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Domingo, 16.07.17 às 00:00 / Atualizado em 15.07.17 às 16:55

A tragédia do voo 3054, 10 anos depois

Nany Fadil
Guilherme Baffi Carmen Caballero - 16072017
Carmen Caballero exibe foto com as filhas Júlia e Maria Isabel, mortas no acidente da TAM, há exatos dez anos

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Guilherme Baffi Carmen Caballero - 16072017
Carmen Caballero exibe foto com as filhas Júlia e Maria Isabel, mortas no acidente da TAM, há exatos dez anos

“Não quero, quando reencontrar as minhas filhas, que me digam que ficaram tristes por me verem sofrendo”, diz, entre lágrimas, em um choro baixinho, Carmen Caballero, 49 anos. Ela é mãe de Júlia e Maria Isabel e filha de Maria Elizabete Silva Caballero, três das 199 vítimas do voo 3054, da TAM (hoje Latam). Nesta segunda-feira, dia 17, completam-se dez anos da maior tragédia da aviação brasileira. Até hoje não há culpados oficiais e ninguém foi punido. No mês passado, os três indiciados no caso foram absolvidos em segunda instância, noTribunal Regional Federal em São Paulo.

A impunidade é um agravante às perdas tão sentidas pelos familiares. “Dor, ausência e saudades”, resume Renato Rudnik Gomes, 54, pai de Júlia e Maria Isabel. O voo partiu de Porto Alegre rumo a Congonhas, em São Paulo, onde chovia forte, no fim daquele dia. A aeronave não pousou, percorreu toda a pista 35L, atravessou a cabeceira, passou sobre a avenida Washington Luís e se chocou contra o prédio da TAM Express. Coube ao governador da época, José Serra, anunciar ainda na noite do dia 17, que não havia sobreviventes. 

Além das 187 pessoas que estavam no Airbus, mais dez funcionários da empresa que estavam em solo e duas pessoas em um posto de combustível, que também foi atingido, morreram, num total de 199. Estavam na aeronave a professora aposentada da Unesp de Rio Preto Maria Elizabete, 65 anos, e as netas Júlia Elizabete, 14, e Maria Isabel, 10, a Mimi, filhas de Carmen. Elas voltavam de um passeio de férias no Rio Grande do Sul, onde foram visitar a bisavó das meninas, Irena, e passar alguns dias em Gramado, um sonho antigo de Júlia.

 

Júlia e Maria Isabel - 16072017 Júlia, então com 15 anos, e Maria Isabel, com 10, viajaram com a avó para Porto Alegre

Sonhos

“Não é que eu me lembre delas todos os dias, eu nunca as esqueço. Me pego sonhando como seria hoje com elas aqui. Se eu já seria avó, qual faculdade teriam cursado, como seria a minha casa com minhas três filhas”, diz a professora Carmen, que também é mãe de Lilian, que não viajou por ser um bebê na época.

Nesses dez anos que se passaram, muitas coisas mudaram na vida da família rio-pretense. A pequena Lilian já é uma adolescente de 13 anos, e que sente não ter conhecido melhor as irmãs e a avó. “O tempo que eu passei com elas não foi suficiente. Sei delas pelas histórias que minha mãe conta. Eu sinto falta delas, muita falta”, diz, e os olhos ficam marejados de lágrimas.

Carmen cuidou do pai Alejandro Caballero e teve de enterrá-lo com as filhas e a mãe em 10 de agosto de 2011, quatro anos depois. “O acúmulo de perdas fez eu cair de cama, era uma tristeza muito grande. Por mais que eu soubesse que tinha que ser uma referência para a minha filha Lilian e para os que se foram também, perdi o sentido de viver de forma positiva por um tempo”, diz Carmen.

Chácara

Ela, o atual marido Luiz Carlos Pereira e Lilian se mudaram para uma chácara, onde viveram três anos. Há cerca de um ano e meio, a família passou a morar no apartamento que foi dos pais dela. Carmen voltou a dar aulas há quatro anos, quando se sentiu novamente apta para o trabalho. “Hoje a chácara é nosso refúgio, é o cantinho para onde vamos para ter paz de espírito. Nesses dez anos buscamos uma organização física e mental, nos adaptamos ao silêncio, à ausência, a essa lembrança que é eterna, então é para lá que vamos”, diz. No dia 13 de junho último, Mimi teria completado 20 anos. Em 13 de setembro, Júlia faria 25. 

Essas datas são importantes para a família, que costuma celebrar com orações a “benção” de terem feito parte da vida das meninas. “Agradecemos a Deus pelo presente que elas foram para nós”, diz Carmen, sempre emocionada. Já 17 de julho é uma data de tristeza e dor. “É o dia da minha mutilação. Não me exponho, mas é uma dor que só com Deus dá para levantar e se manter de pé para continuar sendo um exemplo para minhas filhas”, conta. Nesta segunda-feira, como é feito desde a tragédia, uma missa será celebrada em homenagem às três vítimas da família Caballero na paróquia de Santa Edwiges, na Vila Toninho, zona leste de Rio Preto.

 

Arte - Acidente aeroporto - 16072017 clique na imagem para ampliar

Latam diz ter adotado recomendações

A Latam, empresa que surgiu da fusão da LAN e TAM, diz, em nota, que todas as informações sobre as causas do acidente do voo 3054, à época operado sob a marca TAM, foram esclarecidas no relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e que também adotou as recomendações necessárias sobre as mudanças de procedimentos. No total foram 24 orientações feitas pela Aeronáutica. Mas não respondeu ao questionamento se alguém foi responsabilizado administrativamente no caso.

A empresa informa ainda que a indústria aérea evoluiu muito nos últimos dez anos como parte do processo natural de melhoria do setor. “Neste processo, o acidente também trouxe aprendizados. Hoje, a aviação mundial possui regras e protocolos globais ainda mais rígidos de segurança e prevenção.” Quanto às indenizações, a companhia diz que existem duas famílias com ações em andamento. 

A seguradora TAM, responsável pelas indenizações, entrou com uma ação contra a francesa Airbus. A assessoria da Latam diz que os processos estão em andamento e a companhia não pode fazer nenhum comentário sobre essa questão. A nota traz ainda que, a companhia “sempre realizou e continua executando todos os checks e recomendações definidas pelos manuais do fabricante e autoridades aeronáuticas, além de outros checks adicionais preventivos. A segurança é e sempre foi um valor inegociável”, afirma. 

 

Carmen, Luiz Carlos Pereira, e Lilian - 16072017 Carmen com o atual marido, Luiz Carlos Pereira, e a filha Lilian

Famílias lamentam impunidade

“Já que ninguém é culpado, então somos nós, os parentes das vítimas, os culpados por termos confiado as pessoas que amamos à companhia aérea e ao órgão regulador do sistema aéreo brasileiro”, diz Aparecida Bento de Andrade, 70 anos, mãe do empresário do setor esportivo Márcio Rogério Andrade, 36, que morreu no acidente. Ele era de Monte Aprazível, mas morava em Birigui. A aposentada, assim como os demais familiares das vítimas, mostra indignação diante da decisão da Justiça, em segunda instância, de absolver os três acusados no caso. “É a impunidade que prevalece no País”, diz. Mesma opinião da professa Carmen Caballero. 

“Entristece ver que as famílias estão sendo punidas pelas mortes. Nossa perda é tão grande e ninguém foi responsabilizado”. O comerciante Renato Rudnik Gomes, pai de Júlia e Maria Isabel, considera “vergonhosa” a decisão do Judiciário. “A culpa está sendo atribuída aos pilotos, que não podem mais se defender”, diz. No dia 12 de junho de 2017, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) manteve, em segunda instância, a absolvição dos três indiciados, que são o diretor de segurança de voo da TAM, Marco Aurélio dos Santos Miranda e Castro, o vice-presidente de operações da companhia, Alberto Fajerman, e a diretora da Anac Denise Abreu. Ainda cabe recurso no Superior Tribunal Federal (STF).

Aparecida de Andrade pretendia ir ao Memorial para as homenagens de dez anos marcada para este sábado, dia 15. “É importante reunir com as outras famílias. Um apoia o outro, pois todos sentimos a mesma dor”, disse, em entrevista na quarta-feira. Renato Gomes estava na quinta-feira em São Paulo para participar do encontro. Ele faz parte da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da TAM (Afavitam). Marilda Ura, de Birigui, também iria ao memorial. Ela perdeu os dois filhos, André, 26, e Melissa, 29, a neta, Alanis, 2, além do genro, Márcio. Segundo a secretária de Marilda, Suê Ura, ela não pode falar com a imprensa por ter fechado contrato para a publicação da história da família em um livro.

Marilda não compareceu à inauguração do memorial em 17 de julho de 2012, ainda estava muito fragilizada, mas, segundo Suê, ela estaria no sábado, 15, no encontro, em São Paulo. Um grande folder de 2 metros por 1 metro e meio com a foto dos filhos, neta e genro foi confeccionado e seria levado para deixar no memorial. A família de Fernando Volpe Estato, 35, de Bebedouro, não foi encontrada. Na inauguração do memorial, há cinco anos, quando procurada, disse que não falaria mais sobre a tragédia.

 

Memorial 17 de Julho - 16072017 Memorial em homenagem às vítimas do acidente, em São Paulo

Memorial 

A Praça 17 de Julho foi projetada pelo arquiteto de São Paulo Marcos Cartum. O local foi idealizado para ser um espaço de memória ao acidente. Todo o projeto foi pensando em volta de uma árvore que resistiu à tragédia e permaneceu de pé. Em volta dela há um espelho d’água e no muro em volta do espelho foram grafados os nomes das 199 vítimas. Também foram incluídos 199 pontos de luz no chão. O memorial foi construído em uma área de 8 mil metros quadrados onde antes ficavam o prédio da TAM Express, um posto de combustível e algumas casas. 

Congonhas passa por reformas

O acidente serviu para que o aeroporto de Congonhas, o segundo maior em movimento de passageiros do País, passasse por reformas. Segundo a assessoria do Cenipa, diversas mudanças foram realizadas em benefício nos últimos dez anos. “Os conhecimentos adquiridos por meio da investigação do acidente abarcaram temas como aspectos gerenciais da atividade aeroportuária, programa de manutenção da pista, procedimentos operacionais das empresas envolvidas, mecanismos de fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), normas internacionais a respeito dos fatores humanos e sistemas de alarme do A320”, informa.

Segundo a Anac, as duas pistas do aeroporto “encolheram” para que áreas de “escape” fossem consideradas no cálculo de segurança do pouso e decolagem. Antes, a extensão era de 1.940 metros da pista principal, hoje os pilotos devem operar como se a pista tivesse 1.660 metros para pouso e 1.790 para decolagem. Além disso, os aviões de carreira têm de pousar com menos combustível e a pista auxiliar só pode ser usada por eles para decolagens. A Anac determinou ainda que só pilotos com mais de 100 horas de voo, que tenham treinado arremetida após o trem de pouso tocar o solo, podem pousar ou decolar Boings e Airbus em Congonhas. O aeroporto recebeu uma nova torre de controle em 2013 e a pista principal passou por reforma para impedir o acumulo de água no local.

 

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