Painel de Ideias

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Uma seleção de cronistas e articulistas entra em campo para bater bola diariamente com o leitor. O time conta com jornalistas, professores, bibliotecária, médico, escritor, promotor de Justiça e um juiz

Domingo, 18.06.17 às 00:00 / Atualizado em 16.06.17 às 19:42

Causos de velórios

Jocelino Soares
GUILHERME BAFFI artigo_culunista_JocelinoSoares

Minha publicação mais recente aqui nesse espaço, sob o título “O velório de dona Frô”, resultou em manifestações de leitores nas redes sociais, em telefonemas e pessoalmente. Contaram fatos acontecidos com amigos ou familiares.

Meu amigo Lucas Gomes, antigo radialista em Rio Preto, lembrou-me de um caso na mesma fazenda onde morava dona Frô. Lembrou-me que havia se passado pouco mais de dois meses quando morreu seu “Nerso rezadô”. Avisados da morte de tão querida pessoa, para lá acorreram. Mês de julho, o vento frio cortava mais que navalha afiada. Por ser “rezado” de terço, lá dentro, de hora em hora, as pessoas se ajoelhavam e entoavam cânticos e ladainhas para que a alma de tão boa pessoa encontrasse abertas as portas do céu. Lá fora, a friagem era espantada com cachaça, quentão e vinho quente, além, claro, de pão feito em casa e linguiça de porco. Esses artifícios eram para manter o pessoal no local e, além do mais, acordado. Havia sempre aqueles que excediam nos álcoois e logo procuravam um canto no paiol para fugir do frio e sarar da bebedeira.

Ao lado do caixão, como sempre, família e amigos mais próximos. Tem horas em que as conversas raleiam. A sala estava em profundo silêncio, quando foi quebrado por um grande “bizorro” rola-bosta que teimava em fazer voltas na lamparina. Alguém deu um tapa certeiro no inseto. No escuro, ninguém viu onde ele caiu. O bicho entrou por baixo do lençol que cobria o morto e foi se alojar justamente entre as mãos cruzadas sobre o peito. Ali se aquietou por bom tempo até que resolveu sair. O danado forçava a passagem sem sucesso. João Quirino, bêbado que estava, cutucou um dos filhos. Ao ver as mãos do pai se movimentando embaixo do lençol, gritou: “Milagre, meu pai tá vivo!” Quando levantaram o lençol, veio a decepção!

O médico José Ronaldo Stelluto, conhecido lá na sua Embaúba por Tiriba, contou que na infância a vida corria lenta e cheia de dificuldades. As crianças sonhavam com coisas gostosas que somente quem tinha posses podia comprar. Num sítio vizinho ao dele, morreu um senhor. Quase toda cidade compareceu ao velório, inclusive os meninos Zé Rufa, Zé Breu e o Tiriba. Era a primeira vez dos pequenos em um velório.

Por serem “situantes” fortes, o caixão era de primeira, coberto de crisântemos brancos. O defunto, bem vestido, parecia dormir. Tudo muito chique. Zé Rufa não entendeu muito bem tudo aquilo. Ao se aproximar do caixão, confundiu as flores brancas com glacê de bolo de casamento. Segundo Zé Ronaldo, ele era “lombriguento”. Pediu aos amigos em alto e bom som: “Tiriba, Zé Breu, quero um pedaço do bolo!”. Dizem que até a viúva que estava em prantos gargalhou ao ouvir tal pedido!

A jornalista Cecília Demian me ligou pra contar que um padre amigo dela recebeu logo pela manhã ligação para dar extrema-unção a um moribundo que agonizava próximo à vila Carvalho, distrito de Votuporanga. Chovia muito, a estrada era de terra. À tarde, o tempo abriu. Era noitinha quando chegou ao povoado. Ao ouvir choro, percebeu que havia chegado tarde demais, mesmo assim resolveu entrar. Quando os familiares viram aquele homem de batina entrando, foi verdadeiro alvoroço. Os mais afoitos se acotovelaram sobre o caixão tentando se aproximar do vigário. A mesa não suportou o peso. Juntos e misturados, rolando pelo chão, estavam os familiares, o padre e o defunto.

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