Painel de Ideias

  • Quarta-feira, 24 de Maio
  • A tarefa de viver é dura, mas fascinante

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Uma seleção de cronistas e articulistas entra em campo para bater bola diariamente com o leitor. O time conta com jornalistas, professores, bibliotecária, médico, escritor, promotor de Justiça e um juiz

Sábado, 20.05.17 às 00:00 / Atualizado em 19.05.17 às 17:31

Como não chorar o leite derramado

Elma Eneida Bassan Mendes
Elma Eneida Bassan Mendes

Não. Não tem. Não tem coisa mais irritante do que a seguinte frase de mãe: - “eu bem que avisei, eu te disse...” Você já tá todo estropiado, lascado, envergonhado, nervoso com a vida, e aí ela chega e para coroar o teu supremo desalento, sapeca um: “agora não adianta chorar o leite derramado”.

Mãe é assim. Nas poucas vezes em que já torturei meus filhos com essas colocações, eu mesma me senti insuportável, intragável, tive peninha de eles terem que ouvir. Mas era meu papel de mãe, e eu não quis fugir do conhecidíssimo roteiro.

A verdade é que tem coisas que certamente vão dar errado. Tem coisa que não só está escrita no gibi, mas também anunciada no outdoor. Vai dar zebra e a pessoa insiste. Não se contenta com advertências, faz biquinho para os alertas, dá beijinho no ombro para o perigo, ignora todas as mensagens de cuidado. Simplesmente não está nem aí para os riscos; aliás, quanto mais rodar no tanque reserva, melhor, mais forte a adrenalina. E aí, na hora que o chão se abre sob teus pezinhos teimosos, chega a mãe e te sapeca o tal do leite derramado.

E que bom que seja assim. Muito bom que existe a mãe, ou o pai (conhecido também pela mesma frase). E chega o irmão ou o amigo. Enfim, chega a galera do bem querer, aquela turma que realmente se importa com você e que não quer te ver esborrachado em tantas quedas.

Comigo, o leite, literalmente, derramou muitas vezes. Cansada, com sono, em pé ao lado do fogão, esperando o bendito ferver para ajeitar as mamadeiras da noite. O “trem” não ia de jeito nenhum, eu, impaciente, ia adiantar algum outro afazer, e me esquecia da caneca na chama por alguns segundos. Mas era a conta de virar, achando que estava no lucro por conseguir fazer alguma outra coisa da lista, e o leite subia, vazava, entornava. Sujava tudo, melava fogão, ó crise. A vontade que dava era chorar mesmo, o ditado é muito bem pensado. E do que ia me adiantar uma profusão de choro? Absolutamente nada.

Quando o leite entorna, quando o caldo engrossa, quando o bicho pega, quando a coisa fica feia, quando o tombo é grande, quando o mundo parece acabar, o melhor a fazer é lamber a ferida, estancar a raiva, repensar a rota, ter humildade pra rever decisões, desacertos e achar um novo e bom caminho. Entender em que pedaço do caminho você se perdeu, pesou a mão, apressou demais o passo, teve olhos muito gulosos, falou além da conta, judiou de quem não conseguiu te acompanhar e largou pra trás o que é realmente valioso.

E isso tem muito a ver com o caos em Brasília. Não fossem tão soberbos e de ambição tão desmedida; não tivessem tripudiado tanto e nos esquecido, fervendo e abandonados à própria sorte numa caneca chamada Brasil, nada disso estaria acontecendo. Mas, agora, a vaca foi pro brejo e o leite derramou. Pode chorar.

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