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COMPORTAMENTO

Adultos também são vítimas de bullying

Não são apenas as crianças e adolescentes que sofrem com as atitudes agressivas, intencionais e repetitivas

Francine Moreno - 04/01/2020 00:04

Muito se fala sobre o bullying na infância e como a perseguição sistemática, ofensiva ou constrangedora faz mal para a saúde mental das crianças e pode influenciar no desenvolvimento de transtornos mentais, como depressão, ansiedade e até risco mais alto de suicídio. Por outro lado, o tema é pouco discutido na vida adulta. O fato é que as intimidações não são algo isolado da turma dos pequenos e infelizmente também são muito frequentes no universo das pessoas maduras, seja no trabalho, vida social, meio acadêmico ou rede social.

A psicóloga Denise Diniz, coordenadora do setor de gerenciamento de estresse e qualidade de vida da Unifesp, afirma que, assim como na sala de aula, um escritório, que é um ambiente profissional, também pode ser palco para conflitos que envolvem humilhação persistente. E de que forma o bullying acontece? Basta diminuir um colega de trabalho em uma reunião para colocá-los em situação constrangedora, realizar críticas vazias e desnecessárias, fazer piadas sobre o peso ou orientação sexual. O agressor persegue, denigre, desmoraliza, ataca e humilha o indivíduo que elege como seu alvo.

A violência moral, que se caracteriza basicamente por atitudes agressivas e preconceituosas de alguma pessoa direcionadas à outra, é feita geralmente por adultos com dificuldade de empatia, que possuem forte gosto pela sensação de poder sobre o outro. Às vezes, ele já é pai e mãe e se presta a esse papel. A personalidade do praticante tende a ser provocativa e intimidadora. Narcisista, ele quer ser mais forte ou melhor do que a outra pessoa. Muitos têm a consciência do seu ato de maldade e gostam de praticá-lo. Alguns podem ter vivenciado o bullying na infância e agora são os agressores porque querem demonstrar a sua soberania sobre o outro.

A psicóloga Denise afirma que o bullying nada mais é que uma intimidação regular e persistente. "É mais do que um ataque de raiva ou uma gozação ocasional. O praticante intimida e não faz isso só uma vez. No entanto, as causas são inúmeras."

 

Mundo corporativo

No trabalho, por exemplo, a pessoa pratica a intimidação e a humilhação para neutralizar o desempenho do outro e diminuir a autoestima do colega com a intenção de ferir a autoconfiança ou para se exibir para o resto da equipe. Ele, que quer popularidade, entra num padrão de comportamento que mostra, na verdade, insegurança e imaturidade", afirma Denise Diniz.

O ciúmes e a inveja podem ser motivos para a perversidade. Os diretores, gerentes e líderes em geral devem tomar uma atitude quando percebem este costume, segundo Denise Diniz. Principalmente porque algumas situações não ficam explícitas e não são denunciadas pela vítima. "A empresa pode ou não permitir que isto aconteça, pois ninguém é melhor do que ninguém e cada um tem as suas limitações. Além disto, o bullying é um comportamento negativo e as consequências para ambos podem ser devastadoras. Antes de tudo é preciso respeitar."

Enfrentamento na real

Não é novidade pra ninguém o quanto a prática do bullying tem crescido na sociedade atual. É fácil encontrar alguém que já sofreu uma perseguição sistemática, ofensiva ou constrangedora, seja no trabalho ou em sua rede social, por um período curto e grave ou diluído, porém persistente. A psicóloga e mestre em ciências da saúde Karina Younan afirma que o grande problema é que, na grande maioria das vezes, a vítima não recebe apoio e credibilidade daqueles que a rodeiam, que acabam julgando a situação apenas como fofoca e picuinha, o que torna a experiência ainda mais sofrida.

Para Karina, identificar uma caso de bullying é o primeiro passo para tratar o problema. O autocontrole emocional também precisa ser desenvolvido para não ser afetado pelo bullying. É importante ainda centrar-se em seus valores e convicções para sair desta situação. Outra forma de reagir a agressão é buscar recursos pessoais para não se deixar intimidar pelo praticante, pois ele irá se frustar ao não ver o sofrimento do alvo. Caso não consiga emponderar-se sozinho, é preciso buscar ajuda de um especialista em comportamento para ter apoio, desenvolver a assertividade e restabelecer a autoconfiança.

Saída judicial

O promotor de Justiça Lélio Braga Calhau, que é graduado em psicologia e mestre em direito do estado e cidadania pela UGF-RJ, lançou o livro "Bullying: o que você precisa saber", pela editora Rodapé, e afirma que o bullying, que é algo sério, hoje é bastante disseminado, mas combatê-lo ainda é um grande desafio.

Na obra, o autor aponta algumas dicas e soluções comportamentais e jurídicas para identificar, prevenir e combater o problema. A saída judicial, por exemplo, é demorada, cara e pouco eficiente para mudar a vida do alvo do bullying para melhor. "Indenização nenhuma vai repor a tranquilidade dele. Mas não descarte essa possibilidade. Apenas deixe para usar essa opção como última alternativa", finaliza.

Na realidade e na ficção

A psicóloga Miriam Farias afirma que a série "13 Reasons Why", por exemplo, é um dos maiores sucessos da história da Netflix e aborda a prática de maneira desconcertante e realista. O bullying pode aparecer de forma disfarçada, através de brincadeiras, piadas e gracinha", mas, muitas vezes, se apresenta através de agressão física, verbal e psicológica.

Segundo ela, os grupos mais vulneráveis ao bullying são os grupos minoritários, aqueles que fogem do padrão ou comportamento social, os chamados "diferentes". A especialista afirma que a intensidade e como a pessoa sente a experiência com o bullying pode determinar um comprometimento emocional ou não. "O tratamento para minimizar as consequências do bullying pode ser realizado por um psicólogo que trabalhe com hipnose clínica. Através das técnicas de regressão de memória para investigar e tratar os sentimentos e emoções daqueles que foram submetidos ao bullying."

Perfil de quem pratica o bullying

O praticante de bullying pode conter alguns dos traços negativos da personalidade, também conhecida como a "tríade obscura da personalidade", que é composta por narcisismo, psicopatia e maquiavelismo

Pessoas narcisistas tendem a se concentrar em si mesmas, fantasiar com poder ilimitado e precisar da admiração constante dos outros

A psicopatia, isto é, falta de empatia com os demais, é a característica própria de pessoas manipuladoras, não confiáveis e que não se importam com os sentimentos ou interesses de outras pessoas

O curioso caso levou à descoberta de que temos 'dois cérebros'

No "maquiavelismo", costumam ter atitudes cínicas e adotam estratégias cujo único propósito é beneficiar seus próprios interesses

Fonte: Armando Ribeiro, psicólogo

Ameaça digital

Com a internet, o bullying ganhou força no mundo virtual, mas suas consequências afetam e muito a vida real. Trata-se do cyberbullying. A psicóloga Miriam Farias afirma que, com a tecnologia, algumas pessoas usam a internet para praticar o cyberbullying, que é uma nova modalidade para expressar a agressão contra o outro. "A diferença entre o bullying e o cyberbullying é que o bullying é realizado pessoalmente e o cyberbullying é praticado pela internet", finaliza Miriam.

O psicólogo Armando Ribeiro afirma que precauções precisam ser tomadas para se proteger do cyberbullying. "O assédio moral ou 'mobbing' deve ser totalmente repudiado pela cultura organizacional, através de um código de ética explícito com relação a reprovação de condutas que envolvam 'humilhação' e/ou 'submissão' de colegas em nome de práticas motivacionais para alcançar metas. As redes sociais podem exacerbar uma 'piada interna' (forma de bullying) levando ao constrangimento pessoal fora do contexto do trabalho. A justiça brasileira já tem mecanismos para penalizar o bullying virtual, através de provas adquiridas no próprio ambiente virtual."

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