Entre Livros e Palavras

  • Quarta-feira, 24 de Maio
  • A tarefa de viver é dura, mas fascinante

Patrícia Buzzini

Tradutora e Doutora em Estudos Linguísticos pela Unesp [email protected]

Domingo, 14.05.17 às 00:00

Evento debate a diversidade de gêneros e suas relações com raça e literatura

Patrícia Reis Buzzini
Divulgação CONGRESSO1_WEB
Participantes do 3º Congresso Nacional e 2º Congresso Internacional de Literatura e Gênero, na Unesp de Rio Preto

Nas vésperas do Dia Internacional contra a Homofobia, no próximo dia 17, foi realizado o 3º Congresso Nacional e 2º Congresso Internacional de Literatura e Gênero, na Unesp de Rio Preto. Organizado pela professora Cláudia Ceneviva Nigro, o evento contou com uma programação diversificada, versando sobre a temática dos gêneros e suas interfaces com a literatura, a política, a raça, o movimento LGBT, o cinema, a psicanálise, o corpo, a contemporaneidade e a linguagem.

A palestra de abertura foi proferida por Letícia Sabsay, professora e pesquisadora na área de cultura contemporânea e gênero da Universidade de Londres (LSE). Sabsay falou sobre a importância de uma “reinterpretação da identidade sexual” e de ações coletivas para garantir a inclusão de grupos distintos na sociedade contemporânea.

Nessa perspectiva, ressaltou que os direitos adquiridos não bastam sem que haja uma aliança com visões mais amplas de justiça social, cidadania e identidade sexual. Com exclusividade, a professora fez uma pausa em suas atividades para uma breve entrevista ao Diário.

Sexismo continua, só que mais sutil

Diário da Região - Como você concebe a ideia de gênero? Você concorda com a visão de gênero como algo culturalmente construído?

Letícia Sabsay - O conceito de gênero surgiu no campo da psicologia, mas a teoria feminista o desenvolveu como um conceito fundamental que nos permite compreender que o sexo ou a diferença sexual não é uma coisa natural. A divisão da espécie humana na forma binária entre homens e mulheres, e as ideias associadas a feminino e masculino são o produto de processos culturais históricos. As diferenças entre os sexos em termos de papéis, modos de comportamento, deveres e hierarquia, relações de poder e desigualdade entre homens e mulheres não são naturais. Sexo é uma teoria que nos permite compreender que o que é dado como diferença natural é realmente uma construção humana. Ainda mais, a teoria de gênero nos ensina que o que entendemos por “sexo natural” é, na verdade também o resultado de perspectivas médicas, científicas, etc. e um produto da organização binária de gênero.

Claudia Nigro_13052017 Claudia Ceneviva Nigro, organizadora do evento, com a professora Letícia Sabsay

Diário da Região - Que tipo de papel desempenha a literatura nesse contexto?

Letícia - A literatura, como outras produções culturais, faz parte dos sistemas de representação do gênero. O gênero é transmitido e aprendido – sendo reproduzido culturalmente por meio de diversos saberes e representações. A literatura é parte deles. Ao mesmo tempo, a literatura pode servir, como outras produções culturais, para desafiar a naturalização das desigualdades de gênero e contribuir para a mudança social em prol de uma sociedade mais justa para todos.

Diário - Durante muito tempo, as mulheres foram representadas com uma linguagem machista e redutora pela mídia publicitária. Que mudanças ocorreram nesse aspecto até o momento?

Letícia - As representações de mulheres e da feminilidade veiculadas pela mídia mudaram radicalmente, e hoje temos pontos de vista mais abertos e democráticos sobre o gênero. No entanto, o sexismo continua na agenda, talvez de maneiras mais sutis. As visões masculinistas do passado não são as mesmas de hoje, o sexismo também sofreu transformações em paralelo com as mudanças sociais, mas isso não significa que há menos sexismo. Se o sexismo típico da década de 1950 vinculava a mulher ao lar e ao cuidado com os filhos, a persistente sexualização do corpo feminino na atualidade deixa muitas perguntas: algumas vezes funciona como um sinal de emancipação das mulheres, mas em muitas outras sugere que o valor da mulher esteja ligado apenas à capacidade de atrair o desejo e os olhares masculinos. E às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Ambivalência é o que reina neste campo.

Diário - Qual é a importância de movimentos feministas como a Marcha das Vadias, por exemplo, para a conscientização a respeito da violência contra mulheres, especialmente na América Latina?

Letícia - Eu acho que movimentos como “A Marcha das Vadias” são extremamente importantes para aumentar a consciência entre as mulheres de que seus corpos continuam sendo campos de batalha de poderes masculinizantes e patriarcais. O movimento “Ni una menos” (Nem uma a menos), nesse sentido, está fazendo um trabalho magnífico. Mostrando que a violência de gênero é sistemicamente sustentada por uma cultura machista e baseada na desigualdade de gênero estrutural. O “Ni una menos” tem mostrado que não se trata, simplesmente, de um problema individual, mas de um problema político.

Diário - Em seu livro “Vulnerabilidade em Resistência”, você sugere uma "política de resistência corporal". O que isso significa?

Letícia - Seguindo as ideias de Judith Butler, refiro-me à “resistência corporal” como a força e o poder de nossas ações coletivas para resistirmos às situações de injustiça e de violência, por exemplo. Colocar o corpo na resistência contra a desigualdade e a democracia parece ser uma exigência do momento atual.

CONGRESSO2AAA_WEB Gestora cultural Isabel Ortega (com o microfone), ao lado da professora Edilene Gasparini Fernandes

Convivência de paz deve prevalecer

O encerramento do evento também contou com a presença da gestora cultural Isabel Ortega (Madrid), idealizadora da Jornada Internacional de Mulheres Escritoras. Isabel discorreu sobre a violência de gênero e relembrou mulheres cujas vidas foram marcadas por grandes superações, como a cientista polonesa Marie Curie, primeira mulher a receber um Prêmio Nobel, a dramaturga Consuelo de Castro e a escritora Lígia Fagundes Telles. Antes de partir, falou ao Diário da Região sobre a sua participação no evento e os planos para a próxima Jornada Internacional de Mulheres Escritoras.

Diário da Região - Qual foi a sua sensação ao participar de um evento que reflete acerca da noção contemporânea de gênero? É possível falar de uma “literatura feminina”?

Isabel Ortega - Participei como conferencista de um evento, cujo foco essencial é o respeito entre os humanos, cada um com suas especificidades e valores. Fazemos parte de uma sociedade diversificada, onde a convivência pacificadora deverá ter sempre o protagonismo. Não entendo a literatura como feminina ou masculina. Existe boa ou má literatura, escrita por homens e por mulheres.

Diário - Embora também conte com a participação de escritores, a Jornada Internacional de Mulheres Escritoras desempenha um papel importante na divulgação do trabalho de mulheres na literatura. Você acredita que as escritoras ainda sofrem algum tipo de discriminação no mercado editorial latino-americano?

Isabel - As escritoras, assim como as mulheres, sempre estiveram num segundo plano, infelizmente ainda. A Jornada de Mulheres Escritoras tem como prioridade dar visibilidade, ser um espaço para a exposição e troca de ideias entre todos os que participantes. Público, homens e mulheres.

Diário - Como está o planejamento da próxima jornada que, este ano, comemora a sua décima edição? Haverá alguma programação especial?

Isabel - Sim comemoramos dez anos da Jornada em Rio Preto e alguns anos em São Paulo. Estamos no processo de organização de um programa com participações importantes, sempre como foco principal insistir na existência do evento, a literatura e a mulher no “empoderamento”.

O encerramento do evento também contou com a presença da gestora cultural Isabel Ortega (Madrid), idealizadora da Jornada Internacional de Mulheres Escritoras. Isabel discorreu sobre a violência de gênero e relembrou mulheres cujas vidas foram marcadas por grandes superações, como a cientista polonesa Marie Curie, primeira mulher a receber um Prêmio Nobel, a dramaturga Consuelo de Castro e a escritora Lígia Fagundes Telles. Antes de partir, falou ao Diário da Região sobre a sua participação no evento e os planos para a próxima Jornada Internacional de Mulheres Escritoras.

Diário da Região - Qual foi a sua sensação ao participar de um evento que reflete acerca da noção contemporânea de gênero? É possível falar de uma “literatura feminina”?

Isabel Ortega - Participei como conferencista de um evento, cujo foco essencial é o respeito entre os humanos, cada um com suas especificidades e valores. Fazemos parte de uma sociedade diversificada, onde a convivência pacificadora deverá ter sempre o protagonismo. Não entendo a literatura como feminina ou masculina. Existe boa ou má literatura, escrita por homens e por mulheres.

Diário - Embora também conte com a participação de escritores, a Jornada Internacional de Mulheres Escritoras desempenha um papel importante na divulgação do trabalho de mulheres na literatura. Você acredita que as escritoras ainda sofrem algum tipo de discriminação no mercado editorial latino-americano?

Isabel - As escritoras, assim como as mulheres, sempre estiveram num segundo plano, infelizmente ainda. A Jornada de Mulheres Escritoras tem como prioridade dar visibilidade, ser um espaço para a exposição e troca de ideias entre todos os que participantes. Público, homens e mulheres.

Diário - Como está o planejamento da próxima jornada que, este ano, comemora a sua décima edição? Haverá alguma programação especial?

Isabel - Sim comemoramos dez anos da Jornada em Rio Preto e alguns anos em São Paulo. Estamos no processo de organização de um programa com participações importantes, sempre como foco principal insistir na existência do evento, a literatura e a mulher no “empoderamento”.

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