Diário da Região

29/09/2019 - 00h30min

TELEVISÃO

Quinta adaptação do romance Éramos Seis estreia na Globo

Em sua quinta versão para a TV, novela aposta em dramas familiares atemporais

TV Globo/Divulgação O casal protagonista, Gloria Pires e Antonio Calloni, e os filhos
O casal protagonista, Gloria Pires e Antonio Calloni, e os filhos

Quando escreveu o livro 'Éramos Seis', lançado em 1943, Maria José Dupré certamente não fazia ideia do alcance que sua história teria. Estreia nesta segunda-feira, 30, 76 anos depois, a quinta adaptação para a TV do romance. A nova novela das 18h da Globo explora a saga da família Lemos, principalmente entre as décadas de 1920 e 1940. E é narrada pela personagem principal, Lola, uma mãe de quatro filhos que precisa aprender a lidar com as perdas e as transformações que sua vida passa ao longo dessa trajetória.

A batalhadora e sensível tricoteira já foi vivida por Gessy Fonseca na RecordTV, em 1958; por Cleyde Yáconis na Tupi, em 1967; por Nicette Bruno, também na Tupi, em 1977; e por Irene Ravache no SBT, há 25 anos. Agora, depois de um ano fora do ar e reservada especialmente para a função, Gloria Pires encarna a heroína. Na trama, ela é casada com Júlio (Antonio Calloni) e os dois lutam para honrar as prestações da nobre casa que decidiram comprar na Avenida Angélica, na zona central de São Paulo, que exige o pagamento de juros anuais altíssimos.

"A novela é sobre os laços que se estabelecem na vida e a importância da solidariedade num contexto que pode ser adverso. É sobre Lola, como ela faz para manter a união e a harmonia familiar. Sobre a força dessa mulher e de sua família, que vive com poucos recursos, mas cercada de amor", explica a autora Angela Chaves.

'Éramos Seis' foge da estrutura convencional dos folhetins, pois não aposta em vilões e mocinhos. Há apenas aqueles parentes e vizinhos que ajudam mais, os que são esnobes ou embates familiares. Lola e Júlio são pais de Carlos (Xande Valois/Danilo Mesquita), Alfredo (Pedro Sol/ Nicolas Prattes), Julinho (Davi de Oliveira/André Luiz Frambach) e Isabel (Maju Lima/Giullia Buscacio). Os dois mais velhos, Carlos e Alfredo, por exemplo, sempre brigam. O primeiro é o garoto exemplar, enquanto o outro se envolve em confusões na vizinhança e na escola.

"Famílias têm conflitos atemporais. É o jeito como se comporta, como ama, como lida com as pessoas e com as diferenças entre todos, até porque é uma galera que vive sob o mesmo teto. Acho que esse é um fator determinante, inclusive, para que essa novela tenha feito sucesso em todos os anos em que foi produzida", avalia Nicolas Prattes. 

Como o folhetim se divide em fases, o público poderá acompanhar o crescimento dos quatro irmãos. Carlos, por exemplo, na década de 1930, estuda Medicina, enquanto Alfredo se torna um jovem idealista e militante. Já Isabel é uma garota que se recusa a aceitar certas regras e costumes impostos pela sociedade, enquanto Julinho cursa Engenharia.

"Quem leu o livro sabe que, ali, há uma dureza que ninguém ousou colocar nas adaptações televisivas. A ideia é ter esse pano de fundo, mas mostrar por um ângulo inspirador, que faça as pessoas acreditarem nos seus sonhos e seus propósitos. E se dedicarem para realizarem aqueles desejos. Eu aprendi a fazer tricô para a novela. Adorei. Só não tenho muito tempo para praticar em casa. Isso mostra um pouco o clima que a gente vai ver nas cenas", comenta Gloria Pires, que entrega quais foram as principais inspirações para o papel. "Minha mãe e minha avó paterna. As duas eram muito amigas e tinham essa sororidade, um termo moderno, mas que elas já exercitavam", diz.

 

Quem é quem

Lola (Gloria Pires) - Mulher que vive para cuidar dos filhos e do marido. Esposa e mãe devotada, tem como orgulho da vida a casa onde mora com a família, comprada através de um financiamento. Para ajudar nas despesas, vende peças de tricô feitas por ela.

Júlio (Antonio Calloni) - Marido de Lola, é apaixonado pela esposa e por sua família, mas não consegue ter com os filhos a mesma relação amorosa que a esposa estabeleceu com eles. Vendedor de uma loja de tecidos, deseja ser rico e sonha com uma sociedade na empresa. Frequenta um cabaré onde tem Marion (Ellen Rocche) como amante fixa e confidente para seus conflitos mais íntimos.

Carlos (Xande Valois/Danilo Mesquita) - Certinho e estudioso, o filho mais velho de Lola (Gloria Pires) e Júlio (Antonio Calloni) sonha ser médico. O adolescente nutre uma paixão por Inês (Gabriella Saraivah/Carol Macedo) e é correspondido. Tem uma relação conflituosa com o irmão Alfredo (Pedro Sol/Nicolas Prattes), mas, ao mesmo tempo, é o filho mais companheiro de Lola e não mede esforços para ajudá-la quando a família enfrenta sérias dificuldades financeiras.

Alfredo (Pedro Sol/Nicolas Prattes) - O mais bonito e genioso dos filhos de Lola (Gloria Pires) e Júlio (Antonio Calloni) se envolve em confusões o tempo todo e não tem bom desempenho na escola. Além disso, rivaliza com Carlos (Xande Valois/Danilo Mesquita), não se entende com o pai e abusa da paciência da mãe. Mas, apesar da rebeldia nata, tem bom coração e seu idealismo o levará a caminhos surpreendentes na vida adulta.

Julinho (Davi de Oliveira/André Luiz Frambach) - É o filho mais ambicioso de Lola (Gloria Pires) e Júlio (Antonio Calloni). Desde pequeno, sonha ser engenheiro.

Isabel (Maju Lima/Giullia Buscacio) - A caçula de Lola (Gloria Pires) e Júlio (Antonio Calloni) é o xodó do pai, que faz todas as suas vontades. A situação incomoda Lola, que não concorda com o tratamento diferenciado dispensado pelo marido à filha.

Maria (Denise Weimberg) - Mãe de Lola (Gloria Pires), Clotilde (Simone Spoladore) e Olga (Maria Eduarda de Carvalho), é uma famosa doceira de Itapetininga. Com a venda de seus quitutes caseiros sustentou, sozinha, as filhas, depois que o pai delas morreu. Conta com a ajuda de Candoca (Camila Amado), sua irmã mais nova, para entregar os doces que vende por encomenda.

Clotilde (Simone Spoladore) - Irmã do meio de Lola (Gloria Pires), é prestativa, companheira, amorosa com os sobrinhos, mas muito rígida e exigente consigo mesma. Conhece e se apaixona por Almeida (Ricardo Pereira), vendedor na loja de tecidos e melhor amigo de Júlio (Antonio Calloni). Contudo, logo decepciona-se com a descoberta de que ele é desquitado e que, por conta das leis e costumes da época, não pode se casar com outra mulher.

Olga (Maria Eduarda de Carvalho) - A irmã caçula de Lola (Gloria Pires) e Clotilde (Simone Spoladore) é a mais fogosa das três. Sonha se casar com um homem rico, da cidade, e desdenha da paixão de Zeca (Eduardo Sterblitch), por seu jeito caipira. Mas, no fundo, é apaixonada por ele, e tentará fazer de Zeca um homem rico.

Candoca (Camila Amado) - Irmã mais nova de Maria (Denise Weimberg), não se casou. É preguiçosa, moralista e faladeira, mas também muito carinhosa com as sobrinhas.

Zeca (Eduardo Sterblitch) - Namorado de Olga (Maria Eduarda de Carvalho) em Itapetininga, é farmacêutico, doce e divertido, mas também meio bronco.

Shirley (Barbara Reis) - É mãe de Inês (Gabriella Saraivah/Carol Macedo) e vive amargurada por ter sido rejeitada quando estava grávida. Deixou, então, o passado na Bahia e foi para São Paulo, recomeçar a vida ao lado de Afonso (Cássio Gabus Mendes). É arredia, às vezes até agressiva, devido às situações difíceis que viveu no passado.

Inês (Gabriella Saraivah/Carol Macedo) - Menina linda e inteligente, acredita ser filha de Afonso (Cássio Gabus Mendes) e sentirá muito quando descobrir que não é. Não se dá bem com a mãe e os conflitos se agravam quando, na juventude, se apaixona por Carlos (Xande Valois/Danilo Mesquita) e Shirley (Barbara Reis) tenta mantê-los afastados.

Afonso (Cássio Gabus Mendes) - Dono de um armazém na Avenida Angélica, acolheu Shirley (Barbara Reis) e Inês (Gabriella Saraivah/Carol Macedo), a quem assumiu como sua própria filha. É gentil e caridoso, principalmente com Lola (Gloria Pires), por quem tem um grande afeto. Quando João Aranha (Caco Ciocler) aparece, luta para manter sua família unida e teme a reação de Inês ao descobrir que não é sua filha biológica.

João Aranha (Caco Ciocler) - Pai biológico de Inês (Gabriella Saraivah/Carol Macedo), tem uma família rica que não aceitou seu namoro com Shirley (Barbara Reis). Assim como ela, foi enganado e, após descobrir, passa anos à sua procura.

Genu (Kelzy Ecard) - Esposa de Virgulino (Kiko Mascarenhas), com quem teve Lili (Bruna Negendank/Triz Pariz) e Lúcio (Arthur Gama/Jhona Burjack). Vizinha de Lola (Gloria Pires), é sua amiga leal e também a maior fofoqueira da rua. Desconfiada, chega a seguir os passos do marido para tentar descobrir se ele tem uma amante.

Virgulino (Kiko Mascarenhas) - O marido de Genu (Kelzy Ecard), pai de Lili (Bruna Negendank/Triz Pariz) e Lúcio (Arthur Gama/Jhona Burjack) trabalha na telefônica e é um sujeito íntegro e politizado.

Emília (Susana Vieira) - Solitária, é viúva de um homem riquíssimo e irmã do pai de Lola. Tem duas filhas, Justina (Julia Stockler) e Adelaide (Joana de Verona). Enquanto Adelaide estuda, desde criança, em um colégio interno na Suíça, Justina tem um distúrbio mental, não diagnosticado pela medicina da época, e mora com ela.

Almeida (Ricardo Pereira) - Melhor amigo de Júlio (Antonio Calloni), com quem trabalha na loja de tecido de Assad (Werner Schünemann). Almeida é um rapaz honesto, mas quando se apaixona por Clotilde (Simone Spoladore), não tem coragem de revelar que é desquitado.

Assad (Werner Schünemann) - Libanês, dono da loja de tecidos, casado com Luci (Lavínia Pannunzio), com quem teve Soraia (Melissa Nóbrega/Rayssa Bratillieri). O que tem de tino comercial, lhe falta em generosidade com os funcionários. Depois que a primeira mulher morre, casa-se com Karine (Mayana Neiva), mais jovem e interesseira.

Luci (Lavínia Pannunzio) - Esposa de Assad (Werner Schünemann), é esnobe, frívola e faz todas as vontades da filha Soraia (Melissa Nóbrega/Rayssa Bratillieri). Obriga os filhos de Júlio (Antonio Calloni), funcionário de seu marido na loja de tecidos, a brincar com Soraia.

Marion (Ellen Rocche) - Dançarina, amante e confidente de Júlio (Antonio Calloni) no cabaré frequentado por ele e Almeida (Ricardo Pereira). Apesar da experiência de vida, se ilude na expectativa de que um dia o amado deixe a família e venha ser feliz com ela.

Felício (Paulo Rocha) - Advogado íntegro, experiente e seguro, será o grande amor de Isabel (Maju Lima/Giullia Buscacio). Seria o genro ideal para Lola (Gloria Pires), se não fosse desquitado.

análise

'Éramos Seis' e o imaginário brasileiro

Há alguns anos, escrevi um texto sobre telenovela a convite da editoria de Cultura do Diário da Região. Nele, mencionava como a telenovela diária foi e, em certa medida, continua sendo o suporte da catarse do povo brasileiro. Assistimos ao longo dos anos os dramas da chamada novela verdade, que teve como alguns de seus expoentes Janete Clair, Gilberto Braga e Sílvio de Abreu. De lá para cá, muitas coisas mudaram com relação ao gosto da população com a teledramaturgia que foi objeto de uma série de inflexões que parecem ser um retorno a um gosto passado: tramas menos densas, dramas mais cotidianos e uma certa rejeição do público pela representação da violência urbana - sobretudo carioca - transposta para a tela. As pessoas querem menos atualidade e menos verdade na sua novela de todo dia.

"Éramos Seis" permanece, desse modo, como uma espécie de grande trunfo para conquistar essa faixa de público. Adaptada pela quinta vez para a televisão, a novela teve a sua última versão estrelada há 25 anos por Irene Ravache no SBT, que, então, investia pesado na criação de um núcleo de teledramaturgia. Antes, fora adaptada pela extinta Tupi, com Nicette Bruno no papel de Dona Lola, e, agora, volta às telas com Glória Pires, uma atriz que parece ter se especializado, desde Ruth e Raquel de "Mulheres de Areia", a refazer magistralmente personagens já vividas também magistralmente por outras atrizes.

No entanto, como toda boa adaptação, a novela difere muito do romance de mesmo título escrito por Maria José Dupré em 1943 e publicado desde 1970 na série "Vagalume", da Editora Ática. Aliás, uma publicação que destoa dos livros infantojuvenis marcados pelo tom de aventura e de descoberta. Em linhas gerais, o romance narra a história da família Lemos, cujos pais Lola e Júlio, lutam para manter uma casa financiada e criar quatro filhos que, depois de adultos, afastam-se da mãe viúva, que termina seus dias num quarto de pensão de freiras. Ao contrário da telenovela, que tem como linha temporal os anos 1920-1940, o texto de "Éramos Seis" se passa entre 1914 e 1934, exatamente no grave período do Entre-Guerras com suas crises políticas e econômicas.

Com o romance de Dupré, entramos em contato com algo que parece mexer com o imaginário de brasileiros pobres desde sempre: o medo da miséria, o terror pela falta de teto e a constante ameaça de abandono e de indigência a que muitas Donas Lolas, tanto as mulheres de 1914 quanto as desse horrível início de século, vivem. Talvez seja por isso que o livro e suas adaptações televisivas ainda calam fundo no imaginário brasileiro, marcado pela certeza de que dois passos dados rumo a uma mínima dignidade representarão dez passos para trás rumo a não-cidadania, uma doença que nos assola desde a colonização.

Andre Gomes Ogùnkeyè, é doutor em Teoria da Literatura pela Unesp e pós-doutorando da UEPB em Campina Grande (PB)

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