Grupo Diário da Região   | quarta-feira, 25 de setembro
IMG-LOGO
Home Comportamento
Comportamento

"Arrisquei, paquerei e deu match"

Descubra o desfecho de uma mulher que se aventurou em um aplicativo de relacionamento

Texto: Gabriela* - 15/09/2019 00:01

No livro "o inferno", de Dante Alighieri, o protagonista se encontra, no meio da vida, em uma selva escura. Os dilemas do cotidiano de uma mulher que vive sozinha, perto dos 40 anos, se assemelham aos do autor italiano. Bem formada, descasada há tempos, filhos adultos, um MBA conquistado com suor e boletos a vencer... mas a terrível nostalgia da falta de aventura amorosa. A rotina de casa/trabalho alertando para o fato de que o texto de Dante talvez não fosse tão ruim quanto o enorme tédio que se estendia pelo horizonte.

O que dizer da vontade para me aventurar em saltos altos ou para frequentar a lista de peguetes de playboys?

Nesta altura da vida, o pique para tirar selfies já exigia vencer uma enorme preguiça, mas o cenário de solidão me deu uma forcinha.

Escolhi duas fotos bem tiradas, uma iluminação que favorecia esconder a idade, nada de decote ou apelo sexual explícito, no máximo o botox refeito, criei coragem, instalei o aplicativo de paquera.

A novidade foi... não encontrar novidade nenhuma, porque o aplicativo é como qualquer outra mídia social e, portanto, como na vida, você recebe muitas cantadas, mas volume nunca é sinal de qualidade.

Vencido o preconceito inicial, senti até um entusiasmo por encontrar tantas pessoas comuns. Homens com perfis bacanas, fotos indicando atividades culturais e viagens, apresentações pessoais criativas e românticas, tudo muito distante da perversidade que passou pela minha cabeça que pudesse existir. Passou aquele medo de estar entrando desavisadamente em uma rave só com pessoas descoladas ou em festa privada.

Afinal, a verdade é essa, o grande medo de quem está na meia idade é se deparar com um ambiente totalmente fora do comum, algo como ir a uma boate de striptease e se perguntar logo de cara, "o que eu vim fazer aqui?"

Não aconteceu nada disso. Fui recebendo e distribuindo likes à medida que as imagens ou descrições de perfil foram me interessando e descobri, com certo alívio, que as pessoas não estão em tão boa forma física como deveriam e não estão tão preocupadas com isso como eu imaginava. Rolaram muitos matchs.

O mundo virtual em alguns momentos é igualzinho ao mundo real. Por exemplo, seriedade é bom, mas demais também não faz bem. Achar o cara o máximo e ficar à disposição é pedir pra ser desprezada. Muitas mensagens durante o dia demonstram a falta de atividade profissional e desespero, o que desclassifica o candidato no treino, não vai nem pro jogo.

O equilíbrio entre o tempo de cada um e a distância entre as mensagens também vai mostrando interesse e identificação, os apressados se acalmam e os mais distraídos se ligam no ritmo do outro, pois, se existe interesse, tem que haver esse entrosamento. Quem exige atenção, já perdeu.

Os mais novos são abusadinhos, querem fotos e mandam fotos, já têm seu próprio catálogo para essas situações e estão mais preparados para esse tipo de relação mais virtual, fervilhando ao ritmo de "saudade do que a gente ainda não viveu". Não querem conversa e vão direto pro sexo, mas pedir nude pra quem é de outra geração e não nasceu ligado no celular é falta grave, um susto.

Alguns homens são muito chatos e não sabem, vale a pena explicar pro leitor. Sabe aquele tipo que quer explicar "quem ele é" pro outro "saber bem com quem está lidando"? Gente que se acha é chato demais.

Quem é desconfiado de tudo, mas está ali só pra dizer que não tem "nada de bom naquele lugar" é super chato. Tem homem adulto que tenta dizer que não fez o perfil, foi o "sobrinho, sem ele saber". Inacreditável como as pessoas têm medo de assumir o que querem, mas tá todo mundo no mesmo barco, então esse papinho, além de chato, é subestimar as pessoas, vamos falar sério.

Quando nossas exigências começam a aparecer, a lista que começou grande, vai diminuindo drasticamente.

O prêmio de chatice vai para o tipo que posta foto exibindo o carrão, se achando uma preciosidade, exibindo a grife do motor. Dica pra quem for homem: não faça.

Os saradões brincam com dúzias de fotos na academia ou com promessas de entusiasmo sexual. Se exibem à procura de plateia, mas mulher adulta já entende que o galã nem sempre faz a melhor interpretação, pode até ser bonito de ver, mas quase sempre não é o melhor show.

O aplicativo se mostrou, afinal, outro lugar cheio de gente bonita e com pouca criatividade, pois escondemos quem realmente somos. Escondemos a idade, as gordurinhas, as decepções. Todo mundo procurando por algo a mais.

Eventualmente, um ou outro admite que está ali só para aventuras, mas de fato, todo mundo está.

Conforme o tempo passa ali, pude perceber que, mesmo assim, continua muito difícil superar outras barreiras. Então me dei conta... seria fácil, poderia, deveria... se não fosse... todo o resto que é impossível expor... expectativas, modo de falar, mal jeitos e brincadeiras indevidas, excessos de condições, falhas de caráter, materialismo e algo que percebi ser a grande ruína para a atração física feminina: pouca altura. Muitas coisas são contornáveis, como as distâncias, hábitos. Até as paixões muito distantes das nossas podem ser absorvidas, mas baixa estatura é matador, não há o que fazer.

Penso que acabei atraindo vários perfis bacanas, seja pela escolha das fotos ou a independência financeira, mas vi um certo brilho nos olhos dos conquistadores ou carentões, embora os homens costumem ter a tradição de chamar de amor o que a gente sabe que é só muita vontade. Os que dizem que são as mulheres que se iludem não conhecem os efeitos dos hormônios nos cérebros masculinos.

Filtra daqui e filtra dali, encarei alguns paqueras e, pra escapar da chance de estar em risco com um total desconhecido ou com algum psicopata, sempre em cafés públicos e movimentados. Escapei de algum grau de loucura, mas nem tanto.

*Pseudônimo - Depoimento de leitora que autorizou a divulgação do seu relato

Neném

A lista de contatos que prometia se transformar em paqueras foi ficando recheada de fracassos. As pessoas podem ser tolas, engraçadinhas, prepotentes ou incômodas antes mesmo de se conhecerem, tive um bom exemplo com o primeiro que me interessou. Quase uma década mais jovem, alto, bonitão, engenheiro, esportista, bom de prosa. Trocamos WhatsApp e eu me empolguei, mas só até ele me lembrar que um tipão assim não costuma estar disponível se não existir algum defeito grave que o comprometa, destempero completo entre as opções.

Conversamos e trocamos imagens, faz parte do esquema ir descobrindo se estamos mesmo trocando mensagem com alguém atraente, para evitar a perda de tempo, o "parecia mas não é". Só que não tinha nada de errado com a imagem dele, era bonito mesmo, na mesma proporção que era doido.

Conversamos bastante no primeiro dia, no dia seguinte eu respondi às mensagens que ele mandou após meu expediente de trabalho, explicando que estava cansada. No dia seguinte recebi um ponto de interrogação no WhatsApp e quando fui responder, no final do dia, era tarde. Recebi um audio i-nes-que-cí-vel, com sermão, dizendo que eu só podia estar de brincadeira, que era uma ofensa não responder, e me deu um prazo para que eu lhe procurasse novamente. Em choque, não sabia se chorava ou se ria, mas como rir sempre foi um negócio melhor e bebezões não são muito para o meu perfil, segui o baile.

Mulher da vida

Como eu disse, a carência faz um sopro de vida parecer um oásis. O segundo paquera aconteceu com um já conhecido em minhas mídias sociais, o que permite a sensação de familiaridade, porque já sabíamos quem era o outro e que odiávamos o PT. Papo empolgante, inteligente, histórias de vida com passagens semelhantes, separações dolorosas, filhos com dilemas parecidos... pareceu que tínhamos tudo a ver, mas deu ruim. Após duas semanas de muitos áudios e prestes a marcar o segundo café, eu vi a miragem esfarelar: "Pensei muito no que eu vou dizer e tenho certeza absoluta, você é a mulher da minha vida". Nem marquei o café, já engasguei ali. Sério, falta de bom senso dá um medo terrível e se não sei brincar, nem desço pro play.

Don Juan

São tantas as maquiagens, mas o personagem continua o mesmo. Esses que prometem amor à primeira vista, muito valor para a família, amor pra vida inteira, me parecem políticos em campanha, desaparecem assim que conquistam nosso voto. Felizmente eu tenho um repelente pessoal que reconhece e tem repulsa à hipocrisia, e o tom de voz muito doce em homens faz meu alarme interno tocar. Desconfio de tudo, gente que me soa falsa ou arrumadinha demais, pra mim faz o estereótipo charlatão, eu já começo a ter paranoias esperando quando é que ele vai pedir um empréstimo para socorrer a tia doente.

Adotei uma estratégia infalível para esses casos, que foi tiro e queda no terceiro contato. Muitos elogios à minha, nem tão maravilhosa, beleza e no primeiro café eu ganhei uma caixa de chocolates de impressionar pela etiqueta... pausa pro oxigênio voltar pro cérebro. Claro que é uma delícia, qualquer mulher adora um mimo sofisticado, mas esse negócio de brincar de iludir não é mesmo comigo. Citei a generosidade, a despeito de uma economia difícil no País, incluindo a minha. Foi tiro e queda. No mesmo dia ganhei um textão, ainda recheado de elogios, mas a impossibilidade de continuar nosso recém nem-começado relacionamento.

Final feliz?

Felizes para sempre ainda existe, se focarmos mais no "felizes" do que no "para sempre".

Quando eu já tinha peregrinado o suficiente para desistir do aplicativo, um paquera que a princípio não tinha colocado fé (filhos pequenos, uma etapa de vida muito diferente da minha) acabou se tornando amigo. Bom papo daqui, bom papo dali e acabei me interessando mais. A amizade é um ótimo disfarce pro amor e, de tanto conversarmos, deu vontade de conversar mais e mais. Outras qualidades e afinidades surgem, quando a coisa é pra ser. Um homem quando quer, tira empecilhos da frente e foi isso a que assisti. Ainda assisto, por assim dizer. Se vai dar certo só o tempo dirá, mas de uma coisa tenho convicção: a de que talvez os finais felizes não existam, mas começo a pensar que talvez o que não exista sejam os finais, porque dias felizes existem, sim, e se soubermos cultivá-los bem, eles podem fazer uma boa morada em nós.

Editorias:
Comportamento
Compartilhe: