cartaz “Escrevo sua carta de graça!”, em frente ao terminal urbano, no centro de Rio Preto. Diariamente, 150 mil pessoas passam pelo local e, em três horas, quatro atenderam ao convite. Fora aqueles que parabenizaram a atitude. “Muitos têm parente longe, não sabem ler e escrever e morrem de saudade”, disse uma passageira. “Parabéns!”

Houve também quem pedisse ajuda para um recibo de aluguel. Foi inevitável a comparação com Dora, a personagem de Fernanda Montenegro no filme 'Central do Brasil'. Dora escrevia cartas para pessoas analfabetas, na estação carioca de trens metropolitanos. A cadeirante Maria Aparecida Rodrigues, 60 anos, foi a primeira a pedir uma carta. Ela destilou sua insatisfação com a administração do prefeito Valdomiro Lopes e a vereadora Alessandra Trigo.

Reginaldo Coelho da Silva, de 31 anos, quis demonstrar o seu amor pelos sobrinhos. Aposentada e sozinha, Delciza Nuci Gerosa, de 77 anos, não tinha para quem escrever, aproveitou para relembrar sua vida e fez uma declaração aos funcionários do Diário. “Há 15 anos, desde que me aposentei, não passo uma manhã sem ler o jornal. O Diário é uma bênção de Deus.”

Enquanto que Alessandro Luiz França, com ares de angústia, implorou aos programas de televisão uma ajuda para sua mãe, abrigada numa casa de tábua em Pereira Barreto. Ao detalhar o seu pedido, o homem de 41 anos tentou, mas não conseguiu segurar o choro. “Meu padrasto morreu de câncer há dois anos, depois de 32 anos casados, e ela só chora. Queria mandar para o Rodrigo Faro (da TV Record) e quem sabe ela ganharia um dia de beleza, voltaria a sorrir.”

 

escrevendo carta_Carlos Petrocilo e Delciza Gerosa Repórter Carlos Petrocilo escreve carta para Delciza Gerosa

Seus amigos, suas histórias

O vendedor Marcos Rodrigues, ou o Marcão como é conhecido entre os funcionários do Correios, chega de manhã e fica desolado se encontrar sua caixa postal, a 355, vazia. Aos 44 anos, Marcos, que também se rendeu ao Facebook, mantém a caixa postal na agência do Centro, com uma anuidade de R$ 75, para receber cartas.

O gosto pela correspondência começou na adolescência, quando tinha 15, 16 anos, para trocar informações sobre 'movimento punk e material mais político'. “Desde então, devo ter na minha casa umas 500 cartas”, disse Marcos.

A internet não sepultou a paixão pelas cartas. Pelo contrário. Ajudou ainda mais. Através das redes sociais, o rio-pretense troca endereço com interessados em receber uma carta e inicia a troca. Em agosto, ele postou o seu endereço, no blog Trocando Cartas, e encontrou pretendentes.

Em seu post, Marcos diz que se satisfaz em escrever e receber cartas à moda antiga. “Considero essa forma de comunicação muito mais humana e portadora de grandes emoções seja pela letra, pela forma de escrever ou mesmo pelo "simples comprometimento" de se locomover para se comunicar.”

Em sua caixa de correspondência, há endereço de todo canto do Brasil, de São Paulo ao Tocantins, e até da Alemanha, de uma brasileira que lá, como explicou.

“Tenho uma boa história. Por algum tempo, troquei correspondência com uma moça, presa em Tremembé. Cara, recebia carta de 12 páginas, e era maravilhoso aquilo. Ela tinha muita curiosidade de saber como estava a vida aqui fora. Numa carta, ela dizia que as detentas precisavam de roupas, fizemos uma campanha do agasalho entre amigos e mandamos. Elas ficaram superfelizes.”

No dia em que conversou com a reportagem, Marcos estava nos Correios para postar uma agenda, um presente a Karen, amiga de Manaus.

“Não conheço a Karen pessoalmente, pretendo, mas financeiramente é impossível. Conversamos há muitos anos. Hoje, ela se casou, vive superbem com o marido e tem filho, é um amor de ser humano.”

 

arte_cartas historicas Clique na imagem para ampliar

Ele também já recebeu CDs, da banda de rock ACDC e até mesmo músicas de ‘natureza’ para relaxar. Não gosta quando alguém quer convertê-lo a religião. “Tem gente que aproveita para fazer pregação, essas particularidades não me interessam. Quero apenas fazer amizade.”

Marcos garante: é tudo sem segunda intenção. “Claro que já rolou alguma coisa, mas foi secundário, foi fruto dessa troca de afinidades. A galera até zoa comigo, principalmente quando lê alguma mais romântica, tiram sarro. Outros acham estranho, mas são loucos para ler. Cartas são enriquecedoras.”

 

Cartas reaproxi x mam Rute do sobrinho

Há nove meses, Rute Cícera Alves, de 41 anos, vai aos Correios postar uma carta para o sobrinho internado na Fundação Casa. “Lá não tem internet, sei que posso transmitir conforto quando escrevo. E fico feliz, muito feliz, em saber que ele está bem. É um alívio quando me responde”, disse Rute.

Os pais do sobrinho morreram. A mãe quando ele tinha quatro anos; recentemente, com 16, foi a vez de se despedir do pai - suspeita de assassinato. “Como ele foi criado com o pai, perdemos um pouco de contato e agora com ele na Fundação Casa, essas cartas têm nos reaproximado.”

O sobrinho foi apreendido pelo envolvimento com drogas e chegou à Fundação revoltado por causa da morte do pai. “Essa perda foi recente e deixou meu sobrinho muito desorientado, revoltado, prometendo vingança. Em nove meses, pelas cartas, fico aliviada porque mudou o discurso, não fala mais de vingança e promete que quer uma família, vai lutar para casar”, falou Rute.

 

Súplicas ao prefeito e ao ator Rodrigo Faro

Assim que avistou a reportagem do Diário à disposição dos transeuntes no terminal urbano, Maria Aparecida Rodrigues pediu para enviar uma carta ao prefeito Valdomiro. Cadeirante e com 60 anos, ela está descontente com a administração. “Excelência, preste mais atenção nas ruas onde estão instaladas as feiras, onde os idosos estão caindo nas ruas por causa dos buracos”, disse Maria, que mora no Jardim Caparroz.

Da indignação de Maria ao choro do pedreiro Alessandro Luiz de França, de 41 anos, preocupado sua mãe, viúva recente depois de um casamento de 32 anos. “Você (repórter) me ajuda? Preciso dar um presente pra minha mãe neste fim de ano e quero mandar carta para o Faro (Rodrigo Faro, apresentador da Record)”, disse o pedreiro, que é de Pereira Barreto e procura emprego em Rio Preto. “Pago R$ 10 por dia, numa pensão, apenas para dormir e estou procurando emprego. Mas não quero pedir nada para mim, quero apenas que alguém presenteie minha mãe. Ela mora em uma casa de tábua, paga R$ 120 por mês. Quase não tenho serviço, e o que faço mando pra ela, mas não é suficiente. .” 

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