Entre Livros e Palavras

  • Terça-feira, 22 de Agosto
  • Se não existe esforço, não tem progresso!

Patrícia Buzzini

Tradutora e Doutora em Estudos Linguísticos pela Unesp [email protected]

Segunda-feira, 18.05.15 às 21:21

Entrevista com Marcos Siscar

Patrícia Reis Buzzini
www.sescsp.org.br

ENTREVISTA COM MARCOS SISCAR

 

É fácil conciliar a carreira de professor universitário com a carreira de escritor? Quais são os desafios?

A escrita literária para mim não é uma “carreira”, pelo menos não no mesmo sentido que a universitária. Sou professor e pesquisador quase que em tempo integral. Escrevo muito mais ensaios do que textos literários. Mas essa carreira profissional só existe para mim, com a importância que lhe atribuo, porque escrevo poesia. É verdade que alguns escritores vivem do que escrevem: além de publicar, dão conferências, participam de eventos, feiras de livros etc. Faço coisas desse tipo, também, mas episodicamente; não vivo principalmente da escrita literária. Então, para mim, a questão essencial da convivência entre as duas coisas acaba sendo a da disponibilidade para levar adiante os projetos de escrita poética. Essa equação é bem difícil, sim. Chega a ser frustrante, porque é na poesia que invisto meu desejo de dar forma, que também é um modo de dar sentido à vida. Por outro lado, a atividade de professor oferece, a quem escreve, a enorme vantagem de poder refletir quase que ininterruptamente sobre a literatura dos outros, algo que é importante para qualquer escritor. Embora nem sempre eu possa escolher a dosagem adequada de cada coisa, eu diria que essas duas atividades não são exatamente concorrentes, mas inquietantemente complementares.

 

Como você descobriu que poderia escrever poesia?

Acho que como todo mundo: escrevendo. Em algum momento, olhei o que tinha escrito e me convenci de que aquilo era “texto”, e não apenas uma “confissão”, um relato de alguma experiência vivida. Imediatamente, associei aquele texto com a palavra “poesia”, que era o nome da escrita que, a meus olhos, dava atenção para coisas ainda sem gênero definido. Foi numa época em que estava descobrindo o prazer de ler, de modo que escrever poesia acabou sendo uma atividade quase simultânea ao encontro com a leitura. Como morava num lugar pequeno, nunca fiz oficina de escrita criativa, nem tinha amigos que escreviam. Poderia ter sido interessante, mas não aconteceu. Então, a poesia foi uma descoberta bastante solitária, e com muita dificuldade de acesso à informação (as bibliotecas eram ruins e não havia livros em casa). Mas rapidamente fui percebendo que até mesmo os escritores muito conhecidos tinham tido suas dificuldades de percurso, suas trajetórias. Que eu precisava tomar em mãos as minhas vontades e as minhas decisões.

 

“Metade da Arte” (2003) apresenta poemas intensos e elaborados, que dialogam com imagens de lugares, psicanálise, arte e outras obras literárias. O que você considera mais especial nesse livro?

Metade da Arte é uma coletânea que reúne livros que escrevi entre 1993 e 2003 (dois livros inéditos e dois já então publicados). É um período que corresponde a uma estadia relativamente longa no exterior e à minha volta ao Brasil. Os textos remetem a lugares, é verdade: a lugares da infância interiorana, a paisagens da experiência francesa e a novos espaços que se abriam naquele momento de grande mudança. Mas esses lugares estão sempre misturados com sensações e experiências muito imediatas, muito cotidianas. Quem lê os textos pela primeira vez, pode ficar surpreso com o modo como eles fazem passagens rápidas entre coisas muito diferentes, distantes, às vezes contrastantes, o que lhes dá um aspecto “elaborado”, como você diz. Há também, de vez em quando, associações bruscas entre experiências muito simples e referências provocativas a discursos refinados (como a psicanálise), ou a outras obras poéticas. Claro que estar informado sobre as referências de um texto ajuda a entendê-lo de modo muito mais interessante. Mas um leitor de poesia, além da curiosidade pelas coisas que não conhece, precisa também se dar uma certa liberdade na hora de ler: não ficar preso à necessidade de compreensão imediata, dispor-se a reler, ser generoso com as possibilidades de sentido que as misturas de palavras e os encadeamentos de frases vão criando. Não é por acaso que Metade da Arte é um livro sem pontuação. Ele aposta nessa ideia de poesia, nessa liberdade de leitura. Se há “intensidade” nos textos, como você diz, não é só porque os temas são tratados de modo grave, visceral, mas também porque eles supõem um leitor que se disponha a jogar esse jogo. Algumas vezes, o poema parece um quebra-cabeça, precisa de tempo para ser lido; outras vezes, o efeito pode ser rápido, como algo que tira o fôlego. Para isso funcionar, é preciso envolvimento, colaboração do leitor.

 

As suas últimas obras publicadas, “O Roubo do silêncio” (2006) e “Cadê uma coisa” (2012) trazem poemas em prosa e uma linguagem mais discursiva. A que você atribui essa mudança? Podemos inferir que são obras mais acessíveis ao público em geral?

A diferença essencial é que não são livros escritos em verso, com outra forma de concatenação de palavras e frases: uma escrita menos condensada, menos minimalista, por assim dizer. Mas são livros de “poesia”, do mesmo modo, ou seja, textos que se alimentam do espanto que temos diante das coisas da vida. O roubo do silêncio não deixa de fazer misturas inusitadas, inclusive entre sensações e ideias, embora o “tema” de cada texto seja mais facilmente reconhecível. Cadê uma coisa é um livro que escrevi para meu filho, cheio de referências a percepções infantis em relação às coisas (às árvores, mais especificamente). E tem as ilustrações muito originais e muito bonitas de Sofia Vaz. Gosto de pensar nele como um exercício de simplicidade, uma tentativa de tomar contato com as coisas de modo simples. Não se trata de pensar igual a uma criança, mas de tentar olhar para o mundo com o mesmo grau de abertura e de curiosidade. Entre esses dois livros, publiquei um outro chamado Interior via Satélite (em 2010). É um livro de que gosto muito, também, que mistura poemas em prosa e poemas em verso.

 

Em “Poesia e Crise: ensaios sobre a crise da poesia como topos da modernidade”, você afirma que “a poesia tem papel ativo na constituição de nossa relação com a linguagem e, sem dúvida alguma, de nossa relação com a realidade” (2010, p. 09). Nesse sentido, qual é o papel da poesia nos tempos atuais?

Para alguém que tem uma relação mínima de envolvimento com poesia, a resposta é mais ou menos imediata: a poesia continua sendo, como sempre foi, uma das formas de discurso que ajuda a constituir um ponto de vista sobre o mundo, assim como a convivência com qualquer obra de arte. Observar um quadro, ouvir com atenção uma peça musical, frequentar apresentações teatrais ajuda a educar não só a nossa sensibilidade, o nosso modo de sentir, como também nos leva a reagir de determinadas maneiras diante de situações práticas da vida. Observar a experiência limite de um outro, a maneira com que o poeta (por exemplo) tem de elaborar seu estar-no-mundo, ajuda a tirar consequências para os nossos próprios dilemas. As obras artísticas não são apenas sentimentos e ideias: elas apresentam uma perspectiva diante da vida, com as quais dialogamos e a partir das quais podemos tirar outras conclusões. Mas talvez sua pergunta se refira ao papel público da poesia, à importância que a poesia tem, socialmente. Nesse sentido, o que meu livro tenta mostrar é que a ideia da decadência (de crise, de fim) é uma preocupação constante da poesia e dos poetas, há séculos, mesmo nos momentos em que a literatura teve maior prestígio social. Essa maneira de falar de sua própria marginalidade em relação aos discursos sociais dominantes – o político e o econômico – é um modo de a poesia ser “crítica”. Ao falar de seu próprio caso, o que acaba ficando claro é a violência que funda as relações entre as diversas práticas sociais, os movimentos de exclusão e de substituição cultural motivados por interesses de outra ordem. O que meu livro sugere é que a poesia não apenas vem “sobrevivendo” à decretação de sua nulidade como se alimenta dela, levantando essa questão ininterruptamente, mantendo-se como um lugar possível de resistência.

 

Você tem novos projetos na literatura?

Acabo de terminar um livro que tem um título meio divertido: Manual de flutuação para amadores. É um conjunto de poemas em que as imagens da flutuação (no ar e na água), da queda (e do afundamento), do ver as coisas do alto aparecem de várias maneiras. A ideia é mostrar o quão complicada é a ideia de estabilidade que vem junto com a expressão “manter os pés no chão”. O sentido da própria palavra “chão”, aparentemente tão definido, é algo muito mais complexo do que costumamos admitir. O livro deve sair ainda este ano pela Editora 7 Letras.

 

Semanalmente, selecionamos alguns poemas para publicação em nosso blog. Você poderia compartilhar um dos poemas que marcaram sua vida? 

São tantos que mal cabem na estante. Mas vou citar um relativamente recente de que gosto muito, da Ana Cristina Cesar, cujo livro A teus pés (publicado em 1982) é um dos “clássicos” da poesia brasileira contemporânea.

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

 

 

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